As repercussões do estresse na vida do ser humano moderno foram o ponto de partida para a o estudo da psiconeuroendocrinoimunologia, de acordo com a psicóloga Mônica Perri Köhl Greghi, professora da Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru. Segundo ela, os sintomas do estresse evidenciaram essa relação entre emoções e doenças e incitaram alguns estudiosos a investigar melhor essa ligação.
As primeiras experiências neste sentido datam da década de 30, quando o canadense Hans Selye submeteu animais a estímulos estressantes para verificar o comportamento do sistema imunológico em diferentes situações e percebeu queda da resistência natural.
“Ao realizar pesquisas com seres humanos, ele percebeu que quando um indivíduo é submetido a um estresse agudo, a primeira resposta do organismo é aumentar sua imunidade. Porém, se esse estímulo torna-se crônico, a imunidade cai, reduzindo os níveis das células NK (natural killers), que são as células que atacam os invasores do organismoâ€, afirma Greghi.
Ela explica que o homem foi programado para, em qualquer situação de perigo, fugir. Para isso, quando uma pessoa é submetida a um fator estressante, a glândula supra-renal inicia imediatamente a produção de cortisol. Este hormônio interrompe momentaneamente parte do metabolismo (inclusive o sistema imunológico) de modo que o corpo canalize toda a energia (glicose) disponível para a fuga, ou seja, para correr.
“O homem fazia isso na época das cavernas. Só que hoje, nosso estresse não é mais o leão que quer nos atacar. É o chefe mal-humorado, a conta no banco, o congestionamento no trânsito e nós não vamos correrâ€, comenta.
O estresse, que deveria ser passageiro, torna-se persistente e crônico. Com isso, o cortisol fica acumulado no organismo, dificultando o metabolismo e prejudicando progressivamente o sistema imunológico. Segundo Greghi, isto está cientificamente comprovado na psicofisiologia.
Com a imunidade abalada, o organismo torna-se suscetível aos chamados germes oportunistas, que podem invadir vários órgãos e causar inúmeras doenças. Tudo isso porque o estado psicológico do indivíduo foi alterado.
“Agora, isso vai depender de como cada pessoa vive e se relaciona com aquele fator, como indica o pesquisador Cooper em 1987. Então, morar numa esquina movimentada da Avenida Paulista, em São Paulo, pode ser estressante para um e uma maravilha para outro. Depende de como aquele indivíduo lida com a situaçãoâ€, acrescenta.
Resiliência
Na física, a capacidade que um material tem de resistir a uma força sem ser danificado chama-se resiliência. Estudiosos do estresse têm aplicado este termo para definir a capacidade máxima que o indivíduo tem de suportar uma situação estressante sem adoecer. Essa “função†manifesta-se em graus muito diferentes de uma pessoa para outra.
“Isso explicaria porque as pessoas têm reações tão diferentes para uma mesma doença. Imagine duas pessoas com o mesmo tipo de câncer, uma em estágio inicial e a outra em estágio avançado. Se a maneira como a segunda enfrenta a doença é mais positiva, ela pode sobreviver por mais tempo que a outra, que tinha um tipo mais leve de tumor. Isso é a chamada resiliênciaâ€, exemplifica.
Greghi afirma que a psicoterapia atua justamente tentando aumentar essa resiliência. A terapia mostra ao paciente que ele precisa aprender a lidar de outra maneira com seus fatores estressantes ou com sua doença.