08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador


| Tempo de leitura: 3 min

Pescaria Inesquecível II O cascudo que não era

“Ói nós aqui traveis pra contar proceis” mais uma História de Pescador, cujo relato baseia-se em fatos absolutamente reais, que tentarei passar aos nobres leitores desta “gloriosa coluna” com a maior fidelidade. Esta história tem exatamente vinte anos, pois aconteceu em setembro de 1982, na minha primeira viagem ao Pantanal do Mato Grosso, mais precisamente no rio Miranda, na Estação de Salobra, onde está localizado o Rancho do Zolindo Costa, o mesmo já citado aqui e de cuja porta se avista perfeitamente a grande ponte metálica da NOB sobre o rio.

Uma pescaria pantaneira como se fazia há vinte anos é bem diferente das que são praticadas naquele mesmo local, pois naquela época as incursões não tinham o conforto e a comodidade atuais, a começar pelos peixes na sua quantidade e qualidade, pois na volta dessa viagem, foram pesados mais de duzentos quilos de pacus, cacharas, pintados e dourados em apenas oito dias de pesca, que foram divididos em proporções iguais entre os pescadores a saber: meus dois irmãos Chico Luzia e Fernando Lucilha Junior, Rubens Canhete, Professor Augustinho, Neguitinha e Célio Tentor. A luz ainda era de lampião e a geladeira e o freezer eram mantidos funcionando a querozene. Os pernilongos atacavam com hora certa, ou seja, das 17h às 21h, em verdadeiras nuvens que sumiam como por encanto depois do último horário.

Desnecessário se faz dizer que eu fui personagem principal da viagem, a minha primeira pescaria no local, convidado que fui pelo seleto grupo, não tendo despesa alguma, em troca dos meus préstimos culinários, pois ficaria encarregado do rancho, tanto na sua conservação quanto na alimentação do pessoal. Isso graças a minha grande experiência adquirida em 25 anos como cozinheiro de um navio que viajava pelas três américas, mas isso são outros quinhentos e uma outra história. Os que me conhecem sabem que sou “um pouquinho” gago, isto é, não tenho pressa de falar e quem quiser me ouvir que espere e todos serão felizes para sempre. Fomos recebidos ao entardecer, na margem oposta do rancho, pelo caseiro Lorí e seu filho Dinho, que na verdade se chamam Lourival e Ladislau, e não me perguntem o porquê do apelido Dinho, pois não saberia explicar. O garoto tinha então 12 anos e era quinhentas vezes mais gago do que eu, que era o único que não sabia disso. Ele era o tipo de gago que pisca muito enquanto fala e ainda, de quebra, balança a cabeça feito vaquinha de presépio. De início já fui ficando nervoso, pois achava que o garoto estava gozando com a minha cara e já sentia certa vontade de lhe dar uns catiripapos quando o pessoal me avisou que ele era realmente o que apresentava, ou seja, gago feito uma metralhadora. Nada é pior para um gago do que alguém tentar ajudá-lo e se antecipar dizendo o que ele pretende falar. É simplesmente frustrante e faz com que o gago fique ainda mais gago do que já é. Ainda bem que não gaguejamos quando escrevemos, pois se assim fosse, esta história demoraria muito mais tempo para ser contada. Eu me divertia muito batendo longos papos com o Dinho, o que era uma verdadeira incoerência pois um gago sempre acha muita graça em outro gago..."

Irineu Luzia Fernandes

(Esta curiosa história continua na próxima edição)