09 de julho de 2026
Ser

Música para "lavar" a alma e tratar o corpo

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Dizem que quando o uirapuru entoa seu canto, toda a floresta pára para ouvir. O espetáculo perfeito da pequena ave vermelha dura apenas 10 a 15 minutos por dia e se repete somente em 15 dias por ano. Ele é o único capaz de produzir uma melodia com intervalos e afinação perfeitos. Por isso, é considerado o professor de canto de todos os pássaros.

Este poder hipnotizante e revitalizador da música é relatado desde a Antigüidade. Conta a Bíblia que David costumava tocar sua flauta para tranqüilizar o Rei Saul. Nas feiras indianas, cobras tornavam-se cegamente obedientes diante das notas musicais. Isso sem contar as diversas lendas que venceram o tempo.

O efeito terapêutico da música é, hoje, objeto de estudos de várias universidades pelo mundo. A musicoterapia tornou-se ciência paramédica. É um curso de graduação que tem conquistado profissionais e pacientes desde a década de 70 no Brasil. Trata-se de uma opção de tratamento para inúmeros problemas de saúde.

“A musicoterapia é a utilização da música e/ou seus elementos - som, ritmo, melodia, harmonia - com objetivos terapêuticos, ou seja, para atender necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas do paciente”, explica a musicoterapeuta Karla Massad.

Segundo ela, é uma ciência que permeia a medicina e a psicologia, com cinco campos distintos de atuação: prevenção, reabilitação, estimulação, educação e auto-conhecimento.

Como tratamento preventivo, Massad cita a terapia com gestantes e com idosos. “A gravidez é um período de muita sensibilidade, medos e descobertas na vida da mulher. Medo do parto, medo de não saber cuidar do bebê, de não conseguir conciliar a função de mãe com a de mulher. Sensações que podem ser prejudiciais para ela e para o bebê, que já sente todas as vibrações e emoções da mãe ainda no útero”, salienta.

Na sessão de musicoterapia, a gestante canta e toca em busca de maior intimidade com o filho. Faz atividades de relaxamento e respiração para facilitar o momento do parto. Aprende a se observar para entender as fases de desenvolvimento do feto, sempre trabalhando as sensações de ansiedade e expectativa naturais do período.

No caso dos idosos, o objetivo é ajudar o paciente e enfrentar o processo de envelhecimento e suas conseqüentes perdas (amigos, parentes, mobilidade, emprego). Segundo Massad, a intenção é resolver esses conflitos e minimizar a tendência ao isolamento e redução da auto-estima, que contribuem para o desenvolvimento de quadros depressivos e apatia.

Pessoas com seqüelas de acidentes ou derrames também podem usar a musicoterapia como alternativa de reabilitação. O mesmo vale para crianças com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor e que precisam ser estimuladas.

A manipulação de instrumentos e repetição de ritmos ajuda a melhorar a coordenação. Atividades de escuta aprimoram a capacidade de observação e memória. Exercícios de acompanhamento e composição incentivam a criatividade.

“A musicoterapia também pode ser aplicada em creches e escolas como opção educativa, principalmente com alunos que têm necessidades especiais (deficientes e sindrômicos)”, afirma Massad.

Além de todas estas alternativas de aplicação, a musicoterapia ainda pode ser usada como acompanhamento psicológico convencional, em busca do auto-conhecimento, para solucionar conflitos emocionais e como válvula de escape ao estresse.