09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Um senhor chamado Mário Vargas Llosa


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Escrevo este artigo antes de saber quem foi escolhido para receber o Prêmio Nobel de Literatura. Não importa, porém. Minha preferência vai para Vargas Llosa, quem quer que tenha sido o eleito. Homem lúcido, hábil manejador da palavra, a honraria lhe cabe como uma luva, dadas suas qualidades, sua firmeza e seu descortino diante da vida. Além de notável escritor, Vargas Llosa sobressaiu-se na política, quando foi candidato à presidência do Peru. Em suas memórias Peixe na Água, conta algumas passagens interessantes. Preterido por Fujimori, Vargas Llosa decepcionou-se com a política, mas jamais deixou de atacar o populismo, que sempre teimou em fazer a América Latina andar para trás. No debate político que teve, em 1990, com seu adversário, este ironizou: “Parece que o senhor está querendo transformar o Peru numa Suíça, doutor Vargas.” Daí para frente, durante toda a campanha a presidente, querer transformar o Peru “numa Suíça” passou a ser, para os adversários de Llosa, uma pretensão grotesca.

E por que não fazer um país sem pobres nem analfabetos, de gente culta, próspera, livre que conseguisse passar a ser história, mediante uma reforma liberal de uma incipiente democracia? Apesar das altas aspirações de Llosa, o candidato Fujimori acabou obtendo uma elevadíssima porcentagem de votos, arregimentando vários partidos e enterrando, de vez, as premissas do adversário. Daí Llosa ter escrito sabiamente: “as mencionadas mediocridades, que, como acontece em todos os partidos e principalmente nos mais caudilhistas, são as que costumam apoderar-se da cúpula diretiva”... Fujimori tinha lá um certo verniz de cultura, já que se tratava de um obscuro ex-reitor de uma universidade técnica. Era, porém, um pigmeu perto do gigante Llosa que o descreveu como um homem miúdo e um tanto rígido, expressando-se sem desenvoltura e com erros de sintaxe. Honesto? A História se encarregaria de provar que não. Já na época das eleições, descobriu-se que era dono de uma propriedade agrícola que lhe fora cedida gratuitamente, nas proximidades de Lima, cessão essa justificada por um dispositivo da Reforma Agrária sobre a repartição gratuita de terras aos camponeses pobres!

Llosa conta que a identificação de Fujimori com os pobres passou a ser alguma coisa inexplicável, irracional. Ninguém se importava com a denúncias e os bens do candidato. E, para cúmulo dos cúmulos, um informe de jornal atacava Llosa devido às suas simpatias para com os Estados Unidos e suas críticas a Cuba e aos regimes comunistas, sugerindo que essa situação poderia criar uma polarização no país e aguçar os sentimentos anti-americanos.

Depois disso, todos sabem o que aconteceu: Fujimori derrotou um candidato preparado, assumiu o poder (57% contra 34%) e Vargas Llosa marcou o fim da etapa política em sua vida. Passado certo tempo, Fujimori fechou o Congresso, o Poder Judiciário, o Tribunal de Garantias Constitucionais e o Conselho Nacional da Magistratura, suspendeu a Constituição e passou a governar mediante decretos-leis, medidas respaldadas pelas Forças Armadas. O que ocorreu ao longo dos anos, qualquer brasileiro de mediana cultura política sabe: o Peru tornou-se vítima da mais atroz corrupção, tendo Fujimori de refugiar-se no Japão, a fim de escapar a um julgamento mais severo dos incautos eleitores que o guindaram a uma posição para a qual não estava preparado.

Com o desenrolar dos fatos, Vargas Llosa acabou desenvolvendo um horror visceral à ação política e inicia, de novo, uma fase da vida na qual a literatura passaria a ocupar o lugar central. O Peru deixou escapar a oportunidade de contar, possivelmente, com um grande estadista, entretanto, o mundo passou a contar com um dos maiores escritores das últimas décadas. (Dra. Maria da Glória De Rosa - RG 1.946.380)