08 de julho de 2026
Auto Mercado

Uma rara herança

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Não é sempre que alguém tem a sorte grande de receber uma polpuda e milionária quantia em dinheiro como herança de um ente falecido. O mesmo se pode dizer quando o objeto ou bem a ser herdado trata-se de um veículo extremamente raro e, principalmente, difícil de ser visto rodando pelas ruas ou estradas.

É o caso da família bauruense Siniciato. Depois de superar a tristeza pela morte de um dos seus patriarcas, o marceneiro Antonio Siniciato, os dez irmãos uniram-se e resolveram cuidar para sempre daquele que era o maior “xodó” da vida de seu pai: um Pontiac 1959 “rabo de peixe”.

O carro já foi uma atração à parte no bairro Bela Vista, onde Antonio morava e fazia questão de desfilar o imponente veículo. Mas, para não fugir à regra, atualmente o automóvel quase não dá o “ar da graça” pelas vias bauruenses. Está guardado na garagem da marcenaria que por vários anos foi o seu local de trabalho.

Um de seus filhos, Pedro, justifica a decisão de rodar pouquíssimo com a preciosidade. “Além de ter mais nove herdeiros, o trânsito de Bauru é louco demais para arriscar sair com ele. Vai acabar estragando-o”, diz ele. Entretanto, mesmo praticamente “escondido”, basta uma pequena saída da garagem para atiçar a curiosidade alheia. “Que carro é esse, tio?”, perguntou um menino que se aproximou.

Para quem nunca viu um Pontiac, a primeira impressão é, no mínimo, apaixonante. A começar pela mescla de cores vermelha e branca ao longo da carroceria. Também pelo seu imenso tamanho, que conta com aproximadamente 5,5 metros de comprimento e cerca de dois metros de largura, dimensões inimagináveis para os modernos e compactos automóveis atuais.

Na frente, chamam a atenção o “X” que serve para separar a grade e os faróis duplos, além do enorme pára-choque maciço cromado. Ainda na dianteira, um detalhe marca o capô: um símbolo em forma de um avião metálico estilizado, que retrata, não por acaso, a influência da companhia Boeing no projeto de tal série especial do Pontiac, a Parisiense.

“Ele nasceu graças a uma encomenda do embaixador americano na França, que a Boeing projetou e a General Motors contruiu nos Estados Unidos. Por isso, resolveu-se batizar a série de Parisiense”, explica Pedro.

Mas o maior charme do veículo é a traseira, tradicionalmente conhecida como “rabo de peixe”. Um dos itens mais curiosos e exóticos é a existência de um farol branco com duas “orelhas” em cima. Visto de perto, assemelha-se ao rosto de um gato. A lanterna do freio é oval e localiza-se logo acima do pára-choque, também cromado a exemplo de seu “irmão” dianteiro.

Mas é no interior, quase inteiramente original, que o Pontiac exibe todo seu charme e elegância. Como se não bastasse o painel e o volante pintados na cor prata, o automóvel ainda conserva o mesmo estofamento, com sofisticados bancos elétricos, e o pequeno radinho de válvulas de fábrica. Os únicos acessórios instalados foram um conta-giros, dois relógios e uma tocador de CD.

Mecanicamente, o Pontiac Parisiense também impressiona. O motor é um autêntico seis cilindros em linha e o câmbio é automático. Além disso, a família também fez questão de conservar sua originalidade em muitos aspectos. “A lona de freio e o silencioso nunca foram trocados. Apenas os pneus foram substituídos, mas as dimensões são as mesmas”, garante Pedro.

Paixão

O Pontiac era uma das paixões da vida de Antonio Siniciato, conta Pedro. “Qualquer defeitinho que dava ele não demorava nem um dia para consertar. E não usava peças nacionais, apenas importadas, como o carburador e o copo do distribuidor. Ele tinha um cuidado tão grande que não deixava ninguém sequer bater a porta do carro”, afirma ele.

O herdeiro ressalta que seu pai era um fanático por automóveis, mas pelo Pontiac o sentimento era especial. “Por esse o queixo dele caiu e quando ele trabalhava na lavoura de café, nos anos 20 e 30, ele falava que um dia iria ter um veículo. E conseguiu”, ressalta Pedro.

Entretanto, adquiri-lo foi praticamente uma obra do acaso. “Meu pai comprou no início dos anos 60, depois que o Pontiac veio de São Paulo e teve de parar em Bauru com problemas mecânicos. Com isso, o carro acabou ficando na cidade para ser vendido e ele aproveitou a oportunidade”, revela Pedro. E acrescenta: “Diz a história que somente duas unidades do Parisiense vieram ao Brasil. Um teria caído na ribanceira e o outro é este.”

E quando o assunto é uma possível venda, Pedro é enfático. “Se alguém estiver interessado, terá que conversar com dez pessoas para resolver a questão”, brinca ele.