08 de julho de 2026
Saúde

Pacientes ganham qualidade de vida

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

O relato de pacientes que passaram pelo tratamento cirúrgico mostra que eles ganharam vida nova com a cura da hiperidrose. A mudança vai desde a inclusão até a possibilidade de executar atividades corriqueiras que pareciam um verdadeiro martírio para eles.

A estudante de Direito Giovanna Zolezzi, 24 anos, conta que lembra de suas mãos e seus pés molhados desde pequena. “Escrever era terrível, porque o papel ficava molhado e todo borrado. Não podia usar sandália, porque o pé escorrega. Alguém estendia a mão para cumprimentar e a minha estava pingando suor. Era muito constrangedor”, comenta.

Ela afirma que nunca deixou de fazer nada em função da hiperidrose, mas era comum passar por situações incômodas. “Nunca tive problema com namorado, pelo menos eles nunca reclamaram. Mas eu sei que é ruim andar de mãos dadas com alguém que está com a mão sempre molhada e gelada”, lamenta.

Zolezzi fez a cirurgia há três meses em Bauru. Ela diz que sentiu a dor nas costas quando acordou da anestesia, mas garante que a sensação de ter as mãos quentes e secas é indescritível. “Agora eu posso usar creme na mão, coisa que nunca fiz porque melecava tudo. Está tudo normal. Eu recomendo a cirurgia, porque só quem tem sabe o que é”, completa.

Ana (nome fictício), 25 anos, lembra que, quando criança, a avó punha um lenço entre a mão dela e a sua para que não escorregasse quando ela saíam para passear. “Quando comecei a ir à escola, molhava os cadernos, os desenhos, tudo. Detestava desenhar ou pintar porque borrava tudo, ficava um horror”, ressalta.

Segundo ela, a adolescência foi pior. “Todo rapaz que pegava na minha mão falava ‘Nossa, que mão molhada. Está nervosa?’. eu queria sumir. Os colegas mais chegados, sem dó nem piedade sempre diziam ‘Credo, que mão melada’”, destaca.

Sem contar as situações constrangedoras do trabalho, onde ela tinha que passar o telefone para alguém ou dar a mão para todo mundo. Ela enxugava as mãos nas calças e a roupa é que ficava molhada. Operada em setembro de 2000, ela garante que foi sua experiência mais gratificante. “Hoje dou a mão para todo mundo, abraço e pego coisas sem receio de deixar minhas marcas molhadas”, conclui.

Leandro (nome fictício) operou em agosto de 2000 e resume o procedimento numa única frase. “Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. É como se eu não tivesse tido mãos durante 18 anos e, da noite para o dia, ganhasse duas perfeitas. Quando acordei e vi minhas mãos secas, não acreditei e acabei chorando. Minha mãe até disse que não sabia que eu sofria tanto”, conta.

Comportamento

Os pais da estudante Patrícia Nogueira Rosa, 17 anos, contam que até o humor dela mudou depois da cirurgia. Ela tornou-se menos arredia e bem menos irritada.

“Eu ganhei até apelido quando era criança por ter a mão molhada e gelada”, ressalta a garota, sem revelar o apelido. Ela lembra que morria de vergonha de cumprimentar as pessoas, que manchava as folhas em dia de prova, sem contar a caneta que escorregava das mãos.

“Quando ia à danceteria, não podia passar as mãos no cabelo, não podia usar maquiagem, a sandália escorregava. Era horrível, eu morria de vergonha. Eu não pegava na mão de ninguém sem passar a mão na roupa antes e tinha roupa que eu não podia fazer isso”, desabafa.

Questionada sobre o que a deixava mais constrangida, ela repete as queixas de todas as outras pacientes, salientando que não podia usar as sandálias de plástico que estavam na moda e toda a sua turma usava. Na escola, até os professores a observavam, porque era uma aluna que vivia pedindo para ir ao banheiro para lavar as mãos.

A toalha era indispensável na academia, ela tinha que colocá-la na mão para não molhar os cabelos quando fazia abdominais, ou mesmo para segurar os aparelhos.

“Eu operei há um mês. Semana passada fui à missa e pude rezar com as mãos juntas, coisa que eu nunca havia feito antes. Eu via todo mundo passando hidratante na praia e eu não podia. Até hoje tenho medo de usar creme nas mãos e começar a suar de novo. E ainda estou esperando chegar dezembro, com muito calor, para ter certeza”, afirma.

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Martírio dominical

A família de Brenda Yara Santana de Oliveira, 16 anos, só entendeu a gravidade do problema quando a garota começou a se recusar a ir à missa. “Ela está fazendo catequese para crismar e precisa ir à missa. Eu disse que ela estava em formação e que era minha obrigação cristã encaminhá-la. Depois da crisma ela poderia decidir entre continuar ou não. Aí, ela começou a chorar”, conta a mãe, Eliza Oliveira.

Segundo ela, Brenda alegou que não queria ir porque na hora de rezar o Pai-nosso teria que dar a mão para outras pessoas e que elas ficariam enxugando as mãos depois. “Quando ela falou isso chorando - e eu até me emociono de lembrar -, eu chamei meu marido e disse que precisávamos procurar um tratamento urgente, porque vi que o problema dela era mesmo muito sério”, afirma.

Eliza salienta que Brenda passou por vários tratamentos antes disso e que tomou calmantes por muito tempo porque a ansiedade piorava o quadro. Bastava ver que os comprimidos estavam acabando para ela implorar e insistir com a mãe para buscar nova receita.

“E realmente piorava, porque ela ia fazer prova, ficava toda a hora enxugando a mão na calça para não molhar a folha. Ela toca teclado. Na apresentação de fim de ano, quem ia tocar depois dela achava que o teclado estava minando água. Não saía mais com os amigos e ficava isolada na escola. Para mim, era normal, mas ela tinha complexo. Ela sempre reclamou, mas a gente não levava a sério”, ressalta a mãe.

Brenda afirma que a transpiração excessiva tornava sua vida horrível, principalmente na escola. “Às vezes você encosta a mão nas pessoas e ela está molhada. Ia fazer prova molhava tudo por causa do nervoso. Era só sair de casa e ficar com medo de alguém reparar que eu já começava a suar”, lembra.

A estudante destaca que não podia usar roupas coloridas, porque as blusas ficavam molhadas e manchadas. Suas únicas opções eram o branco e o preto, que disfarçam melhor. Por isso, também se recusava a sair com a turma.

Ela passou pela cirurgia há menos de um mês e garante que sua vida já mudou muito. “Estou saindo mais, posso cumprimentar as pessoas, estou mais desinibida, estou mais feliz”, resume.

Indagada sobre os comentários entre os amigos, ela responde que ninguém fala nada, porque ela vivia isolada de todos e ninguém nem reparava nela. A mãe completa que ela estava sempre sozinha na porta da escola e que até dizia para a filha procurar se enturmar mais.

“Eu mantinha distância mesmo, porque sempre tem uma brincadeirinha de pegar na mão e eu ficava com medo deles notarem e saírem falando. Eu tinha vergonha”, acrescenta.

Para a família, a cirurgia foi um alívio para Brenda, que tornou-se mais tranqüila, sorridente e até paciente. “Agora queremos propagar isso para todo mundo, porque sabemos do sofrimento dela. E a alegria de pai e mãe é ver nossos filhos felizes”, encerra Eliza.