09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Solidariedade e compromisso evangélico.... em defesa das crianças


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A notícia de pedofilia e abuso sexual de crianças nas avenidas da província, estampadas no JC desta quinta-feira, 19/9, exorta nossa preocupação com a problemática. Dividi-la com todas as pessoas que conhecemos profissionalmente ou na igreja e na política durante anos é a oportunidade “da hora”. Saber que os meninos e as meninas saem de casa para “guardar carros” e se sujeitam ao abuso sexual como “fonte de renda”, portanto, trabalho infantil, mostra que o ser humano continua muito cruel com o mais frágil. Existe a violência factual e gritante, mas há também a outra, profunda e permanente: a violência estrutural. É a crueldade dos que organizam a sociedade e a vida, de modo que se torna necessário o “trabalho infantil”. Quem foi que disse, recentemente, que em Bauru não tem criança em situação de trabalho infantil? Prestar-se a “serviços sexuais” é ou não é trabalho infantil? Aliás, já disseram que “a profissão mais antiga no Planeta”- com as crianças não!

Recentemente, o governo americano negou-se a assinar um tratado contra o trabalho infantil. É a dureza de coração dos que fecham os olhos diante da extensão do tráfico sexual de menores e da escravidão de crianças, vendidas de uma a outra região, de um país a outro. Mas em nossas próprias cidades brasileiras, quantas crianças são usadas no tráfico de drogas como meio de transporte barato e menos perigoso? A nossa sociedade “bem-pensante” é, muitas vezes, a própria fonte das agressões às crianças.

A ONU declara que no mundo um bilhão e meio de menores de 18 anos vivem em condição de pobreza. Destes, 150 milhões de crianças sofrem desnutrição e dez milhões são consideradas crianças de rua. Não temos o número de crianças violentadas sexualmente por adultos. Até ministros religiosos e padres têm praticado este crime, mas o caso mais freqüente é na própria família, violência pior, porque vinda de pessoas nas quais a criança confia mais, irmãos mais velhos, o padrasto e, infelizmente, algumas vezes, até o próprio pai. Falar em proteger a criança é reconhecer que a própria sociedade é agressiva. E não se trata apenas de proteger, mas de respeitar o protagonismo da criança na sociedade. Protagonismo no sentido de capacidade de tomar iniciativa e assumir responsabilidade pela sua palavra, sua ação e sua vida.

Quem se liga à tradição religiosa judaico-cristã tem razões suplementares para valorizar isso, pois a Bíblia pôs a criança no centro de nossa fé. Basta abrir o livro e a gente lê. Todo o povo de Israel descende de Isaac, filho prometido a Abraão, enquanto os árabes descendem de Ismael, criança protegida pelo Anjo de Deus. Moisés, recém-nascido e salvo das águas, tornou-se instrumento da libertação do povo de Israel. Davi foi escolhido como rei quando era simples adolescente. Jesus deixou que as crianças o tocassem e disse: Quem quiser acolher o Reino tem de se tornar como uma criancinha (Mc 10, 15).

Um espiritual dizia: “Não é que a Bíblia nos fale muito da criança. É a criança que nos fala de Deus. É preciso acolher, respeitar e integrar as crianças” .

As políticas públicas são conquistas da sociedade. Todavia, a sociedade civil local parece que está meio cansada de exercer o papel de controle das mesmas, você não acha? Você não acha também que estamos todas e todos nos sentindo abandonados? Por falar em “oportunidade da hora”, se você também se incomoda com este assunto e deseja colaborar na reflexão/ação-participante, junte-se a nós. Instituto Terra Viva-Mulher, Família e Sociedade Pólo Regional Bauru; Pacto SPaulo contra o abuso sexual de crianças e adolescentes. (Rosa M. Morselli)