09 de julho de 2026
Cultura

Além do cartão-postal

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

A imagem do anfiteatro do Parque Vitória Régia, da catedral na Praça Rui Barbosa ou do Calçadão da Rua Batista de Carvalho se tornaram ao longo dos anos sinônimos visuais de Bauru na televisão, nos panfletos de propaganda (da administração municipal e também de empresas privadas) e - é claro - nos cartões-postais da cidade.

Mas quando a professora, pesquisadora e semioticista Lúcia Helena Ferraz Sant’Agostino, para usar como base em sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP), forneceu máquinas fotográficas para 87 pessoas de diferentes bairros bauruenses para que elas registrassem o que lhes era mais significativo no cotidiano, poucas vezes esses lugares apareceram.

Quando apareceram, foram vistos mais como elementos identificadores do local do que como representação da identidade do bairro e das pessoas. Como se fossem apenas fachadas tampando a vida real formada de imagens nem sempre belas ou engrandecedoras.

As fotos mais representativas que Sant’Agostino utilizou em seu trabalho, intitulado “Rumo ao Concreto”, podem ser vistas até o dia 31 de outubro no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”, na exposição “Rumo ao Concreto: A Cidade do Morador”, organizada pela própria professora. Ela também ministra uma palestra sobre as imagens hoje, às 20, no Senac.

De acordo com a pesquisadora, as mais de mil fotos que resultaram da experiência mostram vivências urbanas muito diversas, numa cidade fragmentada nos modos de vida, desejos, valores e expectativas de seus moradores. â€œÉ como se existissem várias cidades dentro de Bauru com características próprias”, diz.

Um dos exemplos apontados por Sant’Agostino são bairros construídos espontâneamente, gradualmente, como a Bela Vista e Independência especialmente e o Jardim Europa, que são habitados por pessoas que se conhecem, familiares. “Eles formam cidadas à parte, que têm uma vida solidária, mais integrada”.

Em contrapartida, bairros que são construídos programadamente como os conjuntos habitacionais ou construídos pela especulação imobiliária, mostram uma heterogeneidade muito grande entre as pessoas. Isso faz com que elas vivam dentro de suas “cápsulas” e não tenham uma vida social dentro do bairro. “Existe um silêncio coletivo muito grande na parte alta do Jardim América por isso”, cita a professora como exemplo.

A Bauru das grandes e belas construções não aparece tanto nas fotos, segundo Sant’Agostino porque os fotógrafos consideram que existe uma espécie de cidade “oficial”, vendida pela imprensa e pelo poder público, que é a “cidade do cartão-postal”, que não reflete suas realidades. “Pouquíssimas pessoas fotografaram ‘essa cidade’. Elas fotografam a cidade que elas vivem, o ambiente construído delas”, diz.

Uma curiosidade apontanda pela pesquisadora é diferença dos pontos de vista sobre Bauru de acordo com grau de educação formal dos fotógrafos.

“Quanto maior o grau de educação, quanto mais próxima a pessoa estava do curso superior, mais ela fotografava a ‘cidade do cartão-postal’. Talvez para mostrar o desempenho... As pessoas com menos educação formal se apropriaram mais do urbano e fotografaram mais o concreto de suas experiências. Não há fotos à distância”, explica.

“Parece que quanto mais educação formal, mais a pessoa se fecha e pega essa cidade panorâmica”, completa. Um exemplo lembrado por Sant’Agostino pode ser visto nas fotos sobre as favelas da cidade. As pessoas que convivem nessa realidade mostraram a dureza de viver sem água, sem infra-estrutura. As pessoas de maior educação formal fotografaram as favelas de longe.

Para a professora a idéia de Bauru ‘metrópole’ também varia de acordo com os bairros. As pessoas da “Zona Sul” - a parte alta do Jardim América, o Aeroporto - fotografaram a cidade como se fosse uma metrópole, foram fotos “bem ‘Zona Sul’”.

Já as pessoas que moram no Jardim América, abaixo da Avenida Nossa Senhora de Fátima, fotografaram a cidade dentro do seu contexto, como se fosse um outro bairro onde as pessoas têm uma preocupação com o todo.

“A sensibilidade para o contraste social da favela/ classe-média/casas/mansões, só aparece nas pessoas de menor poder aquisitivo. As pessoas de maior poder parece que não percebem que no mesmo bairro existe a escala completa dos conflitos sociais e econômicos”, diz.

• Serviço

Exposição fotográfica “Rumo ao Concreto: a Cidade do Morador”, no Centro Cultural até o dia 31 de outubro. Av. Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 235-1092.

Palestra “As Cidades na Cidade”, hoje, às 20h, no Senac. Av. Nações Unidas, 10-22. Informações: (14) 227-0702.