Um filho brasileiro, outro canadense. Duas filhas brasileiras e uma terceira indiana. Filho na Austrália, alemã em casa. Enquanto uma mãe arruma as malas do filho que vai partir, outra prepara o quarto para receber o filho desconhecido e adolescente. É esta a rotina de muitas famílias pelo mundo afora. A diferença entre elas é a presença de um intercambiário, um adolescente que participa de Programa de Intercâmbio de Jovens e viaja para outro país como embaixador de sua nação.
A disposição para fazer amigos internacionalmente, aprender novas maneiras de se comunicar, compreender melhor a si mesmo e os outros, e conhecer outros modos de fazer as coisas em uma cultura diferente são as motivações desses adolescentes e das famílias que os recebem como filhos.
Um dos novos filhos de Bauru é o californiano de Sacramento Ryan Christoffer Waters, 18 anos, que chegou na cidade no dia 11 de agosto. Ele não escolheu o Brasil, mas foi designado para o País e está adorando a experiência local.
“Estou gostando muito, mas ainda tenho muitas dificuldades. O pessoal aqui é muito simpático, todo mundo quer me ajudar, sempre estão me corrigindo para melhorarâ€, comenta com o sotaque que ainda não conseguiu abandonar em três meses de intercâmbio.
Como já havia concluído a high school norte-americana está fazendo novamente o terceiro colegial, para se enturmar e conhecer os costumes nacionais.
Neste pouco tempo, aprendeu a gostar muito das pessoas com quem convive, principalmente dos seus três irmãos bauruenses e seus pais adotivos que o receberam da maneira “mais confortável e paciente possívelâ€.
Entretanto, salienta que o fato mais surpreendente é o comportamento festeiro do povo brasileiro. “A maneira como vocês vivem é muito interessante. Trabalham durante a semana e cada final de semana é férias. Cada fim de semana tem um motivo para comemorar, reunir pessoas. Lá, nos EUA não é bem assim. A gente vai ao cinema, pega um filme e fica em casaâ€, comenta Ryan.
Outro fator que o faz gostar do Brasil é a comida. “Gostei de toda a comida que me ofereceram até agora.â€
Em contrapartida, diz que tem saudade dos dois irmãos que deixou nos Estados Unidos. Um deles, motivado por sua atitude, quer viajar ao México. Entre as suas atividades só conseguiu manter o futebol, tendo que deixar de lado a luta livre, a bateria e o clarinete.
Mesmo com as diferenças e a distância, Waters revela que o mais importante neste processo de intercâmbio é o aprendizado interior. “Já aprendi bastante. Só falta aprender a língua. Mas uma coisa muito importante para mim é o aprendizado sobre mim mesmo, as coisas que eu acredito... Isso não estava nos meus planos com tanta intensidade, mas já colho resultadosâ€, avalia.
Compasso de espera
A bauruense Laura Joaquim Taveira está superansiosa pela viagem à Austrália, marcada para janeiro. Ela ainda não sabe o lugar certo onde vai ficar, nem a família que irá recebê-la, mas diz que está se preparando para isso.
Entretanto, não é o medo do desconhecido, nem uma possível rejeição que fazem a estudante, 16 anos, temer a viagem, mas sim a saudade das pessoas que vão ficar aqui: a família, o namorado e o cachorro.
“Afinal, a família que vai me receber é uma família que também já enviou um filho para um outro país. Então, eles acabam meio que nos colocando no lugar. É mais tranqüilo.â€
Laura também já recebeu em sua casa uma irmã canadense, a surfista Júlia, 17 anos. Elas foram irmãs por um mês e meio, mas não se tornaram superamigas. “O tempo que ela ficou em casa foi bem legal e estranho ao mesmo tempo. Eles são muito diferentes da gente. Ela era muito fria, mas uma excelente pessoa.â€
Ao contrário da irmã postiça, Laura quer chegar na Oceania conquistando todo mundo com a alegria do brasileiro e está até aprendendo a tocar pandeiro para fazer festa com a nova família.
Terra do canguru
A Austrália também é o país que colocou a empresária Cilene Maria Stoppa Campoi e o marido João Campoi entre a saudade e a novidade. Ela se despediu do filho Alexandre em setembro, mas recebeu a australiana Hellen para suprir a lacuna.
“Particularmente, estou supertranqüila. A partir do momento em que ele falou: eu quero ir, eu vou fazer o intercâmbio, prestou a prova e passou, eu comecei a me preparar psicologicamente. Para mim é mais importante que ele cresça, se desenvolva, tenha um amadurecimento. É a forma que tenho para lhe deixar uma herança.â€
A mãe de Alexandre não esconde a saudade do filho, que fez aniversário na última semana. “Não está sendo dolorido, porque sei que ele volta. A passagem está marcada para o dia 20 de agostoâ€, comenta, contando os dias.
Ela reconhece que os meios de comunicação facilitam a aproximação dos dois, mas prefere se controlar e deixar que o filho a procure. “Não posso abrir as asas até a Austrália. É longe demais. Já fiz muito isso e faço com os meus filhos que estão aqui, mas o Alexandre precisa de liberdade para ter esse crescimento que nós esperamosâ€.
Cilene também fala com carinho de mãe legítima sobre a filha australiana Hellen, 16 anos. Ela lamenta que a garota tenha deixado os amigos, mas comemora a companhia para a filha de 13 anos, quando o irmão Alexandre foi embora.
â€œÉ um experiência e tanto. Estou tratando-a com o mesmo carinho, tudo que faço para um, faço para outro. Ela me obedece, me respeita e não faz nada daquilo que não pode. Isso é muito positivoâ€, comenta.
Nesse processo, a mãe bauruense também descobriu como os brasileiros são “pegajosos†e gostam de abraçar, beijar e fazer carinho. “A criação deles é mais fria, mas ela está se achegando a nós. Já ganhou até uma viagem de presente da avó (minha mãe)â€.