08 de julho de 2026
Ser

Envelhecer bem é aprimorar o próprio eu

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 4 min

Tudo é questão de modismo, até mesmo o não envelhecimento. Mas a moda é muito superficial e passageira e, ao acompanhá-la fielmente, o indivíduo deixa de cultivar o seu próprio eu para valorizar apenas o padrão imposto pelo grupo do qual faz parte.

Em jornalismo é usado o termo “gancho” para definir o essencial de uma matéria. Nesse sentido, o principal “gancho” da vida, de acordo com as psicólogas Regina Célia Paganini Lourenço Furigo e Ana Cristina Musa Minervino Pereira, seria manter o elo com o interior do ser. Quando se perde esse referencial, a pessoa pode ter problemas psicológicos de identificação. Ela não sabe mais quem é, não reconhece sua imagem refletida no espelho.

Esse tipo de distúrbio ocorre quando a pessoa perde o referencial do que é bom apenas para ela para comparar-se com o que é essencial também para os outros. As pessoas estão muito desfocalizadas de serem seus próprios parâmetros e isso desencadeia um processo de competição exagerado. Mas deve-se ter claro de que o que é bom para um, pode não ser bom para outro, por isso cada ser possui sua identidade e deve aprimorá-la e cuidar para que ela não se perca entre conceitos de certa forma impostos pela sociedade capitalista em que se vive hoje em dia.

De acordo com a psicóloga Regina Furigo, o cuidado com a aparência é essencial, mas as pessoas nunca devem tornar-se dependentes da beleza física. Na opinião dela, as pessoas devem procurar outros sustentáculos dentro de si que não só a beleza. “As pessoas devem voltar-se para outros valores interiores, embora não devam deixar de se preocupar com o bem-estar e até com a beleza em si, mas que não fiquem presas só nisso, devem cultivar a beleza da alma, que é imortal”, avalia.

Regina explica que o fato das pessoas estarem sempre em busca de uma aparência mais jovem se explica pelo enigma da morte. O ser é finito e a morte, que é conseqüência do envelhecimento, ainda não foi decifrada, é o grande enigma do ser humano. Para afastar-se da morte, as pessoas buscam a “eterna juventude”, mesmo sabendo que isso não é uma resolução para esse mistério. Não há cremes, plásticas ou qualquer tratamento que evite a morte. Nem mesmo os resultados positivos de um tratamento estético são capazes de aumentar a estimativa de vida.

Para Regina, um dos motivos que leva o ser humano a ser extremamente vaidoso e se atentar somente para o lado estético de sua existência, é a sociedade capitalista em que se vive atualmente. Essa forma de vida cultiva a questão do narcisismo, da egolatria.

Idade falsa

Hoje em dia é fácil disfarçar a idade e muitas pessoas fazem isso. Os adolescentes, muitas vezes, mentem e dizem ter uns anos a mais, com o objetivo de terem mais liberdade dentro do meio em que vivem. Os mais idosos enganam porque sentem-se bem em aparentar nem que seja apenas seis meses a menos.

A psicóloga Ana Cristina Musa Minervino Pereira explica que a condição do adolescente parecer mais velho abre a possibilidade de uma série de coisas. A liberdade fica mais expandida, nesse caso. Já para o adulto, de acordo com ela, parecer mais velho significa perdas de capacidade, direitos, disposição, entre outras. Ela diz que mesmo sem ter a idade real, antecipar com a aparência vive-se implicitamente as ameaças dessas perdas.

A professora dos cursos de Fonoaudiologia e Psicologia Ana Cristina, lembra que os traços da idade, algumas vezes, são muito evidentes entre mães e filhas. Uma garota que se parece muito com a mãe, pode ter uma idéia de como será com alguns anos a mais. É o caso de Maria Luiza Serpa Kawasaki, 41 anos, e Cláudia Kawasaki, 21 anos. As duas, mãe e filha, são muito parecidas e Cláudia vê na mãe um espelho do futuro.

Em casos como este, há até uma certa disputa entre mãe e filha, mas entre Maria Luiza e Cláudia não é assim. “Nós nos damos muito bem. Já falaram muitas vezes que parecemos irmãs, mas isso nunca abalou nosso relacionamento, porque a Cláudia nunca teve nenhum grilo com isso”, conta a mãe.

Ela lembra que a filha tem orgulho de ter uma mãe jovem e bonita, mas vai além e diz que a garota já afirmou que se pudesse ter escolhido seus pais, escolheria as mesmas pessoas. Não trocaria nada. Elas não têm uma rivalidade porque Maria Luiza sempre assumiu seu papel de mãe, de acordo com a psicóloga Ana Cristina. “Quando a mãe ou o pai é uma pessoa bem realizada, feliz, o filho gosta e fica orgulhoso, mas se os pais são pessoas que, de alguma forma, não deram certo, o filho pode sentir-se ameaçado e temer que seu futuro não seja promissor”, explica. Ela complementa dizendo que o filho pode se sentir orgulhoso de ter uma mãe jovem, mas precisa que os pais vivenciem a condição de pais. “Vendo assim, é muito mais reforçador para a mãe se sentir comparada com a filha, do que para a filha, porque esta quer que os papéis sejam bem definidos, inclusive para os olhos dos outros”, afirma.

A psicóloga aconselha que a vaidade é importante, mas as pessoas devem descobrir a beleza de cada idade. Então, a mãe, não precisa se igualar à filha, e sim valorizar sua própria beleza, que faz parte do momento em que está vivendo.