08 de julho de 2026
Articulistas

O que esperar do governo Lula


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Eleito Lula e passada a euforia inicial pelo fato histórico de termos um brasileiro de origem humilde e que, depois de quase sessenta anos de uma vida de dificuldades e lutas, chega à Presidência da Republica, entramos na fase das reflexões mais sensatas sobre o que esperar do próximo governo. A primeira grande dificuldade que o analista cuidadoso encontra para visualizar o futuro é definir qual o PT que chega ao poder. Será o partido socialista e revolucionário de sua juventude, defensor de uma reforma agrária radical e de um Estado burocrático que controle o aparelho produtivo do país ou o partido mais moderado e que se apresentou nas recentes eleições como depositário das esperanças de quase 60% da população, independente de classes sociais?

O PT já deu sinais claros de que é hoje um partido organizado, com um comando claro e que sabe mandar e exige disciplina rígida de seus quadros. Qualquer posição de rebeldia em relação às diretrizes de sua direção é punida com extrema dureza. Muito diferente dos demais partidos brasileiros, ele tem uma funcionalidade muito grande e sabe como lidar nas negociações com os demais partidos no âmbito do Congresso. Além disso, não tem qualquer dificuldade em mudar antigas idéias e posições se sentir que precisa fazer isso para manter-se no poder.

Outra questão fundamental, para podermos olhar para frente com alguma chance de acerto, é como o novo governo vai lidar com a crise gravíssima de confiança, que enfrentamos hoje. Os mercados internacionais estão convencidos de que caminhamos inexoravelmente, para uma moratória externa e interna, e o crédito em moeda forte para nosso país não existirá, ao longo de 2003. A vitória de um esquerdista histórico para chefe de nosso governo, reforçou essa convicção.

Essa restrição externa manterá nossa economia em recessão pelo menos em 2003, além de provocar um aumento significativo da inflação, nos próximos meses. Como Lula conduzirá sua política econômica nesses tempos de grandes dificuldades, depois de vender sonhos para a sociedade durante a campanha eleitoral é uma grande incógnita. O ajuste externo que já está em andamento, e que constitui a única saída para a crise atual, exige que a economia continue em recessão e que nosso real continue depreciado. Como conciliar isso com as expectativas da população por mudanças, que melhorem sua condição de vida também, é uma informação necessária, para traçarmos um cenário viável, para os próximos anos. Como o PT vai fazer essa quadratura do circulo, se é que vai conseguí-lo, domina o debate nesses últimos dias. Para os pessimistas isso não é possível, e em algum momento depois da posse Lula vai cobrar uma política de expansão dos negócios, com juros mais baixos e mais gastos sociais, o que nos levará sem dúvida a uma crise terminal.

Os mais otimistas acreditam que a maturidade política da direção atual do PT vai fazer com que o governo banque uma recessão em seu primeiro ano de governo, para estabilizar a economia e permitir um governo ativo na busca de suas promessas eleitorais, nos anos seguintes. Nesse caso, Lula convocaria uma equipe econômica mais ortodoxa, para realizar esse trabalho sujo de ajuste econômico. Os grandes problemas dessa alternativa estão na escolha de nomes, que tenham condições técnicas para assumir o comando da economia e na blindagem política, para permitir que eles excutem com êxito seu trabalho. (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES. www.primeiraleitura.com.br)