09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Exploração de crianças nas eleições


| Tempo de leitura: 3 min

Venho por meio deste conceituado jornal externar toda minha indignação com alguns fatos ocorridos no pleito do último dia 6 de outubro onde moro, em Piratininga, e que merecem toda atenção dos senhores leitores. Como cidadã, professora e conselheira tutelar, não poderia deixar de me calar diante destes fatos. A votação exigiu de todos nós uma certa dose de paciência, pois a média de permanência na fila, à espera de exercermos mais uma vez a tão sonhada democracia, foi entre 1h30 e 2h30. Não quero entrar no mérito dessa questão. O ocorrido foi que, apesar de todas as orientações da Justiça Federal, muitos eleitores insistiram em levar seus filhos até o local de votação. Até aí, tudo bem! Mas presenciei e tive conhecimento de algumas crianças sendo vitimadas pelos próprios pais, avós e outros. Pela pouca experiência que tenho na área de defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes, entendo que na Lei Federal n.º 8.069 de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, o artigo 5.º dispõe: “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”. Essas crianças foram exploradas e usadas pelas próprias pessoas que deveriam garantir que esses direitos não fossem violados, ou seja, os pais. E da forma mais mesquinha, egoísta e irresponsável. Na sessão em que voto, chegou um rapaz segurando seu filho nos braços (não era tão pequeno para esse gesto) e foi prontamente atendido. Ao sair, deixou transparecer um sorriso irônico e de satisfação, afinal, não precisou permanecer na fila como eu e outras pessoas, jovens e também mais velhos. As pessoas se entreolharam, não acreditando no que acontecia, no que aumentou mais ainda minha indignação, chegando ao ponto de um eleitor me responder: “Adiantou você reclamar?” Como quem diz, é assim mesmo!! Para mim não é assim mesmo, só vejo mudança em nossa sociedade a partir do momento em que cada um tiver consciência de que ser cidadão é exercer seus direitos e deveres com responsabilidade, iniciando nas pequenas atitudes, educando nossas crianças com bons exemplos, zelando para que se tornem cidadãos dignos, responsáveis, solidários, humildes e de boa índole.

Para mostrar que não foi apenas comigo o que aconteceu, cito o que minha sogra presenciou: ela estava na fila já há um bom tempo quando chegou uma mãe. Percebendo que demoraria a ser atendida, voltou até sua casa e trouxe consigo sua filha para ser, então, atendida preferencialmente. Pelo que conversei com outros amigos, esses episódios repetiram-se em outras sessões e até em outras cidades, de diversas maneiras (usando uma mesma criança por três vezes). Por isso, decidi fazer esse desabafo, porque onde moro todos se conhecem e sabemos que essas pessoas teriam com quem deixar seus filhos. Serve de alerta aos senhores eleitores para que no próximo pleito cada um tenha consciência de seus atos, levando as crianças em último caso, para que a votação transcorra da melhor maneira e o atendimento preferencial seja utilizado realmente por quem tenha direito. Deixo claro que não sou contra a ida de crianças nas sessões eleitorais, e sim o abuso de certos pais com seus filhos. Peço também que os senhores e senhoras convocados pela Justiça Eleitoral (sem generalizar) tenham bom- senso ao dar o atendimento preferencial a alguns pais. Só assim poderemos esperar um mundo melhor que daqui a alguns anos será dirigido por essas crianças. Como diz o verso de Milton Nascimento: “Há de se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto.” Grata pela publicação. (Ana Maria Merlin Persin - RG: 21.528.420)