10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: O lado feminino de Deus

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Ontem, ao comemorarmos o dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, me veio à lembrança o tempo em que servi como capelão no Convento de Santa Clara. A comunidade religiosa era formada de irmãs que, devido à idade e limitações de saúde, não podiam se deslocar para a igreja mais próxima e participar da missa.

O convento já estava há um bom tempo a procura de um padre e a madre superiora não escondia o alívio pela minha chegada pois, todo mês, uma boa parte do seu tempo era dedicada a agendamentos com sacerdotes da região.

Para mim, este ano e meio no Convento de Santa Clara foi um verdadeiro oásis, durante o qual consegui terminar minha tese de doutorado. Porém, devo admitir que, nos meus primeiros meses, sentia um certo constrangimento, pois aquelas mulheres, com muito mais experiência de vida e de serviço a Deus do que o jovem padre, permaneciam dependentes da presença de um homem, para celebrar a eucaristia.

A contradição se tornava ainda maior com a imagem de Maria no centro do altar-mor da capela. Apesar de darmos um nome masculino ao Ser superior que gerou o universo e nos chamou para a existência, Deus está acima da nossa natureza humana, em outras palavras, Deus não possui sexo. Em uma visão cristã, Deus se revela aos homens como “pai”, pois em seu relacionamento conosco reconhecemos características de uma relação paterna.

Porém, nesta mesma relação, podemos sentir muito do amor maternal. Por esta razão, o Papa João Paulo I fez questão de nos lembrar que Deus também é “mãe”. Portanto, não somente aspectos masculinos (força, poder, autoridade...), mas principalmente femininos (amor, misericórdia, carinho...) fazem parte da imagem que nos foi revelada de Deus.

Este lado feminino do Sagrado não é nenhuma novidade do Cristianismo. Durante toda a história da humanidade existiu a fé em uma deusa ou em uma manifestação feminina de Deus.

Isis era, para os egípcios, a deusa que conduzia os homens à ressurreição. O povo hebreu acreditava em Aschera, mediadora da Graça salvífica de Javé.

Já pela fé cristã, Deus se fez humano e esta encarnação do verbo apresenta-se como homem: Jesus Cristo. Porém, o sexo masculino de Cristo deve ser entendido em seu contexto histórico. O Verbo se fez carne há dois mil anos atrás e em uma sociedade judaica. Dentro deste contexto, a mulher estava em completo segundo plano, sem direitos de participar ativamente de sua religião, submissa totalmente às leis dos homens e condenada a uma vida serviçal.

Se o Verbo tivesse se tornado mulher não teria a menor chance de divulgar a Boa Nova à humanidade. Em sua primeira manifestação seria, com certeza, apedrejada em praça pública. É também por este motivo, que Jesus escolhe apóstolos do sexo masculino para o trabalho de proclamação da mensagem de Deus.

Isso não significa que em seu grupo não havia mulheres. Jesus foi cercado de mulheres apaixonadas por seu carisma e por suas palavras, mulheres que não só o seguiram, mas também o ajudaram em seu empreendimento (Lc 8, 1-3). Além do mais, o Cristo se mostra totalmente aberto às mulheres, inclusive para discutir com elas teologia, o que para um judeu de sua época era um verdadeiro escândalo (Jo 8, 1-11; Lc 10, 38-41; Jo 4, 1-42).

Hoje, não se tem dúvidas de que também mulheres estiveram presentes na última ceia e os primeiros anúncios da Ressurreição de Jesus foram feitos por elas (Jo 20, 1-18; Mc 16, 1-7). As mulheres apenas não tomaram a dianteira na divulgação da “Boa Nova”, por ser a sociedade da época extremamente machista.

Apesar deste universo humano dominado pelo sexo masculino, Maria encontra-se no núcleo desta história de salvação e de forma alguma é apresentada como uma mulher submissa. Ela aceita a proposta de Deus e se torna a mãe do Salvador, mas antes de dar o seu “sim” deseja saber como tudo deveria acontecer (Lc 1, 26-38).

Ela proclama a justiça social e praticamente força Jesus a realizar seu primeiro milagre (Lc 1, 46-56; Jo 2, 1-12). No transcorrer dos séculos esta mulher acaba tornando-se parte integrante do cosmo divino, sendo venerada em todos os Continentes.

O universo religioso, porém, deveria refletir em nossas relações humanas. A imagem de Maria e de muitas outras mulheres proclamadas como santas, devem ressaltar a importância da participação da mulher em todas as áreas de nossa sociedade. Mais do que qualquer outra religião, o cristianismo deveria reconhecer o devido lugar da mulher.

Se hoje as mulheres contribuem ativamente, com sua feminilidade, no governo de países, Estados e cidades, nas administrações de empresas, escolas, enfim, em diversas áreas de nossa sociedade, torna-se cada vez mais contraditório a presença de hierarquias religiosas formadas somente de homens ou de comunidades cristãs nas quais as mulheres não possuem a liberdade de seguir uma vocação sacerdotal, são impedidas de desenvolver uma atividade profissional ou estão condenadas a costumes morais arcaicos.

Se as igrejas cristãs querem proclamar Jesus Cristo, necessariamente devem estar a serviço da realização pessoal e da felicidade de todos os seres humanos, independentemente de raça, cor ou sexo. “A verdade é filha do tempo, não da autoridade” (Francis Bacon).