08 de julho de 2026
Cultura

Sobre Mundos: Vale a pena sofrer?

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Certa vez um beduíno, depois de percorrer vários quilômetros pelo deserto, com fome e sede, chegou finalmente a um oásis. Cansado pelo calor escaldante do deserto, o andarilho sentou-se debaixo das palmeiras. Depois de alguns minutos constatou que não havia, por ali, nenhuma fonte de água.

Desiludido o beduíno olhou para o chão e viu uma pequena muda de palmeira. Movido pela raiva, o rapaz pegou uma pedra e a colocou em cima da pequena planta para que esta não sobrevivesse e tivesse que viver no deserto: â€œÉ preferível que morra agora do que ficar neste lugar terrível!” Depois disso continuou sua caminhada.

Anos se passaram e o beduíno, que havia se tornado um grande comerciante, passava por aquela região com sua caravana de camelos e se lembrou da muda de palmeira e da pedra. Mandou então parar a caravana perto do oásis e começou a procurar a pedra que havia uma vez colocado no chão. Foi então que ao olhar de relance para o alto avistou a pedra na coroa de uma forte e enorme Palmeira.

Ao contemplá-la com um sorriso de admiração, o beduíno teve a nítida impressão de ouvir uma voz suave e carinhosa: “Eu te agradeço por ter-me colocado um peso tão grande sobre mim, pois graças a ele minhas raízes se tornaram mais profundas e puderam alcançar o lençol de água debaixo da areia.

Assim, pude me tornar a palmeira mais forte e bela deste oásis e sou capaz de dar sombra a todas as pessoas cansadas que chegam por aqui”.

O sofrimento é a vivência de uma “situação limite” que pode surgir em nossa vida a qualquer momento. Ele é sempre um processo individual, apesar de também estar associado a experiências de um coletivo.

De qualquer forma, o sofrimento sempre se constituiu em um desafio para o ser humano. Em seu livro “Ética a Nicômaco”, escreveu Aristóteles que “o homem prudente luta para libertar-se do sofrimento, não do prazer”. Esta luta, porém, nos parece quase que inútil, um perfeito castigo de Sísifo, pois é muito difícil desvincular a dor da vida, o sofrimento do viver.

Esta constatação, somada à necessidade de ser feliz, fez com que o filósofo Nietzsche descobrisse, para o problema, uma receita alquímica: o alcance da satisfação não está associado à eliminação do sofrimento, mas sim ao reconhecimento deste como uma etapa natural e inevitável no processo de conquistar algum bem. É impossível atingir o prazer na vida sem vivenciarmos períodos de dor, insatisfação ou sofrimento.

A própria sensibilidade do que é a alegria ou o prazer está na dependência do grau de tristeza ou de dor que experimentamos durante a vida. Nós permanecemos no constante sofrimento porque não conseguimos conhecer a fundo os ingredientes da satisfação.

Porém, nós só os conhecemos à medida que vivemos profundamente o sofrimento. “Se desejar diminuir e reduzir o nível de sofrimento humano, tem-se também de diminuir e reduzir o nível de sua capacidade para a alegria”, afirma o filósofo alemão.

Os mais satisfatórios projetos humanos parecem inseparáveis de um grau de tormento; estranhamente, as origens de nossas alegrias parecem residir junto àquelas de nossos sofrimentos.

Para Nietzsche “alguns tipos de ódio, a inveja, a obstinação, a desconfiança, a insensibilidade, a avareza e a violência fazem, ou não, parte das condições favoráveis sem as quais qualquer grande progresso, mesmo o da virtude, quase nunca é possível”. A confrontação com o sofrimento não é um caminho fácil de ser trilhado, mas é o único que pode gerar o nosso amadurecimento e com ele momentos intensos de prazer.

Como São João da Cruz, Nietzsche utiliza a metáfora da montanha: o sofrimento é o momento do alpinismo que nos faz deixar a mediocridade e atingir o topo da satisfação.

Porém, o sofrimento em si não significa automaticamente um caminhado à felicidade. Reverter ou não o mal depende do grau de perspicácia e de determinação daquele que sofre, ou seja, o surgimento da satisfação na vida depende sempre da maneira de encarar o sofrimento.

A inveja pode resultar em uma eterna amargura frente à realização pessoal dos outros ou na decisão de melhorar nossa vida buscando nossa própria realização pessoal. A arte de viver está justamente em se fazer bom uso de nosso lado negativo. Infelizmente, somos propensos a achar que a ansiedade e a inveja não têm nada a nos ensinar e as removemos como se fossem ervas daninhas.

Muitas vezes, preferimos a fuga de tudo que nos faz infelizes e nos causa sofrimento através da “cultura do analgésico”, da “neutralização estética” dos meios de comunicação ou de práticas religiosas anestésicas. Deixamos de compreender, assim, que o sofrimento é um caminho árduo, mas altamente compensador, que nos leva à confrontação com nossos erros, pensamentos negativos, atos destruidores ou situações de infortúnio.

“O segredo de se transformar uma existência em um terreno fértil e propício à colheita e também em grande divertimento é - viver perigosamente! Construam suas cidades nas encostas do Vesúvio!” (Nietzsche)