08 de julho de 2026
Geral

"Cesto de frutas" é saída para Bauru

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 8 min

Como se fosse uma obra do destino, a redenção da agricultura de Bauru pode estar na fruticultura. É o que pensa o secretário municipal de Agricultura e Abastecimento, Cynise Pereira Leite.

Através de um convênio firmado entre a secretaria, Universidade do Sagrado Coração (USC) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), os pequenos e médios produtores de Bauru terão à disposição, em breve, canteiros de mudas de plantas frutíferas.

O secretário também fala sobre a função de sua pasta; aponta dificuldades, mas acha que sitiantes e chacareiros poderiam utilizar mais os serviços oferecidos pelo município. A seguir, a entrevista:

Jornal da Cidade - A Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento foi criada em 1997. Com a posse do prefeito Nilson Costa, um ano depois, cogitou-se a possibilidade da pasta ser extinta. O senhor acha que o município tem mesmo necessidade de manter essa secretaria? Cynise Pereira Leite - Eu acredito que sim. Tanto que a gente batalhou porque havia, por parte do prefeito, num primeiro momento, a intenção de extingui-la. Conversamos com ele e lhe oferecemos as informações que tínhamos, no sentido de manter a secretaria para podermos apoiar os pequenos e médios produtores rurais. O Governo do Estado está municipalizando tudo, inclusive o atendimento à agricultura. Com essa saída do Estado do setor, o município teve que assumir. É a primeira administração municipal que entendeu a necessidade da secretaria. O prefeito tem dado apoio a essa área. Os demais que passaram, olhavam a cidade pela área urbana. Eram prefeitos só para a área urbana. O relacionamento de uma Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento com o Governo do Estado ou com o federal é muito fácil. Temos conseguido muita coisa e com muito mais facilidade com o status de secretaria. Não sei se seria a mesma se fôssemos um departamento, uma comissão ou coisa do gênero. Esse status de secretaria abre as portas para o município. Temos tido um bom relacionamento nas esferas estadual e federal. Todos os programas lançados, através de convênios, foram firmados pelo município.

JC - A Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento tem uma atuação discreta em relação às demais. Qual é a sua finalidade? Leite - A gente atua na zona rural, onde a atividade não aparece muito. Trabalhamos fora da cidade .O trabalho dela, em si, é assessorar o prefeito na execução da política agrícola do município. Um dos principais fatores seria o atendimento a pequenos e médios produtores com a mecanização de solo. É o que a prefeitura tem a oferecer para o munícipe nessa área. Também procuramos atender o produtor rural através de programas em parceria com a Unesp e a USC.

JC - A secretaria está equipada para prestar um atendimento de qualidade a seus clientes, que são os pequenos e médios agricultores? Leite - Nós temos 18 funcionários. Dois são técnicos, sendo um engenheiro. Infelizmente ainda não tivemos a possibilidade de montar a secretaria como gostaríamos. Nós não temos um engenheiro agrônomo. Temos um engenheiro florestal e mais uma médica veterinária, que assiste ao serviço de inspeção municipal. Temos carência de técnicos agrícolas, de zootecnistas.

JC - Se o senhor tivesse a oportunidade de montar a secretaria de acordo com as necessidades do município, quais seriam as prioridades? Leite - Tenho a impressão de que com mais seis a oito funcionários nós teríamos um quadro mais do que suficiente para dar um bom atendimento ao produtor rural. Seriam profissionais especializados, já que na parte burocrática estamos atendidos. Necessitamos de funcionários na parte de campo. A Secretaria de Estado da Agricultura paralisou seu atendimento no campo. Então, é nosso intuito fazer esse trabalho de extensão rural. Sair de dentro da sede e ir a campo em busca dos produtores.

JC - A secretaria está bem equipada em termos de implementos agrícolas e tratores? Leite - Estamos razoavelmente bem atendidos. Temos três tratores - um dos quais tem uma pá carregadeira - e todos os implementos: arados, grades, roçadeiras, sucadores, perfuratriz, esparramadores de calcário. De imediato, não há necessidade de mais equipamentos. Acho que os produtores poderiam nos procurar mais. Muitos não sabem que a gente pode prestar esse serviço. O que me facilitaria seria um equipamento para locomoção dos tratores. Para sair com o trator rodando, perde-se muito tempo e desgasta a máquina. Já pedimos um caminhão munk para o transporte dos equipamentos até os locais de trabalho.

JC - A população rural de Bauru é insignificante em relação à urbana. Vale a pena o município investir no setor? Leite - Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, temos em torno de 10 mil pessoas residindo na zona rural. Isso dá pouco mais de 1,5% em relação à população urbana. Estamos insistindo que a fruticultura seria um ramo que geraria muitos empregos. Cada hectare de fruticultura gera, no mínimo, quatro empregos diretos. Se a gente insistir, haverá uma expansão e o retorno grande de pessoas à zona rural.

JC - Mas segundo dados da própria secretaria, há cerca de 45 mil hectares em pastagens, o que significa uma certa vocação para a pecuária. Leite - Se tomarmos por base esse número, nós hoje somos um município agropecuário, mas mais pecuário do que agro. Temos que acrescentar que já existe no município uma área razoável de citricultura, plantações de laranja e limão. Há uma possibilidade grande de substituição de áreas de pastagens por citricultura. Nós estamos num ponto geográfico do estado onde não se tem notícias de pragas na citricultura. Tem havido procura para a compra de terras para a implantação de citricultura.

JC - Por muito tempo, Bauru foi conhecida como um centro de produção de frutas. Por quê essa característica foi perdida ao longo dos anos? Leite - Isso aconteceu no passado, na época dos imigrantes japoneses. Tivemos um número grande de produtores de abacaxi e melancia quando da colonização japonesa no município nas décadas de 50 e 60. Temos um pouco desses produtores, ainda. Há, em Bauru, um número pequeno de produtores de abacaxi responsáveis por uma grande produção. Acho que o ciclo de fruticultura está se reiniciando. Hoje temos uma variedade de frutas, algumas até entrando no mercado de exportação, como é o caso do abacate. Temos alguma produção de manga, de pêssego, uva. Temos um experimento feito na fazenda da USC de algumas outras variedades, como o figo, o morango.

JC - Já está provado que o solo de Bauru não é recomendável para a agricultura. Mesmo assim, vale a pena investir na fruticultura? Leite - O solo de Bauru, em virtude de ser arenoso, é desaconselhável à mecanização. Quanto menos mexer, melhor. Tanto que hoje recomendamos o uso do cultivo na palha, sem o revolvimento da terra. É preciso usar um desfolhante, um herbicida e, em seguida, faz-se o plantio sem aração e sem gradeação, que é o plantio direto. No solo não tem grande declividade, mas é de fácil erosão. A maioria das plantações da fruticultura é perene, ou seja, planta-se e colhe-se por muitos anos seguidos sem a necessidade de um novo plantio.

JC - O senhor acredita que a fruticultura poderá ser a redenção de Bauru no setor agrícola? Leite - Sem dúvida. Acredito nisso porque temos obtido uma receptividade dos produtores. Tanto que esse programa que firmamos em parceria com a Unesp e a USC para produção de mudas talvez não consiga atender a demanda inicial. São cerca de 2 mil mudas de uva. Acho que até o final deste ano e início do próximo já teremos condições de atender aos interessados. A produção terá que ser viabilizada através de irrigação. Hoje em dia não dá para esperar que São Pedro mande chuva para a gente.

JC - Virou moda, agora, apontar o agronegócio como alternativa para o desenvolvimento do País. O senhor acredita que Bauru pode encampar essa idéia? Leite - O agronegócio é o negócio de São Paulo. É uma maneira de sairmos dessa crise. Precisamos agregar valores. Não dá mais para o produtor rural vender sua produção in natura. É preciso agregar valores. O próprio Governo do Estado lançou os galpões dos agronegócios. Em Bauru, já estamos implantando um no Distrito Industrial 3. Já temos sete parceiros para montar atividades que envolvam o agronegócio. Vão transformar a matéria prima, comercializar, fazer a maquiagem dos produtos, embalando, selecionando, plastificando, para agregar valor. É preciso que também o agro tenha esse suporte técnico. Não há negócio sem o agro.

JC - Nos últimos anos, há um crescimento visível no turismo rural. Com um pouco de criatividade e investimentos, o senhor acha que os proprietários de sítios e fazendas de Bauru têm condições de abraçar essa segmentação comercial para sair do marasmo em que se encontram? Leite - Essa ótica de turismo rural é muito ampla. Às vezes o sujeito pensa em turismo rural e começa a fazer aquela conotação de fazenda antiga, cachoeiras, coisas de 200 anos. Mas não é isso. Tivemos uma assessoria de um técnico do Sebrae que foi ex-secretário de Turismo de Lages, em Santa Catarina. Ele nos fez ver isso no nosso negócio, em Tibiriçá. Nós não acreditávamos que tivéssemos alguma coisa para turismo rural. Cada um que vai lá no sítio enxerga coisas que outros não viram. Bauru não pode só fazer turismo de negócio. Podemos agregar os dois. Você vai levar muita gente, executivos, empresários, para ver coisas que nunca viram antes. É um absurdo, mas têm pessoas que nunca viram uma galinha com pena. Mas isso existe. O turismo rural tem que ser feito o mais simples possível. É ir na casa do cabloco e comer uma refeição com ele, do jeito que é feito. Ninguém faz nada contra a natureza. Todos são preservadores. O que precisava é que os órgãos que cuidam do turismo no município organizassem visitas ao Jardim Botânico, ao Zoológico Municipal. Deve ter no município alguma cachoeira que não deve ser muito grande, mas pode ser muito bonita, que chame a atenção. É a mesma coisa que o ser humano: não existe ninguém muito feio. Depende de como você olha. O turismo rural é a mesma coisa. Brotas tem cachoeira, mas Bauru pode ter outras coisas que Brotas não tem.