As novas descobertas levam a crer que a medicina convencional deverá adotar a transdisciplinaridade no atendimento de seus pacientes no futuro próximo, ou seja, o doente será avaliado e tratado por grupos de especialistas, que tomarão decisões em conjunto.
A afirmação é da psicóloga Carmen Neme, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Bauru). Ela foi questionada sobre a possibilidade da medicina trilhar o caminho inverso e, ao invés de especializar seus profissionais, retomar o conceito do médico que sabe um pouco sobre tudo.
“Acho que não. Cheguei a pensar nisso, mas hoje eu percebo que nós realmente precisamos dos profissionais cada vez mais especializados. Porque cada pedacinho nosso é um universo imenso para o campo de pesquisa. Só que esses profissionais, ao estudar aquele pedaço, devem ter em mente que aquilo não é a totalidadeâ€, comenta.
Ela ressalta que nas últimas décadas, a ciência adotou como conceito o estudo da parte pelo todo. Pensava-se que era só dividir o corpo humano em pequenos pedaços, estudá-los com profundidade e aprender a saná-los individualmente. Depois, era só juntar tudo.
“Este, na minha opinião, foi o grande engano da ciência. A psicologia da gestalt, a física e várias outras ciências mostraram que o todo não se resume à soma das partes (...) Nós precisamos sim de pessoas altamente capazes, especializadas, estudiosas e competentes, mas que tenham humildade científicaâ€, adverte.
Neme acredita que não haverá lugar para profissionais isolados no futuro. Ela observa que, atualmente, muitos centros hospitalares já adotam a multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade.
“Mas ainda é o modelo do gominho de lingüiça, um após o outro. Não estou falando só da soma de especialistas, mas de transdisciplinaridade, de profissionais que sejam realmente competentes em suas áreas, que conheçam a linguagem do outro e possam crescer juntosâ€, salienta.
O modelo ideal, segundo ela, é aquele em que o centro das discussões é o paciente. Cada profissional vai apresentar o que sabe sobre sua área de atuação e eles vão discutir o caso, tomando decisões coletivas.
“Não falo de passar por um médico, depois por outro. Falo de avaliação e tratamento integrais. Cada um vai abrir sua portinha, mas no centro da discussão, o que importa não é a doença e sim o doente. E o adoecimento envolve a pessoa como um todo, em todos os aspectos da sua vidaâ€, completa.