08 de julho de 2026
Articulistas

O último baile


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O presidente eleito quer remendar a Constituição para possibilitar a mudança da data da posse. A pretensão é a de transformá-la numa grande festa, cheia de chefes de Estado. Quem sabe no dia 6 de janeiro, passada a ressaca do Réveillon o Fidel, o Chávez, o Bush, o Chirac e outros menos ranqueados possam pessoalmente render homenagens ao novo rei-operário. Concordo que deva ser aborrecido comer poeira em Brasília logo no primeiro dia do ano depois de uma noite de comes-e-bebes. Por outro lado, mudar de última hora a Carta Magna em nada vai contribuir para fortalecer a imagem de um país sem estabilidade institucional. Até a chega ao Palácio do Planalto de Collor, o Breve, presidentes da República iniciavam o mandato em 15 de março. A escolha de 1 de janeiro baseou-se no argumento lógico de que a coincidência entre a passagem do ano e a posse do presidente facilita o planejamento administrativo. O governo cessante pode arruinar todo um ano fiscal em apenas 45 dias com um orçamento zero quilometro em mãos.

Seria bom não fazer muita festa depois que FHC, com a opa e o capelo da legendária Oxford, usou do conhecido eufemismo tucano para declarar que no Brasil não existem famintos, mas des-nu-tri-dos. Uma grande comemoração injustificada passou à história. O Baile da Ilha Fiscal acabou sendo o último da Monarquia justamente quando D. Pedro II pretendia fazer crer ao mundo que estava tudo bem. O Imperador mandou que o Conde de Ouro Preto, ministro da Viação e Obras Públicas, providenciasse os recursos para o bufê. O apelido dele era “Affonso Vintém” por causa do imposto compulsório que criou sobre o passe de bondes. Mais festeiro que o Paulo Medina, o conde não teve dúvidas... Passou a mão em cem contos de réis do Tesouro e deixou sem socorro os flagelados da seca que assolava o Ceará há cinco anos.

O Baile da Ilha Fiscal teve lances curiosos. Quando visitei o local guiado pelo chefe do Arquivo Histórico da Marinha, estranhei que dois mil convidados tivessem se acomodado naquele palácio de estilo gótico (tardio) tão pequeno. “Ficou menor ainda quando descobriram que só havia um único banheiro na ilha” – emendou o oficial. A Família Imperial ficou lá dentro e os convidados do lado de fora. Os rodopios do Conde D’Eu e da Princesa Isabel tocados à valsas de Strauss tomavam todo o espaço do salão. Dez mil litros de cerveja, 188 caixas de vinho e 80 caixas de champagne francês provocaram necessidades irreprimíveis de micção nas damas e nos cavalheiros. A criadagem foi despachada em baleeiras ao continente e voltou com uma centena de baldes que as mulheres escondiam sob as anquinhas, armações de arame usadas para estufar os vestidos. Era só dar uma baixadinha discreta. Os cavalheiros faziam a então já tradicional “cerquinha” para se aliviarem à beira-mar. Tudo resolvido.

Ministro das Relações Exteriores, o Visconde de Cabo Frio percebeu que havia 604 perus no cardápio e mandou escondê-los no porão com medo de que a delegação peruana se ofendesse. A imprensa gozou dizendo que só ficaram as “peruas” do baile. E eu que sempre achei que essa gíria era recente...

À meia-noite, os arautos soaram as trombetas anunciando que a mesa estava posta. Foi o estouro da boiada. Comilança desenfreada. Em poucas horas foram devorados 3 mil pratos de sopa de 22 qualidades, 50 peixes grandes, 800 latas de lagostas, 800 quilos de camarão, 500 tigelas de ostras, 800 latas de trufas, 1500 costeletas de carneiro, 1300 frangos, 250 galinhas, 800 inhambus, 300 presuntos, 64 faisões, 80 marrecos, 12 cabritos e 50 mil quilos de frutas, fora os doces, vermutes e liquores.

Depois da sobremesa a Família Imperial viu-se obrigada a deixar a ilha. Aí é que o circo pegou fogo. O baile passou das 6 horas. A criadagem recolheu pelos cantos 17 pufes (almofadinhas que realçavam os bumbuns das madames), vários lenços de cambraia, nove dragonas de militares, oito raminhos de corpete (usados para esconder o decote dos seios), dois coletes de senhoras e uma infinidade de ligas. O único negro convidado, o engenheiro André Rebouças, sintetizou em seu diário: “Foi um bacanal!”.

Uma semana depois, no dia 15 de novembro de 1889 foi proclamada a República e a Família Imperial convidada a deixar o País. Sem o alvoroço das massas. Sem sangue. Somente com o testemunho perplexo e desavisado de mais ou menos 600 soldados que sequer sabiam a razão mais profunda daquele momento. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)