08 de julho de 2026
Articulistas

Presidente sem diploma


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O fundador do Bradesco, Amador Aguiar, uma vez me mostrou a pequena impressora Minerva em que trabalhava quando era tipógrafo em Lins. Naquela máquina havia perdido a falangeta do dedo médio da mão direita (ou seria da esquerda?). Eu participava de um grupo de jornalistas em visita ao centro estratégico do banco, na “Cidade de Deus”. Naquela ocasião, dois pormenores despertaram a minha curiosidade: o homem calçava sapatos sem meias e não tinha sala privativa com secretária. Trabalhava numa grande mesa de reunião junto com os seus diretores e ali mesmo, na frente de todos, sem segredos, resolvia na hora, após trocas rápidas de informações, o destino de milhões.

Na entrevista perguntei a Amador Aguiar a que atribuía a razão do seu sucesso, eis que vinha das camadas de baixo da sociedade e vivia num país tão desigual no oferecimento de oportunidades: “À minha surdez. Todo mundo me dizia que eu era ignorante e precisava ir à escola. Eu não ouvia e continuava trabalhando”.

Jamais ouviu as convenções sociais e recebia quem quer que fosse sem meias. Para ele valia mais o sentir-se confortável. Quando o negócio envolvia dinheiro e os altos interesses do banco, aí sim, apurava os ouvidos às pessoas nas quais confiava. Morreu sem nunca ter feito nada além do primário. Deixou o “maior banco privado da América Latina”, conforme fazia questão de qualificar o Bradesco.

O programa do PSDB comparou as biografias de Serra e de Lula para concluir que o ex-metalúrgico é um despreparado por não ter diploma universitário. Sugeria o programa que ele não sabe o que diz. Ou diz o que lhe mandam dizer. O presidente FHC que se despede do cargo, mais ameno, derrubou o argumento da exigência do diploma para quem queira governar o Brasil. O jornalista Roberto Marinho, por exemplo, não tem diploma. E mesmo assim construiu o maior império da comunicação do país. Bill Gates também não tem. É o homem mais rico do planeta.

O eleitorado já deu sinais de estar vacinado contra esse tipo de discurso que só faz por lembrar os privilégios que premiam somente 6% dos brasileiros que conseguem passar pelo estreito funil da universidade. A uma semana da eleição, a campanha de José Serra perdeu a bússola e navega para lugar nenhum. Amarga o título de candidato mais rejeitado e ele é o próprio empecilho. Duro de carregar.

Havia e há talentos de sobra em torno do candidato para turbinar suas chances de vencer – pesquisas diárias, publicitários, jornalistas e marqueteiros de renome. Artistas famosos e afinados cantam as vantagens do projeto de oito milhões de empregos. Sem falar, é claro, nos recursos milionários para pagar as despesas milionárias. Falta leveza, comunicação, simpatia e carisma à altura dos meios reunidos para elegê-lo. Serra parece o artilheiro daquele tanque de Israel destroçando à canhonaços casas e galinheiros dos pobres palestinos.

Se Lula não derrapa na curva de chegada, será eleito presidente ainda no primeiro turno. Mesmo com o dólar a 5 reais. Ciro Gomes e Garotinho terão que continuar atirando em Serra para tentar ultrapassá-lo e disputar com Lula o segundo turno. Ciro e Garotinho não se aliarão formalmente para que Lula vença no primeiro turno. Mas a aliança informal já está feita. Não passa de conversa fiada a história de que segundo turno é uma nova eleição. Trata-se de uma lenda urbana alimentada pela desinformação. O retrospecto das eleições para presidente e governador desmoraliza o blablablá. Acho que brevemente vamos ter um torno mecânico histórico exposto em lugar de destaque onde se poderá ler a plaquinha com a legenda: “Neste torno um metalúrgico sem diploma perdeu o dedo mas tornou-se (perdão pelo trocadilho) presidente da República”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC ).