08 de julho de 2026
Articulistas

Vidas privadas


| Tempo de leitura: 2 min

Em nações do Norte e do Sul do mundo os governantes e as companhias estão aplicando políticas em matéria de informação, que criam uma inquietante lembrança dos regimes totalitários e autoritários de todas as crenças. Essas políticas de governantes e grandes empresários buscam alcançar cada vez mais segredo para suas próprias operações enquanto, ao mesmo tempo, montam cada vez mais descaradas invasões da privacidade dos cidadãos.

O 11 de setembro também acelerou a invasão da privacidade pessoal, já facilitada pelo desenvolvimento de novas tecnologias de vigilância. O governo de George W. Bush recentemente anunciou a formação de um Sistema de Informação e Prevenção do Terrorismo (TIPS), que listará todos os carteiros e entregadores dos correios, bem como leitores de energia elétrica, gás ou água e ainda outros trabalhadores que por sua função possam entrar nas residências para que informem ao FBI (polícia federal dos Estados Unidos) sobre qualquer “atividade suspeita” que observarem nas casas que visitam.

A idéia de que tanto o segredo obsessivo quanto a vigilância invasora e agressiva são essenciais para manter a segurança pública pressupõe que essas estratégias realmente protegem o público. Entretanto, na verdade, elas colocam gravemente em perigo os cidadãos comuns ao negar-lhes a informação à qual legitimamente têm direito e que é essencial para determinar a eficácia e a propriedade das políticas governamentais e empresariais. Mas governo e corporações expropriam a informação privada dos indivíduos para usá-las, freqüentemente, com a finalidade de inibir comportamentos pessoais e suprimir toda objeção ao “statuo quo”.

Os cidadãos sofrem uma posterior desvantagem com esta unilateral guerra da informação porque as tecnologias mais avançadas estão à disposição apenas dos governos, das grandes empresas e dos indivíduos mais ricos, que ameaçam fazer passar por delitos passíveis de perseguição criminal comportamentos inocentes dos cidadãos.

Quando nossa intimidade é quebrada e se usa falsamente informação contra nós, nossa franqueza e retidão constituem nossa mais potente defesa. Em lugar de nos retirarmos para posições de indefensável segredo, devemos viver e agir de modo que se formos desafiados não tenhamos nada do que nos desculpar. Ao viver “na verdade” - para usar memorável frase de Vaclav Havel - transformamos nossa vulnerabilidade em virtude. É interessante assinalar que a intrusão agressiva das autoridades dos Estados e das corporações provoca cólera não só em civis liberais como também em conservadores de princípios.

Alguns dos mais mordazes críticos das políticas de segredo e agressão contra a privacidade do governo de Bush são conservadores que censuraram Bill Clinton por seu enganoso comportamento e que, agora, denunciam energicamente as tendências “ditatoriais” de Bush. Nesta transcendental série de problemas, uma esquerda e uma direita durante tanto tempo separadas por um abismo de desconfiança mútua acreditam que suas inquietações convergem para o que poderia converter-se, sob determinadas circunstâncias, em uma potente coalizão a favor de uma verdadeira transparência tanto por parte dos governos quanto dos governos e dos indivíduos. (O autor, Mark Sommer, é escritor e colunista norte-americano)