07 de julho de 2026
Ser

Bem longe de casa

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

Um filho brasileiro, outro canadense. Duas filhas brasileiras e uma terceira indiana. Filho na Austrália, alemã em casa. Enquanto uma mãe arruma as malas do filho que vai partir, outra prepara o quarto para receber o filho desconhecido e adolescente. É esta a rotina de muitas famílias pelo mundo afora. A diferença entre elas é a presença de um intercambiário, um adolescente que participa de Programa de Intercâmbio de Jovens e viaja para outro país como embaixador de sua nação.

A disposição para fazer amigos internacionalmente, aprender novas maneiras de se comunicar, compreender melhor a si mesmo e os outros, e conhecer outros modos de fazer as coisas em uma cultura diferente são as motivações desses adolescentes e das famílias que os recebem como filhos.

Um dos novos filhos de Bauru é o californiano de Sacramento Ryan Christoffer Waters, 18 anos, que chegou na cidade no dia 11 de agosto. Ele não escolheu o Brasil, mas foi designado para o País e está adorando a experiência local.

“Estou gostando muito, mas ainda tenho muitas dificuldades. O pessoal aqui é muito simpático, todo mundo quer me ajudar, sempre estão me corrigindo para melhorar”, comenta com o sotaque que ainda não conseguiu abandonar em três meses de intercâmbio.

Como já havia concluído a high school norte-americana está fazendo novamente o terceiro colegial, para se enturmar e conhecer os costumes nacionais.

Neste pouco tempo, aprendeu a gostar muito das pessoas com quem convive, principalmente dos seus três irmãos bauruenses e seus pais adotivos que o receberam da maneira “mais confortável e paciente possível”.

Entretanto, salienta que o fato mais surpreendente é o comportamento festeiro do povo brasileiro. “A maneira como vocês vivem é muito interessante. Trabalham durante a semana e cada final de semana é férias. Cada fim de semana tem um motivo para comemorar, reunir pessoas. Lá, nos EUA não é bem assim. A gente vai ao cinema, pega um filme e fica em casa”, comenta Ryan.

Outro fator que o faz gostar do Brasil é a comida. “Gostei de toda a comida que me ofereceram até agora.”

Em contrapartida, diz que tem saudade dos dois irmãos que deixou nos Estados Unidos. Um deles, motivado por sua atitude, quer viajar ao México. Entre as suas atividades só conseguiu manter o futebol, tendo que deixar de lado a luta livre, a bateria e o clarinete.

Mesmo com as diferenças e a distância, Waters revela que o mais importante neste processo de intercâmbio é o aprendizado interior. “Já aprendi bastante. Só falta aprender a língua. Mas uma coisa muito importante para mim é o aprendizado sobre mim mesmo, as coisas que eu acredito... Isso não estava nos meus planos com tanta intensidade, mas já colho resultados”, avalia.

Compasso de espera

A bauruense Laura Joaquim Taveira está superansiosa pela viagem à Austrália, marcada para janeiro. Ela ainda não sabe o lugar certo onde vai ficar, nem a família que irá recebê-la, mas diz que está se preparando para isso.

Entretanto, não é o medo do desconhecido, nem uma possível rejeição que fazem a estudante, 16 anos, temer a viagem, mas sim a saudade das pessoas que vão ficar aqui: a família, o namorado e o cachorro.

“Afinal, a família que vai me receber é uma família que também já enviou um filho para um outro país. Então, eles acabam meio que nos colocando no lugar. É mais tranqüilo.”

Laura também já recebeu em sua casa uma irmã canadense, a surfista Júlia, 17 anos. Elas foram irmãs por um mês e meio, mas não se tornaram superamigas. “O tempo que ela ficou em casa foi bem legal e estranho ao mesmo tempo. Eles são muito diferentes da gente. Ela era muito fria, mas uma excelente pessoa.”

Ao contrário da irmã postiça, Laura quer chegar na Oceania conquistando todo mundo com a alegria do brasileiro e está até aprendendo a tocar pandeiro para fazer festa com a nova família.

Terra do canguru

A Austrália também é o país que colocou a empresária Cilene Maria Stoppa Campoi e o marido João Campoi entre a saudade e a novidade. Ela se despediu do filho Alexandre em setembro, mas recebeu a australiana Hellen para suprir a lacuna.

“Particularmente, estou supertranqüila. A partir do momento em que ele falou: eu quero ir, eu vou fazer o intercâmbio, prestou a prova e passou, eu comecei a me preparar psicologicamente. Para mim é mais importante que ele cresça, se desenvolva, tenha um amadurecimento. É a forma que tenho para lhe deixar uma herança.”

A mãe de Alexandre não esconde a saudade do filho, que fez aniversário na última semana. “Não está sendo dolorido, porque sei que ele volta. A passagem está marcada para o dia 20 de agosto”, comenta, contando os dias.

Ela reconhece que os meios de comunicação facilitam a aproximação dos dois, mas prefere se controlar e deixar que o filho a procure. “Não posso abrir as asas até a Austrália. É longe demais. Já fiz muito isso e faço com os meus filhos que estão aqui, mas o Alexandre precisa de liberdade para ter esse crescimento que nós esperamos”.

Cilene também fala com carinho de mãe legítima sobre a filha australiana Hellen, 16 anos. Ela lamenta que a garota tenha deixado os amigos, mas comemora a companhia para a filha de 13 anos, quando o irmão Alexandre foi embora.

â€œÉ um experiência e tanto. Estou tratando-a com o mesmo carinho, tudo que faço para um, faço para outro. Ela me obedece, me respeita e não faz nada daquilo que não pode. Isso é muito positivo”, comenta.

Nesse processo, a mãe bauruense também descobriu como os brasileiros são “pegajosos” e gostam de abraçar, beijar e fazer carinho. “A criação deles é mais fria, mas ela está se achegando a nós. Já ganhou até uma viagem de presente da avó (minha mãe)”.