O fundador do Bradesco, Amador Aguiar, uma vez me mostrou a pequena impressora Minerva em que trabalhava quando era tipógrafo em Lins. Naquela máquina havia perdido a falangeta do dedo médio da mão direita (ou seria da esquerda?). Eu participava de um grupo de jornalistas em visita ao centro estratégico do banco, na “Cidade de Deusâ€. Naquela ocasião, dois pormenores despertaram a minha curiosidade: o homem calçava sapatos sem meias e não tinha sala privativa com secretária. Trabalhava numa grande mesa de reunião junto com os seus diretores e ali mesmo, na frente de todos, sem segredos, resolvia na hora, após trocas rápidas de informações, o destino de milhões.
Na entrevista perguntei a Amador Aguiar a que atribuía a razão do seu sucesso, eis que vinha das camadas de baixo da sociedade e vivia num país tão desigual no oferecimento de oportunidades: “À minha surdez. Todo mundo me dizia que eu era ignorante e precisava ir à escola. Eu não ouvia e continuava trabalhandoâ€.
Jamais ouviu as convenções sociais e recebia quem quer que fosse sem meias. Para ele valia mais o sentir-se confortável. Quando o negócio envolvia dinheiro e os altos interesses do banco, aí sim, apurava os ouvidos às pessoas nas quais confiava. Morreu sem nunca ter feito nada além do primário. Deixou o “maior banco privado da América Latinaâ€, conforme fazia questão de qualificar o Bradesco.
O programa do PSDB comparou as biografias de Serra e de Lula para concluir que o ex-metalúrgico é um despreparado por não ter diploma universitário. Sugeria o programa que ele não sabe o que diz. Ou diz o que lhe mandam dizer. O presidente FHC que se despede do cargo, mais ameno, derrubou o argumento da exigência do diploma para quem queira governar o Brasil. O jornalista Roberto Marinho, por exemplo, não tem diploma. E mesmo assim construiu o maior império da comunicação do país. Bill Gates também não tem. É o homem mais rico do planeta.
O eleitorado já deu sinais de estar vacinado contra esse tipo de discurso que só faz por lembrar os privilégios que premiam somente 6% dos brasileiros que conseguem passar pelo estreito funil da universidade. A uma semana da eleição, a campanha de José Serra perdeu a bússola e navega para lugar nenhum. Amarga o título de candidato mais rejeitado e ele é o próprio empecilho. Duro de carregar.
Havia e há talentos de sobra em torno do candidato para turbinar suas chances de vencer – pesquisas diárias, publicitários, jornalistas e marqueteiros de renome. Artistas famosos e afinados cantam as vantagens do projeto de oito milhões de empregos. Sem falar, é claro, nos recursos milionários para pagar as despesas milionárias. Falta leveza, comunicação, simpatia e carisma à altura dos meios reunidos para elegê-lo. Serra parece o artilheiro daquele tanque de Israel destroçando à canhonaços casas e galinheiros dos pobres palestinos.
Se Lula não derrapa na curva de chegada, será eleito presidente ainda no primeiro turno. Mesmo com o dólar a 5 reais. Ciro Gomes e Garotinho terão que continuar atirando em Serra para tentar ultrapassá-lo e disputar com Lula o segundo turno. Ciro e Garotinho não se aliarão formalmente para que Lula vença no primeiro turno. Mas a aliança informal já está feita. Não passa de conversa fiada a história de que segundo turno é uma nova eleição. Trata-se de uma lenda urbana alimentada pela desinformação. O retrospecto das eleições para presidente e governador desmoraliza o blablablá. Acho que brevemente vamos ter um torno mecânico histórico exposto em lugar de destaque onde se poderá ler a plaquinha com a legenda: “Neste torno um metalúrgico sem diploma perdeu o dedo mas tornou-se (perdão pelo trocadilho) presidente da Repúblicaâ€. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC ).