A atual globalização não conseguiu penetrar no campo da mobilidade da mão-de-obra, que continua sendo objeto de severas restrições em nível mundial que, longe de serem superadas, estão se agravando com o passar do tempo, particularmente no mundo desenvolvido. De fato, se reconhecemos que as grandes desigualdades nos níveis de desenvolvimento socioeconômico são a causa fundamental das migrações, então a globalização contribui notavelmente para aumentá-las. É preocupante observar que a norma e a legislação internacional em matéria de migrações evidenciam grandes vazios ou falhas. Por um lado, a Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migratórios e seus Familiares, aprovada pelas Nações Unidas em 1990, depois de mais de uma década, ainda não foi ratificada, apesar de representar um grande progresso quanto à preservação dos direitos.
No plano internacional, inevitavelmente são necessários maiores compromissos para facilitar a mobilidade temporária e permanente dos trabalhadores. Felizmente, parece haver consenso de que a solução de muitos dos problemas relacionados com este fenômeno exige normas e medidas multilaterais, baseadas em uma cooperação entre Estados que permita formas de governabilidade ou manejo racional da migração internacional. Também no plano nacional, nos países receptores de maciços fluxos migratórios, é necessário criar mecanismos que facilitem a integração dos migrantes e sua plena incorporação nas sociedades de destino, em aspectos como educação, serviços de saúde e proteção social.
As correntes migratórias mais fortes são as de trabalhadores com qualificação profissional relativamente baixa, interessados em se deslocar do Sul para o Norte. A migração intra-regional latino-americana, por sua vez, perdeu intensidade, apesar de ter sido um dos fatores mais importantes do desenvolvimento de nossos países e dos processos de integração.
Os países latino-americanos participam de dois fóruns intergovernamentais, a Conferência Regional sobre Migração (América do Norte e América Central) e a Conferência Sul-Americana sobre Migrações. Ambas representam a base fundamental para constituir uma agenda regional sobre migração e integração que levem à governabilidade das migrações em nível regional. Para isso é necessário desenvolver entre as duas conferências o intercâmbio de experiências e informação, para impulsionar ações que atendam problemas comuns e desenvolver a cooperação solidária entre países receptores, de trânsito e emissores de migrações. (O autor, Otto Boye Soto, é secretário permanente do Sistema Econômico Latino-Americano - Sela)