10 de julho de 2026
Articulistas

Brasil: o que está em jogo


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As eleições no Brasil não foram definidas no primeiro turno, e será preciso esperar até o dia 27 para saber o resultado definitivo. Este intervalo obrigatório pode ser muito negativo para a estabilidade econômica e financeira do País, já bastante incerta pelos efeitos do contágio da gravíssima crise argentina. De fato, o Brasil é um país continente, com mais de 170 milhões de habitantes, tem a oitava economia do mundo, é líder do debilitado Mercosul e tem indubitável peso em toda a região, que se encontra numa fase muito perigosa de desestabilização política, social, econômica e financeira.

Esta é, seguramente, a mais grave crise ocorrida na América Latina desde que, nos anos 80, aconteceram as transições democráticas. Por isso, o que ocorrer no Brasil tenderá a repercutir, em ondas de choque sucessivas, até no Chile e no México, que são os Estados mais estáveis da região, bem como no Canadá, os Estados Unidos e na União Européia e, nesta última, sobretudo em Portugal e na Espanha (com grandes investimentos no Brasil).

É de notar que a Argentina, antes um Estado florescente e respeitado, está se desintegrando, o que afeta negativamente as frágeis economias do Uruguai e do Paraguai. Por sua vez, os ímpetos populistas da Venezuela, conjugados com a má vontade dos Estados Unidos em relação ao governo de Hugo Chávez, estão afetando seriamente a economia desse país rico em petróleo e membro importante da OPEP para não falar do desastre que parece irremediável da Colômbia, submersa em uma guerra interminável de características muito especiais, que inclui os poderosos cartéis da droga e corrói os fundamentos da soberania do Estado. Ou da crônica dependência e instabilidade de países como Equador, Peru e Bolívia.

A globalização desprovida de regras continua impondo ao mundo verdadeiras economias de “casino” e provocando estragos irreparáveis nos países subdesenvolvidos. O Brasil é um país de grandes contrastes e de profundas injustiças sociais, com 32 milhões de habitantes vivendo em extrema miséria. Luiz Inácio Lula da Silva provém das camadas mais humildes da sociedade brasileira. Foi metalúrgico e sindicalista ativo. Esteve entre os fundadores da Central Única dos Trabalhadores e do Partido dos Trabalhadores (PT). Esta é a quarta tentativa de Lula de chegar a presidência da República. Apesar de ter obtido a invejável marca de 46,4% dos votos frente ao candidato José Serra, próximo do presidente Fernando Henrique Cardoso e competente ex-ministro da Saúde, que ficou em segundo lugar com 23,2%, não conseguiu evitar o segundo turno.

Nestas eleições, os grandes empresários de São Paulo estão, pela primeira vez, com Lula, dando um sinal positivo aos demais empresários brasileiros e aos investidores estrangeiros. Sabem que um país como o Brasil só pode escapar das imprevisíveis conseqüências de explosões sociais violentas se avançar com políticas sociais voltadas para a redução das chocantes desigualdades existentes e contrárias às cegas políticas de ajuste que são a receita tradicional do FMI e do Banco Mundial, de tão funestos resultados em todas as partes e especialmente na vizinha Argentina. (Mário Soares foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996)