08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A moça pobre e a madame


| Tempo de leitura: 3 min

Era mais uma manhã de muito calor em nossa cidade, e a pobre garota perambulava de porta em porta em busca de um novo emprego de doméstica. O suor escorria pelo seu rosto, mas não a intimidava de forma alguma. A lembrança de seus familiares e a vontade de restabelecer sua própria vida a moviam em passos vigorosos. Ao chegar a um endereço que lhe foi passado por uma colega num elegante condomínio, imaginou que pudesse terminar ali seus passos rumo a uma nova oportunidade de trabalho.

A senhora bem vestida e com uma cadelinha poodle no colo atendeu à porta sem entretanto abri-la para a pobre moça. A seguir, um pequeno trecho do diálogo surrealista que travou por instantes que pareceram séculos para a menina.

_ Bom dia senhora, eu vim conversar sobre a vaga de doméstica;

_ Você tem alguma referência para que eu possa checar ?

_ Tenho sim senhora;

_ Você está chegando muito tarde para quem quer um emprego, não terei muito tempo para conversar pois vou sair com minha “ filhinha” , a Lili.

A moça, sem nada entender, pensou por instantes que a madame se referia a uma criança; Ledo engano

_ O horário de trabalho é das 7:00 às 18:00 horas, pois é preciso além de cuidar da casa, dispensar umas duas horas por dia só para passear com a Lili.

A moça escutava atônita ao discurso da mulher que não parava de falar na tal Lili.

_ Você já cuidou de uma criança como essa minha ?

_ Embora sem entender, ela respondeu que havia trabalhado em casas com crianças de verdade;

_ A madame, sem perder a pose, mirou seu olhar pretensioso e arrogante na direção da menina, e vociferou que aquela que estava em suas mãos era mais do que uma filha, era a coisa mais importante da sua vida. A cadelinha Lili, parecia entender e lambia os lábios da dona para retribuir ao seu carinho.

A moça depois de ouvir todas as recomendações sobre como lidar com aquela “criança” no colo da mulher, comentou que estava com um pouco de pressa pois a travessia de volta para a Vila Aviação era perigosa. A madame furiosa lhe disse o seguinte:

_ Você não deve se preocupar com essas “bobagens”, pois nada é mais importante do que a minha filhinha Lili.

A moça, desanimada e um tanto incrédula, virou as costas e voltou para sua casa sem entender muita coisa do que havia ouvido naquela manhã.

Algumas pessoas exageram e passam do limite no que se refere ao amor que deve ser dispensado aos animais de estimação. Em nossa cidade existem centenas de famílias que dão mais importância a suas cadelinhas peludas, do que ao próximo que agoniza de fome à frente de seu portão.

Essa parcela da sociedade parece não querer enxergar o mundo real que está acima de seus muros, onde vivem encastelados e isolados do país real em que vivemos.

Essas mentes alienadas e pobres de espírito vivem num mundo irreal, longe das crianças que precisam de tão pouco para viver com dignidade, longe dos jovens que anseiam por oportunidades de emprego, longe de homens e mulheres que precisam muito mais do seu respeito e amor do que uma simples cadelinha, que teve a sorte de nascer numa casa, que faz parte de uma minoria abastada de uma nação, que tem milhões de desempregados sem direito a um prato de comida por dia. O que é muito menos do que a Lili recebe em sua vida de princesa canina. (Rafael Moia Filho - RG: 6.711.407-6)