08 de julho de 2026
Auto Mercado

'Rabo de galo' pode custar caro

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Em tempos onde economizar é uma das palavras de ordem para equilibrar o apertado orçamento doméstico, os motoristas brasileiros, principalmente os donos de automóveis à gasolina, apelam para as mais variadas alternativas para fugir dos altos preços do combustível.

Uma dessas táticas tem crescido na preferência dos condutores nacionais, inclusive os bauruenses, na hora de abastecer os veículos: adicionar grandes quantidades de álcool à gasolina. A prática, apelidada de “rabo de galo” (bebida tradicional vendida em bares feita à base de cinzano e pinga), aproveita o fato do álcool hidratado ser mais barato que a gasolina para diminuir a “mordida” no bolso no ato de pagar pelo combustível.

É comum encontrar carros rodando com o tanque meio a meio - 50% de gasolina e 50% de álcool -, conforme revelam os próprios integrantes de postos de combustíveis bauruenses . Entretanto, o que muitos motoristas desconhecem é que a economia momentânea pode se transformar em uma tremenda dor de cabeça no futuro.

Segundo especialistas, misturar álcool hidratado à gasolina pode ocasionar uma série de problemas ao veículo e ser extremamente danosa especialmente aos motores. Além disso, colabora para aumentar o consumo e o desgaste prematuro de peças, exigindo trocas antecipadas.

O engenheiro mecânico bauruense Marcos Serra Negra Camerini confirma que a adição de quantias de álcool além das já existentes na gasolina - o combustível comercializado atualmente no Brasil já possui 25% do composto - pode gerar tais efeitos maléficos nos veículos. Para ele, fazer o “rabo de galo” é a mesma coisa que cometer um crime contra o motor. “Este funcionará com uma regulagem e o combustível terá outra”, alerta ele.

Entre os problemas que podem ser causados, Camerini cita a perda de eficiência e rendimento do motor, além do surgimento de ondas de choque capazes de trincar os pistões. “O propulsor foi projetado para gasolina e, se o álcool for adicionado, o ponto de injeção e de ignição ficarão errados. Ele funciona, mas não estará otimizado”, explica ele.

Outro problema lembrado pelo engenheiro é o aumento da corrosão interna do motor. “Em um motor a álcool, toda a parte de contato com o combustível está preparada contra a corrosão. Mas no caso do a gasolina, como há uma parcela muito pequena de álcool anidro misturado na gasolina, não há tanta proteção contra ela. Assim os problemas acontecem nos bicos injetores e na bomba de combustível”, afirma Camerini.

O engenheiro destaca, ainda, que os problemas mecânicos nos veículos só aparecem a longo prazo. “Os motoristas colocam meio a meio e acham que está tudo funcionando corretamente, mas os danos surgirão após determinado período”, enfatiza ele.

Para Camerini, o “rabo de galo é um artifício de “engana trouxa”. “As pessoas estão crentes que estão fazendo um grande negócio, mas não é bem assim. Elas são imediatistas é só pensam na economia na hora do abastecimento. Entretanto, se esquecem de levar em conta a manutenção, o desempenho e o desgaste que isso irá causar”, considera Camerini.

Conversões

Para o engenheiro bauruense, os proprietários de carros a gasolina só conseguirão economizar realmente se converterem seus automóveis à álcool. “Assim, ele estará otimizado para funcionar com o composto e conseguirá poupar uma quantia considerável”, frisa Camerini. “Para isso, ele terá de estar com o ponto de ignição alterado, velas, bicos injetores, chip de injeção e bomba de combustível trocadas e a taxa de compressão alterada”, completa.

O mesmo raciocínio também é seguido por Djalma Francisco, sócio-proprietário da JD Mecânica. “Se a pessoa não fizer a transformação, o motor não estará regulado 100%, a marcha lenta ficará oscilando e o consumo aumentará”, adverte ele. Segundo o mecânico, uma conversão completa custa cerca de R$ 450,00, já contabilizando a mão-de-obra.

Postos confirmam hábito

Representantes de postos de combustíveis bauruenses confirmam que o hábito de fazer o “rabo de galo” durante o abastecimento tem ocorrido com freqüência na hora de seus clientes encherem o tanque.

O gerente José Antônio Reghine, que trabalha em um dos postos mais tradicionais da cidade, ressalta que muitos motoristas têm optado por adicionar grandes quantidades de álcool à gasolina. “Isso ocorre todos os dias em, pelo menos, um a cada 20 abastecimentos em razão do preço da gasolina. Entretanto, quem age assim não está pensando no outro lado”, adverte ele.

Reghine explica ter conversado com pessoas que enfrentaram problemas logo após misturarem álcool no tanque de gasolina de seus veículos. “Como o álcool possui água e a bomba de combustível não é blindada, elas tiveram de trocar essa peça, que custa mais caro que as importâncias poupadas com o rabo de galo”, enfatiza ele.

Outro gerente de um posto bauruense, que preferiu não ser identificado, também destaca ser diário o movimento de motoristas que adotaram o hábito. “Varia muito, mas chega a ocorrer até em três de cada dez abastecimentos”, frisa.

Ele afirma, ainda, não ter conhecimento de donos de carros que enfrentaram avarias mecânicas ao fazerem uso do “rabo de galo”. Tanto que revela fazer uso de tal mistura já há vários anos. “Comecei aos poucos adicionando cerca de 10 e 15 litros e, agora, já ponho meio a meio. Rodo tranqüilo e nunca precisei levar meu veículo para oficinas a fim de resolver qualquer dano mecânico”, garante o gerente.