Pode-se pensar que a idolatria faça parte dos tempos mais remotos da humanidade, quando o homem endeusava animais, pedaços de madeira, esculturas etc. Aliás, no Velho Testamento, moveu-se verdadeira batalha contra esse tipo de procedimento. Em Isaias, está claramente expressa a idéia de que o ídolo é resultado de uma obra feita pela mão do homem e diante da qual ele próprio acaba se curvando: “Os que desembolsam seu ouro, e pesam a prata na balança, contratam um ourives para que ele faça um deus, diante do qual prostram-se em adoração: eles o carregam nos ombros e o transportam, depois colocam-no em seu posto, onde se mantêm, sem mais poder mover-se. Por mais que se invoque, nunca responde, não salva do infortúnioâ€. O tema da antiidolatria é sublinhado, muitas vezes, de forma explícita, como, por exemplo, no Êxodo, XX, 3,4: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que está em cima nos céus, ou em baixo sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra.â€
Infelizmente, porém, nos dias que correm, apesar da evolução aparente pela qual vem passando a humanidade, o homem ainda continua presa fácil dos ídolos, representados pelo Estado, pelo líder, pela produção, pelo consumo. Para usar um termo de psicanálise, o homem “projeta†no ídolo suas qualidades e paixões. Quanto mais o ser humano se empobrece, emburrece, tanto mais fortifica seu ídolo. E se nos estamos propondo a explorar esse tema, é justamente em virtude de nossas preocupações com as eleições que se aproximam e que deveriam abrir mais escancaradamente nossos olhos para a tendência de exagerar pessoas e transformá-las em mitos. Ao cultuar o ídolo, o homem não percebe que está cultuando a si mesmo. Passa a depender do ídolo, já que somente nele encontra a sombra, não a substância de si mesmo.
Nesta oportunidade, um alerta se faz necessário: a idolatria é um autocastigo, uma auto-humilhação, uma vez ser incompatível com nossa liberdade e independência. Pois a idolatria não é uma submissão ao ídolo, não é uma alienação às forças do próprio homem? Ao transferir seu vigor para alguma coisa fora de si mesmo, o homem alienado empobrece-se cada vez mais na medida em que mais ricamente energiza seu ídolo.
Realmente, nos inquieta muitíssimo a hora decisiva das próximas eleições. Nosso país, assim como o resto do planeta, só poderá espiritualizar-se no instante em que eliminar todos os traços de idolatria. Na verdade, no conhecimento dos ídolos e na luta contra a idolatria repousam as esperanças de unificação não só dos brasileiros como de todos os povos. Causa-nos apreensão o fato de muitos homens e mulheres, tidos e havidos como esclarecidos, não perceberem a emboscada na qual, muitas vezes, acabam se metendo, num comprometimento sem par de sua própria liberdade e do conceito digno de país.
Não se infira disso tudo que pretendamos ser as únicas pessoas esclarecidas, clarividentes, em detrimento da maioria da população. Já se disse, e com razão, que toda unanimidade é burra. Não esperamos, nem mesmo desejamos, que os eleitores brasileiros adotem os pontos de vista de nossa cartilha. A intenção não é fazer prosélitos. Move-nos tão-somente o propósito de esclarecer que não podemos ir às urnas empurrados pelas forças selváticas do inconsciente irracional. Submetermo-nos aos mandamentos dos ídolos poderá levar-nos a atrocidades, como se estivéssemos agindo em nome do dever e da consciência... Sempre é oportuno lembrar Hitler, Stalin, Milosevic, bin Laden e tantos outros. Ah! Houve também aquele massacre da Turquia contra as populações curdas, que recebeu de Clinton decisiva sustentação... De vez em quando é bom olhar para trás. Aprendemos muito com a História! (Dra. Maria da Glória De Rosa - RG: 1.946.380)