Em nações do Norte e do Sul do mundo os governantes e as companhias estão aplicando políticas em matéria de informação, que criam uma inquietante lembrança dos regimes totalitários e autoritários de todas as crenças. Essas políticas de governantes e grandes empresários buscam alcançar cada vez mais segredo para suas próprias operações enquanto, ao mesmo tempo, montam cada vez mais descaradas invasões da privacidade dos cidadãos.
O 11 de setembro também acelerou a invasão da privacidade pessoal, já facilitada pelo desenvolvimento de novas tecnologias de vigilância. O governo de George W. Bush recentemente anunciou a formação de um Sistema de Informação e Prevenção do Terrorismo (TIPS), que listará todos os carteiros e entregadores dos correios, bem como leitores de energia elétrica, gás ou água e ainda outros trabalhadores que por sua função possam entrar nas residências para que informem ao FBI (polícia federal dos Estados Unidos) sobre qualquer “atividade suspeita†que observarem nas casas que visitam.
A idéia de que tanto o segredo obsessivo quanto a vigilância invasora e agressiva são essenciais para manter a segurança pública pressupõe que essas estratégias realmente protegem o público. Entretanto, na verdade, elas colocam gravemente em perigo os cidadãos comuns ao negar-lhes a informação à qual legitimamente têm direito e que é essencial para determinar a eficácia e a propriedade das políticas governamentais e empresariais. Mas governo e corporações expropriam a informação privada dos indivíduos para usá-las, freqüentemente, com a finalidade de inibir comportamentos pessoais e suprimir toda objeção ao “statuo quoâ€.
Os cidadãos sofrem uma posterior desvantagem com esta unilateral guerra da informação porque as tecnologias mais avançadas estão à disposição apenas dos governos, das grandes empresas e dos indivíduos mais ricos, que ameaçam fazer passar por delitos passíveis de perseguição criminal comportamentos inocentes dos cidadãos.
Quando nossa intimidade é quebrada e se usa falsamente informação contra nós, nossa franqueza e retidão constituem nossa mais potente defesa. Em lugar de nos retirarmos para posições de indefensável segredo, devemos viver e agir de modo que se formos desafiados não tenhamos nada do que nos desculpar. Ao viver “na verdade†- para usar memorável frase de Vaclav Havel - transformamos nossa vulnerabilidade em virtude. É interessante assinalar que a intrusão agressiva das autoridades dos Estados e das corporações provoca cólera não só em civis liberais como também em conservadores de princípios.
Alguns dos mais mordazes críticos das políticas de segredo e agressão contra a privacidade do governo de Bush são conservadores que censuraram Bill Clinton por seu enganoso comportamento e que, agora, denunciam energicamente as tendências “ditatoriais†de Bush. Nesta transcendental série de problemas, uma esquerda e uma direita durante tanto tempo separadas por um abismo de desconfiança mútua acreditam que suas inquietações convergem para o que poderia converter-se, sob determinadas circunstâncias, em uma potente coalizão a favor de uma verdadeira transparência tanto por parte dos governos quanto dos governos e dos indivíduos. (O autor, Mark Sommer, é escritor e colunista norte-americano)