08 de julho de 2026
Polícia

Gravação revela tráfico boca-a-boca

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Fitas com cenas e diálogos chocantes mostram como atuam os “aviões” do crack (pessoas que distribuem droga) em Bauru e podem ser a principal prova para condenação de três mulheres e três adolescentes. Elas foram filmadas engolindo e regurgitando pedras de crack e são acusadas de comercializar a droga no centro da cidade.

A filmagem foi feita pelo Tático-4 da Polícia Militar na área central e resultou na prisão das maiores de idade. Engolir e vomitar pedras de crack é uma das táticas que eram usadas pelas acusadas para driblar o flagrante de tráfico. Outra manobra, desta vez para ocultar o comércio ilegal, era esconder a droga na boca e repassá-la para a boca do comprador.

As cenas são claras. O usuário encostava a moto ou o carro e procurava uma das meninas como se pretendesse fazer um programa amoroso. O usuário pedia para ver a pedra ou questionava sobre a sua cor. â€œÉ da branquinha?”, perguntou querendo saber da pureza da droga.

A menina retirava a pedra de sua boca enquanto o usuário fazia o pagamento, de preferência em dinheiro já trocado. Ele pegou a pedra e colocou-a na boca, antes de deixar o ponto de venda. Quando a proposta de programa amoroso era real, conforme mostra a filmagem, as meninas recuaram e explicaram ao pretendente que o negócio delas era outro.

O comércio boca-a-boca, além de ser anti-higiênico, pode transmitir bactérias, alerta o médico legista do Instituto Médico Legal, Alberto Briani. “Mesmo com a pedra envolta em plástico é possível a transmissão de bactérias”, alerta.

Mas pelas cenas gravadas observa-se que tanto usuários quanto “aviões” estão pouco preocupados com a transmissão de bactérias. O que mais importa é conseguir passar a droga e pegar o dinheiro sem ser descoberto pela polícia.

Driblar os policiais é uma arte exercida diariamente pelas meninas da Ezequiel Ramos, revelam as filmagens. Para que o objetivo seja atingido, elas guardam a maior parte da droga em saídas de esgoto e sob pedras na sarjeta, onde escorre água da rua.

Toda essa estratégia tem a finalidade de se livrar da polícia. Outra observação feita a partir das cenas gravadas na área central, graças a equipamentos de última geração, é o organograma obedecido pela legião de mulheres que praticam o tráfico na área central.

O mais chocante é que o cargo de chefe de tráfico é exercido por uma menina de 17 anos. Na gravação, ela dá ordens e permite, em determinado horário, que suas subordinadas façam uso da droga. A ela também cabe buscar mais droga usando como meio de transporte um mototáxis.

A chefe, segundo o comandante do Tático-4, tenente Hudson Covolan, é irmã de um traficante e autor de um latrocínio que está foragido. Ela teria assumido o posto do irmão no submundo do crime, acredita o tenente.

Ágil, a adolescente atravessa de uma lado para outro da rua recolhendo dinheiro e passando as pedras. Resmunga quando um usuário a procura pela terceira vez na mesma noite trazendo o dinheiro em moedas e só entrega a droga após conferir o valor.

____________________

"Aviões" recebiam comissão

A cada dez pedras de crack comercializadas, a vendedora ganhava três, revelam as cenas gravadas. Essa era a comissão. Elas podiam vender ou consumir as droga, caso fossem usuárias. O prejuízo ocorria quando a polícia aparecia e as pedras que estavam na boca das distribuidoras tinham que ser engolidas.

Quando isso acontecia, os “aviões” tentavam recuperar a droga, provocando o vômito com a colocação do dedo na garganta. Caso algumas da pedras não fossem devolvidas com o vômito, a vendedora era instruída a fazer o resgate no dia seguinte, procurando-a, nas fezes.

As pedras resgatadas através do vômito eram rapidamente colocadas à venda e o primeiro usuário que aparecia colocava-a na boca sem questionar. As pedras resgatadas através das fezes nem sempre ficam da mesma coloração, explicou uma das acusadas, sem saber que o diálogo estava sendo gravado. “A pedra saiu escura e não foi aceita”, reclamou ela à chefe.