10 de julho de 2026
Política

Para Genoíno, PT está preparado

Por Gilmar Dias | Especial para APJ
| Tempo de leitura: 8 min

O candidato do PT ao governo do Estado, José Genoíno, está convencido de que chegou a hora de o partido governar São Paulo e o Brasil. A Associação Paulista de Jornais (APJ) promoveu um encontro de seus dirigentes com o candidato petista para saber mais sobre seu programa de governo, visando informar, em detalhes, os milhões de leitores dos jornais associados, líderes em suas regiões.

Genoíno disse, sobre o recorrente tema da segurança, que pretende criar um sistema de compensação para os municípios que abrigam penitenciárias em seus perímetros. “Eu defendo o modelo de compensação. Esses municípios vão ter que receber mais incentivos sociais ou um maior efetivo de segurança.” A seguir, a entrevista:

Associação Paulista de Jornais (APJ) - As regiões que formam o Estado de São Paulo têm perfis econômicos e vocações diferenciados. Como o senhor pretende trabalhar essa complexidade? José Genoíno - A minha visão sobre o Estado de São Paulo é que o governador tem que ter a cabeça no mundo e a cabeça em cada região do Estado. A minha proposta é articular uma agência de comércio exterior com agências regionais de desenvolvimento econômico. O papel dessa agência será apoiar as vocações regionais, diversificar as opções econômicas para, aos poucos, sairmos da monocultura em algumas regiões. Nós queremos que essas agências sejam o braço avançado do governo nas regiões.

APJ - Como o senhor analisa o apoio do PPB de Paulo Maluf a sua candidatura. Essa decisão pode representar desgastes? Genoíno - Nós não temos aliança política nem apoio da direção do PPB. Nós estamos disputando os votos do Maluf. Nós queremos que todos que votaram no Maluf votem no Genoíno. Ele (Maluf) fez muitas críticas ao Geraldo Alckmin. É natural que seus eleitores votem em mim. A minha candidatura é ampla. Agora, nós somos adversários do Maluf. Não vamos deixar de considerar isso. Mas nessa campanha não foi visto um ataque nosso a Paulo Maluf. E querer voto não dá desgaste.

APJ - Nas últimas pesquisas eleitorais a candidatura do senhor tem oscilado com uma diferença de 8% a 14% abaixo de Geraldo Alckmin. Qual é a estratégia para alcançar ou ultrapassar a candidatura tucana? Genoíno - Pela pesquisa, 8%, considerando os institutos, era exatamente a diferença que alguns deles davam na véspera da eleição. Considerando que os institutos que me dão hoje com uma diferença de 8% a 14% em relação a Alckmin são os mesmos que me deram com 3% atrás do Paulo Maluf e eu o passei com 11%, essa diferença será retirada em 24 horas. O PT é um partido de chegada.

APJ - Já que o assunto é esse, o governador Alckmin diz que o senhor é um caronista do Lula. Genoíno - O Alckmin está desesperado. Ele posa de bonzinho. Mas quando chego perto, ele começa a falar coisas que não servem ao estilo dele. Eu sou de um time. Por que ele não mostrou o Serra nos programas? Eu me orgulho de ser caronista do Lula. Eu quero que ele se orgulhe de ser caronista do Fernando Henrique Cardoso e do Serra.

APJ - Se eleito, o senhor pretende governar junto com esses partidos que estão lhe dando apoio? Genoíno - Olha, o PT vai fazer um governo amplo. Nós vamos fazer um governo negociando com o setor empresarial, fazendo um pacto pelo emprego e pelo crescimento. O meu vice vai ser o grande articulador por um pacto por São Paulo.

APJ - Mas esses partidos vão fazer parte do governo ou não? Genoíno - Eu não sei. Eu estou lhe falando que vamos governar. Eu preciso ganhar a eleição. Cada coisa no seu momento. Eu quero ganhar a eleição com eles e quero governar com eles.

APJ - Como o senhor pretende diminuir o valor do pedágio e o número de praças sem quebrar os contratos assinados com essas empresas? Genoíno - Veja bem, os contratos foram mal feitos. A situação do pedágio em São Paulo é escandalosa. O custo São Paulo hoje tem como responsável principal o número de pedágios. O suco de laranja pagou, em 2001, R$ 18 milhões em pedágios. A tonelada de soja, por ano, teve um acréscimo de R$ 100,00 por causa do pedágio. Os pedágios dificultam a integração das cidades vizinhas. Vou mostrar às concessionárias que a situação é insuportável. O que vou colocar na mesa para negociar é algo que nunca se discutiu em São Paulo: o uso de painéis eletrônicos e outdoors nas estradas. É algo extremamente lucrativo.

APJ - A Hidrovia Tietê-Paraná, nos últimos anos, não têm recebido os investimentos necessários para o seu fomento. O senhor tem um projeto para incentivar o transporte hidroviário? Genoíno - Nós temos que viabilizar essa hidrovia. Ela é estratégica para a economia do Interior do Estado. Ao lado da Hidrovia Tietê-Paraná nós temos a produção do setor canavieiro, da citricultura, da pecuária de corte e da soja. Temos que criar em Bauru uma espécie de plataforma, uma central de cargas, que tenha centro de eventos, centro de tecnologia, de comunicação. Bauru é o centro do Estado por onde passa a Marechal Rondon, a Castelo Branco, por onde se liga São Paulo com Mato Grosso do Sul e outros Estados vizinhos. Essa região tem um potencial turístico que está adormecido.

APJ - O senhor já anunciou publicamente que pretende compensar os municípios que receberem penitenciárias do Estado. Como vai se dar essa compensação? Genoíno - Essa é uma questão de justiça. Há regiões que estão sacrificadas pelo número de penitenciárias. E outras que não têm condições de tê-las. Vou dar um exemplo: ter um Centro de Detenção Provisória no centro de São Bernardo é um contrasenso. Aquilo ali terá de ser desativado. Uma cidade como Avaré, que é um pólo turístico, não tem como ter uma penitenciária. Isso impede o desenvolvimento do seu pólo turístico. Vamos ter que rediscutir a localização das penitenciárias. A cidade que tiver uma penitenciária terá de receber uma compensação do Estado.

APJ - Mas que tipo de compensação? Genoíno - Vamos negociar com a cidade. Pode ser maiores investimentos sociais, maior efetivo de segurança. E o Estado como um todo tem que compreender que no orçamento uma cidade tem que receber mais do que a outra porque ela está sendo penalizada no sentido de ter um ônus que a outra não tem.

APJ - O senhor já anunciou que vai colocar a Rota nas ruas caso vença as eleições. Está mantida essa promessa? Genoíno - Mantenho a mesma posição declarada em janeiro deste ano. A Rota vai existir para cumprir missões especiais em comando especial. Rota, Garra, GOE, Gati são tropas especiais. Vou ter um subsecretário de operações especiais. Essas forças que são de elite, bem treinadas e equipadas, não vão ficar nas ruas fazendo policiamento de praça, comunitário. Elas vão para as ruas para derrotar toque de recolher, cativeiros de sequestrados, roubos de cargas, tráfico de drogas.

APJ - O Estado já perdeu o Banespa e a Nossa Caixa Nosso Banco está em vias de privatização. Se eleito, o senhor pretende manter esse processo? Genoíno - Não vamos aceitar a privatização da Nossa Caixa Nosso Banco. Vamos sustar esse processo. O governo não vai abrir mão do controle acionário da Nossa Caixa. Ela será um banco forte, capitalizado, com uma direção profissional, sem influência política e partidária.

APJ - A ‘Guerra Fiscal’ é o instrumento mais apropriado para manter o empresariado no Estado e atrair novas indústrias? Genoíno - Eu tenho um programa para atrair o empresariado de volta. Oferecer a logística do Estado, com a facilidade da produção seguir para o mundo. Por isso que nós temos de melhorar o sistema viário, diminuir os pedágios, regionalizar o porto de Santos. Apoio tecnológico para as empresas: banco de dados, de projetos, programa de inovação. E fazer com que a esfera pública, através de institutos, universidades, se comuniquem com a iniciativa privada.

APJ - Mas qual é essa proposta? Genoíno - Pois é, eu não posso chegar e colocar essa proposta sem negociar. Tenho os pontos dela: desonerar a produção, as exportações e a pequena e média empresa. Proponho um sistema de imposto progressivo, que não tenha efeito em cascata. O grande problema hoje é o imposto ter efeito em cascata. Eu até aceito negociar o Imposto de Valor Agregado, o IVA, se tivermos condições de termos uma compensação para São Paulo.

APJ - Há uma expectativa muito grande por parte da sociedade para um eventual governo do Lula. Não se faz milagres a curtíssimo prazo. O senhor e o partido não têm medo de uma frustração geral por parte da população? Genoíno - Eu não tenho esse medo porque nós não vamos decepcionar. O PT se preparou para esse momento. O PT não se preparou só nesta campanha. Nós estamos nos preparando há muito tempo com os encontros do PT, os congressos, as alianças, a relação com a iniciativa privada. Nós amadurecemos muito para não decepcionar. Nós estamos mostrando que o nosso projeto de mudança é com muita responsabilidade. Não é com ruptura que nós vamos mudar, não é provocando sobressaltos. Nós vamos mudar com os pés no chão e na cabeça o que nós queremos.