08 de julho de 2026
Geral

Bauruense viu de perto terror em Bali

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 6 min

Após terminar um curso de inglês de pouco mais de três meses na Austrália, o analista programador bauruense César Augusto Quaggio, 38 anos, resolveu esticar até à ilha de Bali, na Indonésia, onde iria tirar “férias dos estudos” e surfar. Durante as duas semanas que esteve por lá, a preocupação de sua mãe, Albina Caravieri Quaggio, era com os corais e pedras em alto mar, onde o filho praticava surfe.

Mal sabiam que na noite de sábado, dia 14, César vivenciaria de muito perto o pior atentado terrorista desde o 11 de setembro de 2001, em Nova York. Naquela noite, uma bomba explodiu na cidade de Kuta, sul de Bali, em frente à discoteca Sari Club, ponto de encontro de turistas e surfistas, na maioria australianos.

No atentado, morreram pelo menos 180 pessoas e 300 ficaram feridas. A explosão - e mais duas na mesma noite em outros pontos - foram atribuídas ao grupo extremista islâmico Jemaah Islamiyah, ligado a Al Qaeda de Ossama bin Laden. Pelo menos dois brasileiros que estavam em Bali continuam desaparecidos.

Hospedado em Kuta, César iria para o Sari Club naquele sábado encontrar-se com um grupo de brasileiros, mas, como ainda estava cedo, resolveu parar em um bar, a cerca de 100 metros da discoteca, para tomar uma cerveja. Lá, ele ouviu uma forte explosão, viu pessoas correndo em pânico, ensangüentadas, e viveu momentos de tensão até voltar ao Brasil, depois de 23 horas de vôo.

Na casa de seus pais, em Bauru, onde passou o fim-de-semana, César comeu churrasco, bolo de cenoura e concedeu a seguinte entrevista ao JC.

Jornal da Cidade - O que o senhor estava fazendo em Bali no dia do atentado? César Augusto Quaggio - Eu estava na Austrália estudando inglês, e depois que acabou o curso eu resolvi tirar duas semanas e pouco para ir para Bali surfar. Seriam férias depois do estudo. Lá, eu estava num hotel no sul de Kuta, e o centro de Kuta era onde havia a baladinha da noite, onde o pessoal ia, onde se faziam as compras, tudo. E lá foi onde teve essa explosão, que justamente no Sari Club, um local onde vai muito turista, principalmente turista australiano. Eu costumava ir a esse clube à noite, fui na noite anterior ao estouro nesse clube, encontrei uns brasileiros na sexta-feira, e eles combinaram de voltar no outro dia - que foi o dia da explosão - eles combinaram de voltar à meia-noite para a gente se encontrar lá.

JC - Onde você estava no momento da explosão? Quaggio - Eu estava no Tubes Bar, que é quase na mesma quadra, porque eu estava indo para o Sari e resolvi entrar nesse bar para tomar uma cervejinha lá antes de ir, porque estava cedo. Eles combinaram à meia-noite e ainda eram 22h30. Eu entrei, pedi uma cerveja e na hora em que terminei de tomar, explodiu o Sari Club. Quando explodiu, eu senti no ouvido aquela sensação de quando você está no fundo do mar a mais de três metros e sente um deslocamento de ar. Aí depois começou o clarão do fogo, já se via clarear a noite, e no nosso bar começaram os barulhos de pedaços de coisas voando, que caíam. Na hora em que apagou a luz eu comecei a correr, aí você já via alguns correndo voltando, porque quem estava do lado de fora na parte do jardim já foi cortado por vidro e pedaços de coisas, um monte de gente cortada, mancando.

JC - Qual foi a reação do senhor após a explosão? Quaggio - Eu cheguei no hotel, que estava tudo sem luz, não sabia de nada, o pessoal estava conversando muito sobre o evento, até às 3h, mas ninguém sabia nada. Eu só fiquei sabendo que era atentado às 5h, quando a minha irmã ligou daqui do Brasil, porque ela tinha visto na CNN que teve um atentando ou algo assim em Bali. Porque até então eu não sabia se era bomba ou se tinha sido encanamento, gás.

JC - Qual foi a sensação do senhor quando teve a confirmação de que se tratava mesmo de um atentado? Quaggio - Na hora você não sabe o que aconteceu. Eu só fui cair na real no dia seguinte, quando minha irmã já tinha ligado, e então eu comecei a perceber o pânico de turistas querendo ir embora, depois eu fui ao aeroporto tentar trocar minha passagem, chego lá e já está cheio de faixas, alas para pessoas machucadas, já via pessoal procurando passagem com hematoma, com corpo queimado. E eu ligava a televisão - e em Bali eles não faziam edição, transmitiam o que acontecia - e eu via recolhendo pedaços de pernas, pedaços de braços, filmavam o pessoal queimado. Os dois últimos dias que eu fiquei esperando eu acabei não saindo mais do hotel, você não sabe se vai ter mais atentado, se vai ter mais bomba. Eu só saí do hotel para tirar algumas fotos.

JC - Antes do atentado, o senhor chegou a perceber algum tipo de hostilidade por parte dos nativos de Bali? Quaggio - Não. Eles dependem do turismo, então tentam te cativar ao máximo. O pessoal local só oferece transporte, oferecem drogas, coisas de comércio de rua, você vai andando e o pessoal é até pegajoso, tentam de vender de tudo: transporte, marijuana. É só comércio, nada de ameaça. É um pessoal muito religioso lá, fazem cerimônias três vezes ao dia, colocam oferendas para os deuses, mas hostilidade não tem.

JC - O senhor pretende voltar para Bali um dia? Quaggio - Eu gostaria, mas não sei. Só por questão de grana mesmo, eu preferia gastar em outro lugar, viajar para conhecer outro lugar. Mas Bali é um lugar bonito, eu gostaria de voltar. Eu acho que isso (atentado) não vai acontecer de novo lá. Foi um tipo de recado dado. O Bin Laden deve ter dado um recado lá para atingir australianos, a Inglaterra.

JC - Como foi a viagem de volta, a expectativa de voltar para casa? Quaggio - Cada vôo que eu pegava eu ficava imaginando se iria chegar. Você fica imaginando se vai ter bomba no aeroporto, se vai ter no avião, até onde vai o atentado. Quando o avião pousou em Cingapura eu pensei: ‘se não estourou até agora, não vai ter bomba aqui’. Quando fez escala em Sydney eu já estava tranqüilo, mas até lá a gente ficava meio apavorado, porque se o atentado foi para atingir australiano, você não sabe se a coisa vai continuar lá. Só fiquei sossegado mesmo quando parei no Chile.

JC - Qual foi a primeira coisa que o senhor quis fazer quando chegou aqui? Quaggio - Ah, queria ver minha namorada, ver minha família. Só queria estar no Brasil. E comer churrasco, mas isso eu pensava desde que estava na Austrália. Lá não tem churrasco: é hamburguer, salsicha, ovo na chapa. Eu já liguei para minha mãe e disse: olha, eu estou indo para sua casa, vou querer picanha, vou querer costela, cupim, cerveja e bolo de cenoura.