Luiz Lula da Silva terá hoje mais de 50 milhões de votos se as pesquisas estiverem certas e se o comparecimento dos eleitores for o mesmo do primeiro turno. É um marco na história do País. Mesmo que hoje não atinja tal marca nas urnas, é fato inédito um candidato a Presidência que tenha liderado todas as pesquisas eleitorais nos últimos dois anos de sua provável eleição. Foi depois das eleições municipais de 2000, em que o PT teve vitórias importantes em grandes capitais (São Paulo, Porto Alegre, Recife, Goiânia, Belém) e a oposição ganhou 31 das 63 maiores cidades do País, que Lula consolidou sua posição nacional como candidato à Presidência. A provável vitória de Lula, hoje, não se legitima apenas pela força dos números das urnas, mas também pela trajetória da candidatura frente à opinião pública nestes últimos anos e as conquistas de seu partido ao longo de eleições sucessivas.
Há importantes pesquisadores, como Ricardo Guedes (Instituto Sensus), que consideram que, nestas eleições, o tempo todo o eleitor esteve em busca de uma terceira via, nem Lula, nem o candidato do governo. Roseana Sarney e Ciro Gomes poderiam ter esboçado esta tendência. Penso diferente. A meu ver, o eleitor avaliou permanentemente uma opção de mudança moderada, que paradoxalmente o próprio Lula acabou por oferecer, através de uma guinada organizada pelo partido para o centro e das adesões dos adversários de primeiro turno. Ao contrário das eleições anteriores, o que esteve em jogo para o eleitor foi a busca de alternativas que pudessem sinalizar de forma consistente um cenário de mudança organizada para o País.
Desta vez, o teflon que protegeu a imagem de Lula não foi uma operação publicitária de anteparo ou uma manipulação de mídia, mas a inconsistência ou não persistência dos discursos de seus adversários. Além do mais, o eleitor descartou, Brasil a fora, vagões de políticos anacrônicos. Um caso típico é o que ocorreu com o PMDB dissidente de São Paulo, detentor de horário de televisão extenso, colonizado por Orestes Quércia. O eleitor não só não o elegeu senador, como ainda levou apenas quatro deputados da legenda para a Assembléia Legislativa do Estado. Na falta de adversários que expressassem o momento, Lula o faz de forma cabal, não só pela legitimidade de seus números, mas pela qualidade desta eleição do ponto de vista da oferta de informações, empenho da mídia e da postura madura do eleitor.
De outro lado, a mão do governo ou do presidente não pesou para obscurecer ou desequilibrar o jogo. Fernando Henrique, cujo governo tem baixa popularidade e foi julgado nesta eleição, pode não ter tido um candidato que defendesse seu território, mas não sai inteiramente como perdedor. Deu ao Brasil uma perspectiva de transição transparente e civilizada. Quanto aos novos governantes, não tenham eles nenhuma dúvida de que a cidadania cresceu neste processo. As cobranças, demandas e controles serão mais afinados e contundentes. Mesmo porque a sociedade organizada, mais enraizada do que os próprios partidos, foi artífice importante desta vitória quase certa do PT. (A autora, Fátima Pacheco Jordão, é analista de pesquisa do Grupo Estado)