09 de julho de 2026
Política

PV discute apoio a Lula na segunda

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Baiano, presidente nacional do Partido Verde e candidato ao Senado pela legenda, José Luiz Penna disse ontem em Bauru que vai discutir com o presidente nacional do PT, deputado José Dirceu, na segunda-feira, qual será a posição do partido no segundo terno das eleições. Penna não quis antecipar, mas não escondeu que os verdes podem apoiar novamente Lula para a Presidência da República.

Com chances muito remotas de ser escolhido para uma das duas vagas paulistas no Senado, Penna está fazendo o trabalho de divulgação da legenda verde por onde passa. Em suas visitas, ele aproveita para reforçar as críticas à verticalização, que acabou impondo ao partido desistir de fazer aliança majoritária para presidente da República no primeiro turno e de lançar um candidato próprio. Leia os principais pontos da entrevista:

Jornal da Cidade - Que avaliação o senhor faz da participação do PV a uma semana da eleição? José Luiz Penna - O partido vai se fortalecer. Temos metas que trabalhamos para cumprir e agora está nas mãos da sociedade cumprir ou não as metas. Trabalhamos dois anos viajando o Brasil inteiro, reformulando o partido e buscando fortalecer o partido. Temos um partido forte em Amazonas, por exemplo. Outro grande pólo do partido é o Estado de São Paulo, onde temos tradição de luta e militância. Em Bauru, sempre tivemos bons resultados eleitorais e voltaremos a ter duas ou três prefeituras na região de Bauru em 2004.

JC - Por que o partido não fez aliança majoritária nacional? Penna - A política tradicional, em vez de criar aberturas para se renovar politicamente se autoprotege com corporativismo desnecessário. É o caso das cláusulas de barreira e é o caso, agora, da verticalização. O Partido Verde não se posicionou na eleição nacional porque, com a verticalização, não há posicionamento possível porque a tradição nossa era sair com uma candidatura própria para disputar a eleição. Nós tínhamos condições também de colocar um discurso não tão cheio de marketing como os que estão presentes. Mas a verticalização nos impôs um grande obstáculo, porque ela impediria que o PV fizesse as alianças necessárias para elegermos uma bancada de dez deputados federais. Até porque também estamos brigando para cumprir a cláusula de barreira, para ter 5% das cadeiras da Câmara Federal.

JC - Pela cláusula de barreira o PV corre o risco de ser extinto até janeiro de 2006. Como vai ficar? Penna - Estamos preparados para essa questão, temos lista própria para as candidaturas proporcionais e vamos nos sair bem na eleição. Agora, depois que tivermos nossa bancada bem formada, vamos discutir firmemente no Congresso essa questão. É impossível o País manter leis que matem os partidos regionais. É um absurdo a cláusula de barreira. Está aprovada, mas pode ser revista. O mundo está forçando a pluralidade. No mundo tem até candidaturas sem partido, como foi na eleição passada nos EUA. E no Brasil alguns partidos querem ficar sozinhos nacionalmente.

JC - Mas, por outro lado, existem inúmeros partidos de aluguel e outros sem função no País. Penna - Acho que têm poucos partidos. Os EUA tem mais de 70 partidos. O processo é assim mesmo. A governabilidade ser possível só com poucos partidos é uma falácia. O que faz governabilidade é competência das alianças em cima de programas. A sociedade vai se representar de uma maneira plural. O grande defeito, para mim, não são as poucas legendas de aluguel. O grande defeito é que ainda se faz muito pouca política entre o povo brasileiro. O desinteresse da população ainda é muito grande e há que se lamentar. E sobre os partidos de aluguel, eles existem porque existe quem alugue. A legislação deve punir quem aluga.

JC - Qual será o tom da conversa com o PT na segunda-feira? O PV vai apoiar o Lula no segundo turno?

Penna - Sou porta voz de um coletivo dirigente do partido.

JC - Começou bem para quem não quer responder. Penna - Não, sou sincero. Não posso emitir opiniões pessoais como presidente do partido. Na segunda-feira vou estar, junto com um coletivo de dirigentes do partido, com o José Dirceu, presidente nacional do PT. Vamos conversar e discutir o segundo turno. Não tenho nenhuma dificuldade de conversar com o PT. Vamos conversar e podemos discutir tranqüilamente, com a observância de conteúdos programáticos definidos. Não somos iguais, por isso somos dois partidos. Mas nós temos uma boa área de diálogo. Não acreditamos na ditadura do proletariado, não acreditamos no trabalho tal qual a sociologia registrou até a primeira metade do século XX. Achamos que o emprego, a função trabalhista, está passando por uma profunda remodelação. Vamos discutir trabalho e renda. Achamos que nós vamos para o mundo das pequenas associações, das cooperativas, do artesanato no emprego também, e não só na indústria. Vamos fazer política, dialogar e isso pode levar a algum ponto.

JC - O PV funde temas com sua própria cor. Mas esteve por anos ligado ao símbolo da discriminalização da maconha com o Fernando Gabeira. O PV não carrega mais esta bandeira? Penna - O Gabeira não carregou essa bandeira sozinho. Ela era um parlamentar do Partido Verde, que discute e decide suas estratégias e diretrizes em coletivo. O voto do Gabeira, em alguns pontos, era votado antes em reunião da executiva nacional. A bandeira da discriminalização da maconha também é do PV. E a sociedade tem que parar de tratar seus problemas mais fortes como desvios individuais. Foi assim com a aids e agora ela é encarada como uma doença da civilização.