09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Nem medo, nem ódio


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Também não gostei do depoimento de Regina Duarte no horário eleitoral. Se já acho que a linguagem da política não é para ser ocupada pelas emoções, mas pela razão, muito menos posso achar razoável que justamente esta emoção tão reacionária quanto o medo torne-se plataforma política. Ao contrário de tantos outros que também odiaram o depoimento, contudo, não voto em Lula. Não, não tenho medo, nem do novo, nem da mudança, nem do fato dele não ter diploma universitário, nem mesmo das promessas contraditórias e vagas.

Não tenho medo sequer de uma de ver o poder ocupado por pessoas que fazem a patrulha ideológica que foi feita a Regina Duarte. Por mais que discorde das palavras dela, não posso admitir que seu direito de dizê-las - para não falar de sua competência profissional e até o seu caráter - seja cassado por pessoas que tem a arrogância de se acharem detentores do monopólio da virtude, da ética e da sabedoria.

Não voto por medo. Me dói ver que a mesma nação que em 85, logo após o fim do regime militar, Tancredo Neves podia se dirigir dizendo: “Neste momento alto na história, orgulhamo-nos de pertencer a um povo que não se abate, que sabe afastar o medo e não aceita acolher o ódio”, agora possa ser conduzida pelo medo. Me entristece pensar que em tão pouco tempo tenhamos nos tornado uma nação de covardes.

Não voto por ódio, por vingança ou por qualquer um destes sentimentos tão negativos, em cuja essência está a exclusão dos direitos do outro. Também me dói ver que chegamos a um ponto no qual uma pequena fração ideológica da nação julga-se proprietária da razão e detentora do direito de retirar a liberdade de expressão de qualquer um que ouse se opor a eles, me choca ver pessoas dignas terem seu nome arrastado à lama simplesmente por ser um espírito livre ou, como tantas vezes acontece, porque é mais fácil retribuir com xingamentos do que com argumentos.

Todos os que integram o campo democrático deveriam estar felizes por ver uma eleição presidencial na qual todos os candidatos estão a esquerda. Todos têm compromisso com a justiça social, as instituições democráticas e as mudanças que este país anseia por séculos. Por mais que se rotule este ou aquele candidato, a direita - que no Brasil é em geral um tanto mais perniciosa que em outros países porque com raras exceções nem ideologia tem - não teve outra opção senão a de ser figurante nesta campanha eleitoral. No máximo conseguiu um lugar na garupa, enquanto espera que o passado volte para ocupar o lugar na história de onde foi retirada pela urnas - mas ao qual pode ser reconduzida por algumas alianças, infelizmente.

Alguns dizem que Lula e o PT não mudaram, estão apenas disfarçados. Pode ser, nunca se sabe o que se passa na cabeça de um grupo cuja obsessão pelo poder se tornou tal que já não enxerga que é melhor perder do que se trair. Mas acho mais daninho - e os petistas deveriam ser os mais preocupados com isto - é justamente a hipótese contrária, que Lula e o PT tenham realmente mudado, que tenham vendido a alma e agora tenham de entregá-la quando forem vitoriosos.

Se não voto em Lula não é por ele ter sido torneiro mecânico, nem por falar com erros - o importante é saber dizer, não falar, já dizia um político antigo. Não voto em Lula porque ele faz promessas que não podem ser cumpridas, não por ser despreparado, mas por achar que para ganhar vale tudo, que depois se dará um jeito. Lula deixou o reino da política para ingressar no do marketing, tornou-se um produto, um iogurte, um sabonete a ser vendido no mercado por propagandas embaladas pela emoção e pela comoção em campanhas cujo sucesso será celebrado com vinhos caros e lugares refinados.

Com a mesma ausência de remorso com a qual se bebe um vinho caro depois de falar da miséria se brincou com as esperanças de um povo prometendo mudanças que não virão, não porque são impossíveis, mas porque não são coisas que mudam de uma hora para outra. A conseqüência desta desilusão inevitável será desastrosa, as esperanças de um país melhor, mais justo e livre, que toda a esquerda - que não é monopólio do PT por mais que os petistas digam o contrário incandescidos a distribuir rótulos a todos os adversários - semeou por décadas pode desabar quando as pessoas verem que tudo não mudou como havia sido prometido. Rezo para estar errado, mas ao falhar não por ser incompetente, nem por ser despreparado, nem por nenhum destes preconceitos, mas sim porque não usou o bom senso para prometer e alimentar esperanças, estarão se chocando os ovos da serpente porque este povo tantas vezes chamado a acreditar em algo não acreditará em mais nada. Daí sim será hora de ter medo, de ter ódio... (Alexandre Gomes)