08 de julho de 2026
Articulistas

Schröder x Bush


| Tempo de leitura: 2 min

Não restam dúvidas de que o reeleito governo alemão de Gerhard Schröder deverá enfrentar a retomada das relações com os EUA. Mas, talvez, não com o perfil que alguns acreditam. Em primeiro lugar, a oposição à guerra anunciada contra o Iraque, por mais despótico que seja o regime de Bagdá, não é monopólio da esquerda moderada ou dura da Europa. Também é uma atitude de numerosos setores da elite norte-americana que se sente apoiada por uma maioria que não está suficientemente informada sobre as complexidades da nova situação mundial e que apenas despertará da letargia, ou do trauma do 11 de setembro, quando a guerra (ou o que acontecer) realmente causar impacto em suas vidas. Na realidade, a tragédia daquela manhã somente afetou as vítimas diretas e seus familiares, e os estrategistas que se apressam em redesenhar o mundo de acordo com a nova visão.

Em segundo lugar, a atitude crítica do chanceler alemão não pode ser rotulada apenas de puro oportunismo eleitoreiro, já que não ficou demonstrado que tenha representado uma diferença substancial na decisão do eleitor. Mas, sim, responde a um sentimento profundo de uma parte significativa da cidadania alemã, na medida em que vão desaparecendo as gerações diretamente afetadas pela Segunda Guerra Mundial. Considera-se, de Norte a Sul e de Leste a Oeste do mais povoado país da União Européia, terceira economia mundial e uma das poucas entidades culturais com pleno direito a ser modelo do Estado-Nação, que a Alemanha já pagou com juros a dívida pelas barbaridades cometidas pelo Terceiro Reich.

A Alemanha isolada? Embora o momento seja sério, a acusação, pelo contrário, parece semelhante àquela cena descrita pelo humorista: um destacamento militar, cercado por todos os lados pelo inimigo, pela boca de seu capitão comunica pelo rádio ao general: “nós os temos cercados”. O presidente Bush pode ver-se no outro lado incômodo do drama, tenazmente cercando todos os inimigos dos Estados Unidos, enquanto algumas das potências que ainda contam no planeta procuram acrescentar alguma dose de cordura. A União Européia isolada e dividida? É muito possível, se a tese de seguir sem questionar propaga-se em suas fileiras. Não, se a lealdade de aliança está solidamente baseada em valores comuns e análises não ditadas pela pressa.

De todo modo, será preciso esperar as próximas semanas para comprovar se a atitude da chancelaria alemã é uma exceção momentânea e uma anomalia dentro da União Européia. Além disso, sempre restará a pergunta central para os que incondicionalmente deram apoio aos Estados Unidos no 11 de setembro, para, depois, levarem as mãos à cabeça. Se alguém não está de acordo, e Estados com a Alemanha não o dizem claramente, quem mais poderá fazê-lo? É uma responsabilidade não apenas para Schröder, mas para qualquer chanceler. (O autor, Joaquín Roy, é catedrático “Jean Monnet” de integração européia na Universidade de Miami. E-mail: jroy@miami.eud)