A metade dos brasileiros é pobre ou muito pobre, mas o país é o segundo mercado mundial das canetas Montblanc e o nono comprador de carros Ferrari, e as lojas Armani de São Paulo vendem mais do que as de Nova York. Há quatro anos, o jornalista Richard Swift chegou aos campos do oeste de Gana, onde se produz cacau barato para a Suíça. Na mochila levava algumas barras de chocolate. Os plantadores de cacau nunca haviam provado o chocolate. Ficaram encantados. Os países ricos, que subsidiam sua agricultura ao ritmo de um bilhão de dólares por dia, proíbem os subsídios para a agricultura nos países pobres. Colheita recorde nas margens do rio Mississipi: o algodão norte-americano inunda o mercado mundial e derruba o preço. Colheita recorde nas margens do Rio Níger: o algodão africano paga tão pouco que nem vale a pena colher.
O progresso infla. Desde que a China se abriu para o que chamam de “economia de mercadoâ€, o cardápio tradicional de arroz com verduras foi velozmente substituído pelos hambúrgueres. O governo chinês não tem outra a coisa a fazer a não ser declarar guerra contra a obesidade, convertida em epidemia nacional. A campanha de propaganda divulga o exemplo do jovem Liang Shun, que emagreceu 115 quilos no ano passado.
À primeira vista parece incompreensível, e à segunda também: onde mais o progresso progride, mais horas as pessoas trabalham. A doença por excesso de trabalho leva à morte. Em japonês, chama-se karoshi. Agora os japoneses estão incorporando outra palavra ao dicionário da civilização tecnológica: karojsatsu é o nome dado aos suicídios por hiperatividade, cada vez mais freqüentes.
Em maio de 98, a França reduziu a semana de trabalho de 39 para 35 horas. Essa lei não só foi eficaz contra o desemprego como também deu um exemplo de rara cordura neste mundo que perdeu um parafuso, ou dois, ou todos: para que servem as máquinas, se não reduzem o tempo de trabalho do homem? Mas os socialistas perderam as eleições e a França retornou à anormal normalidade de nosso tempo. Já está se evaporando a lei que havia sido ditada pelo sentido comum.
A tecnologia produz melancia quadrada, frangos sem penas e mão-de-obra sem carne nem osso. Em alguns hospitais dos Estados Unidos, os robôs cumprem tarefas de enfermaria. Segundo o jornal The Washington Post, os robôs trabalham 24 horas por dia, mas não podem tomar decisões, porque carecem de sentido comum: um involuntário retrato do operário exemplar no mundo futuro. Quando George W. Bush propôs cortar as florestas para acabar com os incêndios florestais, não foi compreendido. O presidente parecia um pouco mais incoerente do que de costume. Mas ele estava sendo conseqüente com suas idéias. São seus santos remédios: para acabar com a dor de cabeça, deve-se decapitar o paciente, para salvar o povo do Iraque, vamos bombardear até transformar o país em purê. O mundo é um grande paradoxo que gira no universo. Neste passo, daqui a pouco os proprietários do planeta vão proibir a fome e a sede, para que não faltem pão nem água. (O autor, Eduardo Galeano, é escritor e jornalista uruguaio)