Sob protestos dos moradores e discussão acalorada entre os próprios parlamentares, a Câmara dos Vereadores rejeitou o projeto de lei de autoria do vereador Osvaldo Paquito da Silva (PPS), que proibia a construção de novos edifícios nos bairros Vila Riachuelo e Vila Mariana, zona sul de Bauru, localizadas entre as avenidas Nossa Senhora de Fátima e Getúlio Vargas.
Para a proibição ser aprovada, eram necessários dois terços dos votos dos vereadores - isto é, 14 votos favoráveis. No entanto, o projeto de Paquito obteve 12 votos a favor e oito contrários. O vereador Renato Purini (PV) se absteve de votar. O pai dele, Roberto Purini, é proprietário de um terreno no local.
Desde o início da sessão da Câmara, cerca de 30 moradores do quatrilátero formado pelas ruas Alfredo Fontão, Jamil Gebara, Ignácio Alexandre Nasralla e professor Alberto de Rezende estavam ansiosos pela votação. Durante o decorrer da tarde, alguns vereadores chegaram a usar a Tribuna sugerindo o sobrestamento da votação.
Quando o projeto foi para discussão, o vereador Rodrigo Agostinho (PMDB), favorável à proibição, afirmou haver um “conflito de interesses†em relação à questão. Para ele, a proibição deveria ter sido já para o primeiro dos 15 prédios que existem atualmente no quadrilátero. “Duvido que um projeto de alteração da lei de zoneamento da cidade passaria dentro dessa casaâ€, afirmou Agostinho.
O projeto do vereador Paquito foi um pedido dos moradores da região da Vila Mariana e Vila Ricahuelo. Segundo o parlamentar, a área está saturada de empreendimentos verticais. Um novo projeto previsto para o local - um prédio de 15 andares - poderia causar um colapso nos sistemas de energia elétrica, telefone e, principalmente, água e esgoto.
Ao término da votação, os moradores ficaram revoltados. Da platéia, se ouviam gritos de “é uma vergonhaâ€. Ana Cristina Rodrigues de Oliveira, uma das “líderes†dos moradores, estava aos prantos. “Numa hora dessas você tem vergonha de ser bauruense, porque mais uma vez, dentro dessa Casa, prevaleceu a vontade de um políticoâ€, desabafou.
O ex-vereador Luiz Roberto Relvas, da platéia, gritava para os vereadores que queria explicações sobre a abstenção de Purini. Durante o pequeno tumulto que se formou, o vereador Paquito disse que a Casa era uma “vergonhaâ€, e causou mal-estar entre os parlamentares.
Corporativismo
Paquito admite que “perdeu a boa†com a posição de alguns vereadores, mas disse que o que incomodou não foi o voto de cada um, e sim a motivação. “O vereador tem que colocar seu mandato a serviço da população, do público, e não individualmenteâ€, declarou. E completou: “O resultado da votação eu aceito com naturalidade.â€
Para o vereador, a saída para os moradores da região agora é aguardar uma posição do Executivo municipal. “Eu acredito que o prefeito precisa urgentemente tomar uma posição, fazer um plano de zoneamento para a sociedade, para evitar que haja esse corporativismo aqui na Câmara, porque quando não tem uma pessoa interessada, você aprova e evita um problemaâ€, disse.
Em contrapartida, o vereador Renato Purini afirma que a abstenção dele foi mesmo pelo fato de que seu pai é proprietário de um terreno na região abrangida pelo projeto. “Não é segredo para ninguémâ€, afirmou. “De uma forma ética e para mostrar que eu não tinha interesse nenhum em aprovar ou não esse projeto eu pedi para me abster.â€
Purini afasta a idéia de que houve corporativismo de alguns vereadores. “Eu não pedi para ninguém votar contra ou a favor do projeto. Cada um vota de acordo com sua consciênciaâ€, declarou. E prosseguiu: “Se Bauru começar com isso (proibir contruções), não se constrói nada em lugar nenhum mais.â€
Quanto ao pedido de explicações sobre sua abstenção, por parte de moradores presentes na platéia, o vereador observou que o regimento da Câmara não prevê isso. “Eu não sou obrigado (a explicar)â€, afirmou.