10 de julho de 2026
Regional

Fuga de pedágio não garante economia

Por Carlos Corrêa | Tribuna Impressa
| Tempo de leitura: 4 min

Araraquara - O uso das chamadas rotas alternativas para escapar dos elevados preços cobrados pelas concessionárias de rodovias nas praças de pedágio gera uma economia muito menor do que o imaginado pela maioria dos motoristas de caminhões. Além disso, provoca aumento da emissão de gás carbônico (CO²), um dos responsáveis pelo aquecimento da Terra, processo conhecido como efeito estufa.

A constatação é de estudo coordenado pela pesquisadora Daniela Bartholomeu como monografia do curso de Economia Agroindustrial da Esalq/USP de Piracicaba e premiado no mês passado pelo Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo, com o Prêmio Corecon de Excelência em Economia.

O trabalho comparou o desempenho de um caminhão modelo Mercedes-Benz 1418, com três eixos, ano 1998, carregado com carga de 7,4115 toneladas em duas rodovias, em trajetos de ida e volta, entre Campinas e Bauru.

O caminhão circulou durante o mês de outubro do ano passado, sempre nos mesmos horários e com o mesmo motorista, para evitar que os resultados fossem distorcidos.

O veículo foi emprestado pela Transportadora Americana, que também cedeu um computador de bordo (blue bird) que coletou os dados da viagem, como evolução da rotação do motor e velocidade durante os percursos.

Para quantificar as emissões de CO², foi utilizada a relação “quantidade de CO² emitido/litros de diesel consumido”.

Os percursos foram feitos em uma estrada administrada por uma concessionária e em outra estadual, usada como alternativa para escapar dos pedágios.

Após percorrer cada percurso por duas vezes, a pesquisadora concluiu que o consumo de óleo diesel no trajeto alternativo, de fuga do pedágio, foi 63% maior do que o verificado na rodovia privatizada. Em relação ao trajeto pedagiado, a emissão de carbono também foi 6,35 quilos mais elevada.

Considerando dados do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), regional São Paulo, que mostram que na rodovia Luiz de Queiroz (SP-304), usada como trajeto alternativo, passam 2,861 milhões de caminhões por ano. E que a emissão de CO² nessa estrada, somente por esse tipo de veículo, chega a 18,163 toneladas.

“Minha proposta é que essa carga de carbono seja transformada em crédito para os motoristas trafegarem pela estrada privatizada, onde a emissão desse poluente é menor”, afirma Daniela Bartholomeu.

A idéia é propor às concessionárias de rodovias que reduzam o valor do pedágio até o limite gasto a menos pelos caminhoneiros nas rotas de fuga.

No caso do estudo, o motorista gastou um total de R$ 90,00 no trajeto de 565 quilômetros de uma rodovia com sete praças de pedágio entre Campinas e Bauru e, no percurso alternativo, de 545 quilômetros, teve um gasto de R$ 30,30 em duas praças de pedágio.

Apesar da economia de mais de 200% com as tarifas de pedágio, o caminhão consumiu 8,7 litros de óleo diesel a mais por tonelada transportada, o que provocou um custo extra de R$ 58,65 com o combustível.

Assim, somados os custos do combustível e do pedágio, as despesas totais da viagem pela rota alternativa ficou em R$ 88,95. Ou seja, houve uma economia de apenas R$ 1,05 em relação ao trajeto pela rodovia pedagiada.

Daniela Bartholomeu afirma que decidiu realizar o estudo para estabelecer “uma relação entre transporte e meio ambiente”. Ela diz que sempre fez estágios no setor de transporte e que as empresas nunca demonstraram conhecer o problema de poluição causado por suas frotas de caminhões.

Agora, a pesquisadora pretende ampliar o trabalho e realizar estudos semelhantes também em outras rotas e até em percursos urbanos. “Já encaminhamos um projeto com essa proposta à Fapesp, mas ainda não recebemos resposta”, afirma.

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Emissão de CO²

O setor de transportes é o maior consumidor de combustíveis fósseis do Brasil e gera os maiores níveis de emissões de CO² da economia nacional. Embora o Brasil produza um dos menores índices de gás carbônico por habitante, o trabalho de Daniela Bartholomeu mostra que o setor de transportes do País foi responsável por 49,7% das emissões em 1996, seguido pelas indústrias, com 34%. Um complicador é o aumento da frota de veículos rodoviários, que se dá em taxas bem acima das do crescimento econômico. No período de 1986 a 1996, o número de veículos por bilhão de dólar de PIB aumentou 52%.

O modal rodoviário movimenta 60% das cargas transportadas anualmente no Brasil e consome 90% do combustível utilizado pelo setor. A emissão de CO² pelos caminhões brasileiros é considerada alta devido à idade média da frota, em torno de 14,5 anos, para um total de 1,8 milhões de veículos, segundo números do Geipot (Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes) em 1999.