10 de julho de 2026
Geral

Maria-fumaça nos trilhos emociona os bauruenses

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Aplausos, lágrimas e sorrisos. Quando soou o apito da maria-fumaça, na noite de ontem, a comunidade que encheu a antiga Estação da Noroeste do Brasil para ver (ou rever) a máquina, teve as mais diferentes reações de emoção.

De ferroviários aposentados a crianças de colo levadas pelas famílias, mais de 600 pessoas estiveram presentes no evento de apresentação da locomotiva 278, recuperada pela Secretaria Municipal de Cultura e que agora volta aos trilhos. A iniciativa faz parte do projeto “Ferrovia para Todos”.

Ao ouvir o barulho provocado pela velha máquina quando chegava à estação, Paulo César Bertolini, filho de ex-ferroviário, não conteve as lágrimas. “Que saudade”, diz.

Emocionada, Maria do Carmo Bertolini, 71 anos, lembra de quando viajava com os dois filhos e o marido para o Mato Grosso a bordo de uma maria-fumaça. “Estou chorando por dentro. Viajei muito nesse trem”, conta. “Foi muito bom, mas agora só resta a saudade”, acrescenta.

Foi o ferroviário aposentado da Noroeste do Brasil (NOB) Geraldo Pires que trabalhou como maquinista na noite de ontem, conduzindo a fumaça para perto das pessoas que esperavam ansiosamente. “A emoção é muito grande de entrar nessa estação cheia conduzindo essa locomotiva. Não tem coração que agüente”, expõe.

Além do maquinista e foguista, a máquina trouxe a bordo o grupo Choro Alto, que tocou para os participantes músicas da época em que a ferrovia movia a cidade. Emocionados, alguns dos presentes cantaram em coro a famosa “Trem das Onze”.

O ferroviário José Carlos da Silva, 45 anos, diretor do Sindicato dos Ferroviários, lembra a importância da ferrovia para a história do desenvolvimento da cidade. “Bauru não pode fugir dessa história”, diz.

A presença de famílias no evento de ontem foi marcante. Preocupados em passar um pouco da história aos filhos, os pais levaram à antiga estação crianças de todas as idades.

Daniel Ferreira Maciel, 10 anos, neto de ferroviário aposentado, diz que gostaria não apenas de ver a máquina nos trilhos, mas também de passear a bordo da maria-fumaça. “Eu vim para ver a máquina”, salienta.

Sua irmã, Gisele Maciel Arantes, 13 anos, conta que o interesse surgiu a partir das histórias contadas pelo avô. Dá curiosidade de ver a máquina andando e saber como era naquela época”, diz.

Acompanhado pelo casal de filhos, Adalto Sebastião Bombini Júnior compareceu ao evento. “Eu os trouxe para que eles conheçam um pouco da história da nossa ferrovia e de algo que infelizmente está praticamente encerrado no País”, ressalta.

Denilse Donizete Braga de Melo Souza, funcionária do Museu Municipal de Bauru, levou a filha de 20 anos. “Minha filha quase não viajou de trem e eu viajei muito. É uma recordação muito bonita”, expõe.

A filha, Genilse de Souza, estudante, quer que as próximas gerações valorizem mais a ferrovia. “Estou achando o máximo e eu gostaria que meus filhos pudessem participar disso também”, observa.

O ferroviário aposentado Vanderlei Trindade levou o neto para conhecer a locomotiva 278. “Eu trabalhei um pouco em maria-fumaça, mas acabei meu tempo nas máquinas a diesel.”

História

Momentos antes de soar o apito da 278, o prefeito de Bauru, Nilson Costa, relembrava que a rede ferroviária foi constituída nos tempos de Juscelino Kubitschek. “Para mim, como ferroviário aposentado, é um momento importante. Eu acompanhei a história da ferrovia. Isso aqui é um esforço romântico em que nós fazemos a ferrovia voltar aos velhos tempos”, expõe.

O historiador Luciano Dias Pires destaca a importância do dia 27 de setembro de 1906, quando a Noroeste inaugurou seu primeiro trecho - 48 quilômetros entre Bauru e Avaí. “Essa realização traz para nós muitas lembranças. Principalmente para mim, que fui ferroviário por 37 anos”, conta.

“Quatro gerações de bauruenses trabalharam na ferrovia. Eu vivi praticamente 50 anos ligado a ela”, acrescenta o historiador.