08 de julho de 2026
Rural

OIC não resolve excesso mundial de café

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 3 min

O vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, considerou “frustrante” o encontro da Organização Internacional do Café (OIC), que discutiu o problema do excesso de 20 milhões de sacas do grão no mercado mundial. Segundo ele, nenhum resultado prático surgiu após as discussões, apenas sugestões que ninguém sabe se serão seguidas pelos 106 países que participaram do encontro, que durou nove dias, em Londres.

O principal consenso a que se chegou durante o encontro é a necessidade de investir em campanhas de incentivo ao consumo de café e priorizar a qualidade, em lugar da quantidade da produção. No Brasil, a safra deste ano foi a maior da história dos 270 anos da cafeicultura nacional, com saldo em torno de 45 milhões de sacas.

De acordo com Lima Verde, nos últimos anos a qualidade do grão tem sido cada vez mais valorizada. Porém, o Brasil sempre teve dificuldades em produzir café de alta qualidade.

“No Brasil, os percentuais de qualidade são muito baixos em função da produção, que sempre foi alta. Numa colheita como a deste ano (de 45 milhões de sacas), por exemplo, apenas de 1% a 2% do café é considerado especial. Isso nem pesa nos resultados; serve muito mais como marketing”, diz Lima Verde.

Segundo ele, uma das idéias que surgiu durante o encontro da OIC - sugerida pelos representantes dos produtores de café do México - é restringir a exportação de grãos de baixa qualidade. Atualmente, no mundo todo a produção de café gira em torno de 120 milhões de sacas, contra uma demanda de, no máximo, 106 milhões. Esse excedente é que tem gerado os atuais problemas no setor.

Equilíbrio

“Para poder equilibrar os preços, esse excesso tem que ser retirado do mercado. Domesticamente, alguns países estão fazendo ações isoladas para a retenção interna de sacas. No Brasil, até dezembro ou janeiro as medidas internas devem gerar uma retenção em torno de 7 milhões de sacas. Mas no aspecto internacional, a idéia é impedir que os países exportem café de baixa qualidade, o que fará com que o volume em circulação também diminua”, diz.

Contudo, não foi possível passar a sugestão para o plano prático. Para isso ocorrer seria necessário haver consenso entre os países, mas isso é difícil porque alguns países dependem basicamente do café, que nem sempre é de boa qualidade. Além disso, não há punição no caso de descumprimento das regras que são e que ainda podem vir a ser adotadas.

Para se ter uma idéia, atualmente o Vietnã é o segundo maior produtor de café do mundo. Contudo, 95% da produção se resume a grãos de baixa qualidade. â€œÉ claro que o Vietnã, bem como outros países da Ásia, não iria concordar em diminuir a exportação de café de má qualidade. A Colômbia passa por seríssimas dificuldades financeiras, de sobrevivência, e depende do café”, acrescenta Lima Verde.

Saída

Para o vice-presidente da Faesp, no momento a saída para o Brasil é adotar mecanismos internos de proteção, até que o País não dependa mais da situação comercial internacional. “Temos que nos fortalecer internamente para que o produtor de café possa progredir”, afirma Lima Verde.

Em dezembro haverá outra reunião da OIC. Na ocasião, os países participantes deverão apresentar algum outro projeto para tentar colocar em prática a retenção do excesso de sacas no mercado mundial. Até lá, continuará valendo a idéia de investir em campanhas para incentivar o consumo do produto e priorizar a produção do café de qualidade.

A saber, os Estados Unidos figuram como o maior consumidor de café do mundo, com a marca de 20 milhões de sacas por ano. Em segundo lugar vem o Brasil, com uma média de consumo anual em torno de 13 milhões de sacas do grão.