09 de julho de 2026
Articulistas

O que mostra o espelho


| Tempo de leitura: 2 min

Estão sobrepairando à curiosidade dos que desejem conhecer os novos avanços da moda feminina diversos modelos indumentários através dos quais representantes do belo sexo vão exibindo exuberantemente o que figurinistas de escola vivem inventando para despertar não só a admiração como os incontíveis desejos do outro sexo. A propósito, nos últimos dias badalados canais de televisão estiveram mostrando, com todo alarde imaginável, uma espécie de biquíni que deverá revolucionar o mercado, pois mostrará os “bumbuns” não só em toda a sua esplendorosa forma como em tamanho “fora do comum”, ficando mais desnudos que até aqui. São as mulheres mostrando o que são, como são e como poderão vir a ser por força de toda a sua vaidade pessoal e intensidade emocional. Nos séculos 18 e 19 muitos escritores e filósofos, especialmente europeus, procuraram definir a feminilidade, em toda a sua plenitude, pois já naquela recôndita época reinava uma idéia generalizada de que as mulheres começavam a alçar vôos - hoje supersônicos - e precisavam ser “domadas” pela sociedade. Em seu tempo, a nossa poetisa Cecília Meirelles o reconheceu também, tanto assim, que, entreolhando-se em seu mirante, vendo-se pessoalmente a si mesma, não titubeou em transformar-se numa poesia, opinando como vislumbrava a vida, a beleza e a biografia não dela apenas como de suas congêneres dispersas pelo mundo inteiro. Desejam conhecer o que diz o seu poema? Leiam, então, “Mulher ao espelho”:

“Hoje, que eu seja esta ou aquela pouco me importa. Quero apenas parecer bela, pois, seja qual for, não estou morta./ Já fui loura, já fui morena, já fui Margarida e Beatriz, já fui Maria e Madalena, só não pude ser como quis./ Que mal faz esta cor fingida do meu cabelo, e do meu rosto,/ se tudo é tinta: o mundo, a vida, o contentamento, o desgosto?/ Por fora, serei como queira a moda que me vai matando. Que me levem pele e caveira ao nada, não me importa quando./ Mas quem viu, tão dilacerados, olhos, braços e sonhos seus, e morreu pelos seus pecados, falará com Deus./ Falará, coberta de luzes, do alto penteado ao rubro artelho, porque uns expiram sobre cruzes e, outros, buscando-se no espelho”!

Então, face às realidades exteriorizadas pela poesia, não surpreendem os atalhos que a sensibilidade feminina toma em seus caminhos para acompanhar a evolução do mundo, sendo a mulher parte integrante da humanidade que não pára de transmudar. É, também, a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)