10 de julho de 2026
Geral

Internet permite que família acompanhe filhos em escola

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 6 min

Adepto dos recursos tecnológicos, o Colégio Dinâmico Balão Azul passou a disponibilizar via Internet um sistema que possibilita aos pais o acompanhamento de seus filhos na escola através do site da instituição de ensino.

A idéia da visualização ao vivo, lançada no início deste mês, tem como objetivo matar a curiosidade da família sobre o comportamento de suas crianças diante de professores e colegas, além comprovar a qualidade dos cursos oferecidos. É o que informou a diretora do colégio, Deise Vitti Cincoto.

Segundo ela, antes que as 16 câmeras fossem posicionadas nas dependências da escola, incluindo pátios, salas de aula e corredores, o colégio fez alguns estudos técnicos preliminares. “Desde que passamos a oferecer o serviço, denominado ‘Dinamiconet Ao Vivo’, só recebemos retorno positivo. Alunos, familiares e professores gostaram da idéia. A maioria já se acostumou com as câmaras e nem pensa mais nelas”, conta.

Para Cincoto, o recurso de imagem também visa reforçar o conceito de transparência da instituição, já que, em muitos casos, apenas o comentário da criança sobre a condução das disciplinas, por exemplo, não basta para confirmar os atributos pedagógicos da escola.

“Como nunca enfrentamos problemas com o comportamento de nossos estudantes, não é nossa intenção que eles sejam monitorados ou vigiados pelo pais através do sistema. Queremos especificamente mostrar nossa qualidade por meio do diferencial”, explica a diretora.

Segurança

Com o intuito de garantir que apenas os responsáveis pelas crianças tenham acesso às imagens disponibilizadas no site, o Colégio Dinâmico Balão Azul vai oferecer, a partir do próximo mês, senhas individuais às famílias, que serão substituídas mensalmente.

Contudo, para lançar o recurso no início deste mês, a família dos cerca de 500 alunos da instituição de ensino recebeu uma senha única, enviada através da agenda dos estudantes.

“Todo esse cuidado e a própria inovação tecnológica fizeram com que nossos alunos se sentissem importantes. Por isso, embora o ‘O Dinamiconet Ao Vivo’ não tenha sido desenvolvido com o objetivo de melhorar a disciplina em sala de aula, o comportamento das crianças ficou melhor”, comemora Cincoto.

Conforme explica o professor de informática do colégio, José Antonio de Oliveira, para que a família acesse as imagens via site, basta ter em casa um computador e um modem com configuração padrão. “Se tiver speed, a transmissão fica excelente”, orienta.

Sem consenso

Independentemente das dificuldades técnicas ou profissionais enfrentadas, Rejaine Mançano, mãe de duas alunas matriculadas na escola, não desgruda do computador.

“O único defeito do projeto ‘Dinamiconte Ao Vivo’, implementado pelo Colégio Dinâmico Balão Azul, é que eu quero ficar o tempo todo vendo meus bebês, até porque elas ainda são pequenas. Uma tem um ano e está no berçário e a outra tem dois anos e está no maternal. Às vezes fico em conflito durante meu expediente”, se justifica.

Segundo ela, a confiança na instituição aumentou após a iniciativa, pois, na sua opinião, se a escola quer mostrar seu trabalho é sinal de que não tem nada a dever. “Sempre confiei nas atividade executadas aqui, ainda mais agora”, ressalta.

Compartilha da mesma opinião Adriana Domingues Parra, mãe de uma aluna de dez anos, estudante da quarta série. “Achei ótimo este novo serviço porque como tenho uma filha muito extrovertida, sempre tive curiosidade em saber como ela se relaciona com colegas e professores. No início do projeto, ela sentava num local meio escondido justamente para que eu tivesse dificuldade em vê-la, mas liguei para o escola e pedi para tirá-la de lá”, diz.

Adriana informou que recebia bilhetes de professores com reclamações da filha, amante de uma boa prosa, mas que a situação mudou após a instalação das câmeras de vídeo. Segundo a mãe, o recurso favoreceu a concentração da aluna que, diariamente, pergunta aos pais se eles a observaram através da Internet.

Entretanto, o acompanhamento ostensivo da criança não é visto com bons olhos por Maria Cristina Ruiz, que tem uma filha de nove anos matriculada em outra escola privada. “Não gostaria de monitorar minha filha nem que outras pessoas a vissem enquanto ela está estudando. Para mim, privacidade é essencial e deve ser respeitada. Desde quando ela era muito nova, bato na porta do quarto dela para entrar, por exemplo”, explica.

Outro problema identificado por Maria Cristina diz respeito à naturalidade da criança. Ela teme que aquelas que se habituem com a presença da câmeras passem a interpretar algo que não são.

Avaliação do projeto não é unânime

A psicóloga infantil Marly Bighetti Godoy acredita que o projeto ‘Dinamiconet Ao Vivo, desenvolvido pelo Colégio Dinâmico Balão Azul, é questionável e deve ser muito bem estudado para não provocar consequências danosas às crianças submetidas às câmeras.

Segundo ela, todas as pessoas, inclusive os funcionários da escola, têm direito à privacidade e à liberdade de expressão.

“Para implementar um recurso como este, a instituição precisa ter razões muito fortes. A transparência de um estabelecimento pode ser apresentada de outra maneira. Além disso, se os pais têm dúvidas sobre a qualidade do serviço prestado numa escola, deve retirar seus filhos lá”, explica.

A psicóloga defende que qualquer trabalho infantil só pode ser exposto mediante a autorização da própria criança. Na opinião dela, expor o comportamento de um estudante, em alguns casos, pode até comprometer sua formação.

â€œÉ preciso ter muito cuidado para não usar a informática de maneira inadequada. O assunto merece um longo debate. Até o professor pode perder a naturalidade e ninguém tem o direito de interferir no trabalho que ele desenvolve”, justifica.

A professora de geografia do Colégio Dinâmico Balão Azul, Silvia Cristina Fiorin, confirmou que seu comportamento está levemente diferente desde que o projeto foi implementado. Agora ela diz se policiar mais durante as aulas. Contudo, garante que as imagens não a deixaram constrangida ou intimidada.

“Como trabalhamos dentro de um espírito de equipe muito forte, acredito na idéia, que tem como objetivo apenas ressaltar a qualidade e a transparência do nosso empenho”, esclarece.

O mesmo recurso, proveniente de convicções idênticas, foi estudado pela diretoria da escola particular Criarte, há dois anos. Contudo, a instituição desistiu de implementá-lo, conforme informou a diretora Erika Carvalho.

“Nosso plano era oferecer o serviço apenas para o berçário, mas experiências negativas constatadas em São Paulo nos dissuadiram. As mães ficam viciadas nas imagens, o que não consideramos saudável”, explicou.

Ela ainda ressaltou que os vídeos poderiam tolher a naturalidade da criança e como nesta fase o que mais importa é a espontaneidade, a idéia foi engavetada.

Protagonistas

Embora Rafael Aguiar Serrano, 10 anos, aluno da quarta série do Colégio Dinâmico, ainda não tenha acessado as imagens através da Internet, garante que já mudou seu comportamento na escola. Diz estar abrindo mão das pequenas bagunças que fazia. “Eu nunca esqueço que estou sendo filmado”, confessa.

Já seu colega, Fernando da Silva Bautz, 9 anos, aluno da terceira série, conta que nem lembrar das câmeras. “Meus pais não tem tempo mesmo para me observar, então nem ligo. Acho o Dinamiconet legal porque posso ver os meus amigos que passaram para outro período”, esclarece.

Enquete

Com o intuito de dar início a uma discussão sobre o assunto, o Colégio Dinâmico Balão Azul está disponibilizando em seu site uma enquete, onde a população poderá expressar sua opinião. O resultado será automaticamente visualizado após a votação. O endereço é www.dinamiconet.com.br