09 de julho de 2026
Cultura

Música perpetuada

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 4 min

Dos acordes eruditos à batucada nas ruas. Na música, as perdas bauruenses foram sentidas em todos os ritmos.

A cidade perdeu esta semana a voz de Osni, que levava o lirismo da boa MPB aos bares com o grupo Gota D’Água. Mas o primeiro som que seu calou este ano em Bauru foi o da vitrola do professor Hélcio Pupo Ribeiro, que viveu para o Clube Amigos da Boa Música.

Desde a sua morte, no início de setembro as audições não mais ocorreram. Mas os amigos se reuniram para discutir o futuro do clube.

A viúva do professor Irma Maria do Rosário prefere manter o silêncio até o início de 2003. â€œÉ ainda um momento muito íntimo e quero preservá-lo”. Mesmo assim, afirma que os participantes das reuniões querem dar continuidade ao trabalho de 59 anos e mais de 2 mil audições organizadas por Pupo. O destino do acervo também deve ser revisto durante esta pausa.

Herói e ídolo

“Tem muita música ainda no papel com a letra dele”, diz o músico André Villela, amigo do compositor Carlinhos Bauruzão, um dos fundadores da banda Super Liga Katólica, que revolucionou a cena do rock local nos anos 80.

“Ele era o primeiro e único herói e ídolo da juventude bauruense”, completa o músico Paçoca, que também reuniu os companheiros da época: Heraldo, Turtelli e Pedro Romualdo para compilar todo o material da Super Liga e da recente Aeroplano e fazer um tributo ao cantor.

O show provavelmente será realizado do Armazén Bar e deverá acontecer em no máximo 50 dias. Os companheiros de banda querem fazer um trabalho digno da forte personalidade de Carlinhos, ou melhor, Francisco Carlos São Romão Sanches, que ficou conhecido pelo nome da canção “O Bauruzão”, que foi hino da juventude local.

Na última sexta-feira, os músicos já fizeram captação de imagens na cidade e já iniciaram a edição de imagens de shows de Carlinhos realizadas no Vale do Igapó em 85, no Armazén em 88, no projeto No meio da Rua, do Bar do Epa em 89 e do próprio clipe de Bauruzão.

“As fotos, matérias e partituras já somam mais de três pastas e nós vamos mostrar tudo isso no tributo”, define Villela.

Discípulo

Outubro foi um mês de luto para o samba de Bauru, a primeira grande perda foi a do compositor Francisco de Assis Menezes, o Menezes, um carioca que cresceu dentro da Portela, uma das mais tradicionais escolas do Rio de Janeiro e veio para Bauru há pouco mais de dez anos, onde se tornou compositor da Mocidade Independente de Vila Falcão e depois da Cartola. Ultimamente, morava em Arealva.

Alguns dias após a partida do compositor, a cidade perderia Orlando Francisco da Costa, o seu mestre nota dez de bateria Landinho, que desde os anos 60 era um elemento unificador do carnaval local. Era respeitado por todos de todas as escolas, independente de estar na Coroa ou na Cartola.

Em homenagem ao mestre, o vereador Paulo Madureira, vice-presidente da Cartola, prometeu apresentar um projeto para que a área de dispersão do Sambódromo passe a ter o nome do mestre Landinho, já que a concentração já leva o nome de Queté e a própria passarela do samba é dedicada a Gilberto Carrijo.

Mas a maior homenagem que Landinho poderá receber é ouvir de onde estiver um batuque comandado por Denis de Lima Pinto, de 33 anos que desde 1983 é treinado pelo mestre para ser seu sucessor.

“Um dia ele me disse que não ia ficar muito tempo neste mundo e pediu para prestar atenção em tudo. Ele sempre me falava como tinha que fazer”, recorda-se Denis, que toca surdo desde moleque.

“Ficamos órfãos”, lamenta Sérgio Soares de Mello, presidente do Bloco Flor de Laranjeira, que tinha Menezes como compositor, Landinho como mestre e o serralheiro Dirceu, que também faleceu este mês, como armador dos carros alegóricos. “Tenho medo que o carnaval se acabe.”

Entretanto, o discípulo de Landinho descarta a possibilidade. “Minha responsabilidade é muito grande, mas sinto-me preparado e ganhei o apoio de muitos ritmistas que ameaçaram parar de tocar com a morte do Mestre.”

Denis está dando um tempo para começar seu trabalho, mas já fez contato com os diretores do Flor de Laranjeira e da Coroa Imperial, inclusive para organizar pelo menos uma roda de samba em homenagem a Landinho.

“O mestre tinha planos para os dois grupos tenho que dar seqüência nesses projetos. Acho que é minha missão.”