08 de julho de 2026
Auto Mercado

'Doutor' Interlagos

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 7 min

O bauruense Nilton Alexandre Parisoto integra um seleto grupo, que não chega nem as milhares de pessoas, a ter na garagem um dos ícones da indústria automotiva nacional da década de 60. Ele é um dos 822 brasileiros que se transformaram em donos de dois Willys Interlagos - uma berlineta e um conversível - fabricados no Brasil durante apenas quatro anos .

Parisoto é uma verdadeira enciclopédia sobre os Interlagos. Acumulando conhecimentos pesquisados desde a adolescência em revistas especializadas, catálogos, folders e o manual do proprietário, que ele guarda a sete chaves até hoje, ele sabe tudo sobre os “carrinhos”. A começar pelas suas raízes e inspirações européias e principalmente, os detalhes mecânicos dos automóveis.

Tamanho gosto pelos Interlagos, raros por natureza, transformou os exemplares orgulhosamente estacionados na garagem de Parisoto em verdadeiras “jóias” devido ao seu impecável estado de conservação. Por dentro ou por fora, os veículos, ambos com motores de 845 cc e quatro marchas, esbanjam charme e esportividade graças às cores reluzentes e aos volantes revestidos em madeira envernizada.

O “xodó” de Parisoto pelos veículos também pode ser visto com os cuidados mecânicos, executados particularmente pelo bauruense. “Eles são carros fáceis de ser consertados, tarefa que eu mesmo cuido fazendo questão de só colocar peças novas”, afirma ele.

Tanto carinho e admiração pelos modelos da Willys nasceram no coração de Parisoto quando ele ainda era jovem. “Tinha 18 anos e estudava em São Paulo. Em 1962, visitei o Salão do Automóvel e me apaixonei pelos Interlagos, principalmente pela berlineta, pois ela tinha um design diferente de todos os carros existentes no Brasil naquela época”, conta ele.

Entretanto, ele só conseguiria realizar seu desejo de ter um Interlagos cinco anos depois. “Tinha um Simca lindíssimo que precisei vendê-lo para comprar a berlineta”, lembra Parisoto. E foi justamente com ela que o bauruense realizou, em 1969, a sua lua-de mel com a esposa. “Fui para São Paulo e o circuito de serras do Rio de Janeiro com a berlineta sem enfrentar qualquer problema. Por isso, digo que os Interlagos fazem parte da minha vida”, diz.

Com o nascimento da primeira filha, em 1970, Parisoto teve de vender a berlineta, período que coincidiu com a decadência dos Interlagos no País. “O povo não tinha o espírito e a cultura de preservar os carros antigos naquela época”, afirma ele.

Quatro anos depois, em viagem a trabalho em Paris, o bauruense deparou-se, em um show room, com um Alpine totalmente preservado. “Aquilo me arrepiou e me deu um estalo. A partir daquele momento, decidi que deveria comprar outro Interlagos”, revela Parisoto.

E foi assim que em junho de 1975, após ter avistado uma berlineta abandonada em um galinheiro em Bastos, Parisoto acabou realizando seu desejo. “Demorei cinco anos para restaurá-la”, acrescenta o bauruense.

Mais tarde, em 1982, ele acabou adquirindo mais um Interlagos para sua coleção. Desta vez era o modelo conversível, que um amigo havia comprado. “Foi um negócio de ocasião. Meu colega, vendo minha paixão pelo carro, achou que o veículo estaria melhor nas minhas mãos”, lembra ele, rindo.

Vida curta

Parisoto conta que o Interlagos foi fabricado durante a década de 60 - 1962 a 1966 - no Brasil pela Willys, sob licença da francesa Alpine, nas versões conversível, cupê e berlineta e com quatro opções de propulsores - 40 cv, 50 cv, 56 cv e 70 cv. “Em 1964, eles foram padronizados em 53 cavalos”, diz. Os motores tinham quatro cilindros e 845 centímetros cúbicos.

O bauruense explica, ainda, que três fatos “conspiraram” contra a continuidade da produção do carro no País, que limitou-se, no caso da berlineta, a apenas 822 unidades. O primeiro foi quando a Ford comprou a Willys e praticamente abandonou a assistência prestada aos modelos. “Também pesou por ser um veículo caro e inadequado às condições das estradas da época, cuja maioria não era asfaltada”, afirma ele.

Parisoto acrescenta que o Interlagos também fez sucesso nas pistas correndo pela equipe oficial da Willys. “Eles chegaram a ser pilotados por José Carlos Pacce e Emerson Fittipaldi”, diz.

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Perfil

Nome Nilton Alexandre Parisoto

Idade 58 anos

Lugar para passear Sul do Brasil

Time do coração Palmeiras

Quem você nunca levaria como passageiro nos seus Interlagos?

“O Eurico Miranda. Não pelo que os outros falam dele, mas pelo que ele mesmo fala.”

E quem você faria questão de ter como passageiro?

“Qualquer amigo verdadeiro.”

O que mais lhe irrita no trânsito bauruense?

“Os apressadinhos que não respeitam o limite de velocidade das vias.”

Que nota você daria aos motoristas bauruenses?

“No máximo, sete.”

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História francesa

Pode-se dizer que o mentor “intelectual” do Interlagos foi o francês Jean Redélé, fundador da Alpine que inspirou a criação de automóvel de mesmo nome e do seu “frère” (irmão) brasileiro.

Redélé começou em sua oficina na cidade de Dieppe, na França, preparando carros e obtendo sucesso em competições após a Segunda Guerra Mundial. Modificando um Renault 4CV, conhecido no Brasil como “Rabo Quente”, ganhou várias corridas, incluindo as Mil Milhas dos Alpes.

Do nome da cadeia de montanhas européia nascia um 2+2 lugares com linhas esportivas em sua carroceria aerodinâmica. Era ágil, pequeno e leve, pois pesava menos de 700 quilos.

Em 1954 era fundada a Societé Anonyme des Automobiles Alpine. Foi pioneira na construção de carrocerias em fibra de vidro, em 1955, quando lançou o A106, primeiro modelo da marca com o motor e chassi do Renault 4. Foi o primeiro sucesso.

O desenho do carro era obra de Michelotti. O automóvel ganhou várias competições e provou ótima estabilidade e maneabilidade em provas de montanha. Ganhou as famosas Mil Milhas italianas em 1956, a uma velocidade média de 100 km/h.

Sempre utilizando motor e componentes Renault, seu sucessor, o A108, foi lançado em 1956 e fabricado até 1963. Em 1962 era apresentado no Salão de Paris o modelo de maior prestígio da marca, o A110 Tour de France.

Este distinguia-se do A108 pelas linhas diferentes na traseira, projetadas por Serge Zuliani, e pelo motor, de 55 cv, do Renault R8 posicionado na traseira. Opcionalmente havia uma versão de 65 cv, equipada com quatro freios a disco.

A carroceria tinha faróis carenados, faróis de milha auxiliares, alguns cromados no capô e nas laterais e calotas nas rodas. Era também um cupê 2+2, mais aerodinâmico que seu antecessor, com linhas modernas e agressivas. Tinha volante esportivo de três raios e no painel trazia grandes mostradores, velocímetro e conta-giros, e três menores de pressão e temperatura do óleo, capacidade do tanque e amperímetro.

Este modelo manteve suas linhas praticamente inalteradas durante 14 anos e ficou conhecido como Alpine Berlineta, ou carinhosamente Berlineta.

Em 1964, o motor passava a 1.1 litro, com opções de 66 cv ou 80 cv. Em 1965 surgia como opção uma caixa de cinco velocidades e motor de 1.3 litro e 115 cv, trabalhado por Amédée Gordini. Na carroceria, a maior novidade eram as entradas de ar sobre os faróis. Também recebia quatro amortecedores traseiros.

Até 1969 apareceram várias opções de motor, sendo o mais potente de 1.6 litro e 138 cv. Sua velocidade final aproximava-se dos 210 km/h e percorria um quilômetro em menos de 31 segundos.

Em 1970 ganhava rodas de alumínio, era oferecido em cores mais agressivas, o radiador passava a ficar na frente e surgiam entradas de ar sob o pára-choque. Opcionalmente era oferecida direção assistida.

Em 1973 vinha com motor 1.6 de 140 cv, o mesmo que equipava o Renault 12 Gordini que brilhou nas pistas e o Lotus Europa. No ano seguinte recebia injeção eletrônica e uma versão 1.8 de 170 cv para clientes esportivos. Até que, em julho de 1977, sua produção foi encerrada. (Fonte: Best Cars Web Site - www.bestcarswebsite.com.br)

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Elos e amizades

Parisoto ressalta que, mais do que uma paixão, ser dono de um carro antigo é poder ter a chance de estabelecer elos com o passado. “Costumo dizer que quem compra autos de décadas passadas ou é porque o pai já teve ou a própria pessoa não conseguiu ter na época em que desejava”, enfatiza ele.

Além disso, segundo o bauruense, durante a década de 60, considerada por Parisoto como os anos dourados, o automóvel era o maior sonho de consumo de qualquer cidadão. “As pessoas mal arrumavam um emprego e já começavam a pensar nas maneiras de comprá-lo. E olha que naquele tempo não existiam as facilidades de hoje para se adquiri-lo.”

Parisoto frisa, ainda, que outro aspecto importante ao ingressar no universo do antigomobilismo são as amizades. “Graças aos carros desse gênero, tenho amigos espalhados por todo o Brasil. Alguns chegam a me telefonar só para falar que compraram determinado modelo”, afirma ele, com ar orgulhoso.

Por isso, vender os Interlagos é uma hipótese sequer aventada por Parisoto. “Eles não têm preço e só faria isso em caso de necessidade familiar”, garante ele.