09 de julho de 2026
Saúde

Dentes ficam porosos e quebradiços

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

A fluorose dentária é um defeito no desenvolvimento do esmalte que acontece quando a criança ingere flúor em excesso no período em que os dentes estão sendo formados. O elemento químico é fundamental para a prevenção das cáries. Porém, usado em altas concentrações rotineiramente, ele enfraquece o esmalte, que fica poroso e frágil. A conseqüência são dentes manchados e quebradiços.

A doença se apresenta entre os 11 meses e os sete anos de vida, quando os dentes permanentes estão se formando debaixo da gengiva.

“O problema é que os pais só vão perceber a fluorose quando os primeiros incisivos permanentes eclodirem na boca, por volta dos seis ou sete anos de idade. Aí, não há mais o que fazer, senão restaurar os dentes já danificados”, comenta a professora Marília Afonso Rabelo Buzalaf, do Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP).

Segundo ela, o flúor só é benéfico ao ser humano quando usado em doses baixas. Recomenda-se que a ingestão diária do produto seja entre 0,05 miligramas (mg) e 0,07 mg de flúor por quilo de peso. Portanto, quanto menor a criança, menos flúor ela pode consumir.

Aos dois anos de idade as crianças pesam, em média, 12 quilos. Elas podem ingerir, no máximo, 0,84 mg de flúor por dia. “Para se ter uma idéia, uma caixinha daqueles achocolatados prontos para beber - de algumas marcas - fornecem 40% deste total”, observa a especialista.

Um litro de água fluorada contém entre 0,6 mg e 0,8 mg de flúor, segundo padrões do Ministério da Saúde. Se a criança tomar uma caixinha do achocolatado e ingerir um litro desta água num dia, ela já terá excedido a quantidade do elemento químico considerada saudável ao organismo humano. Por isso, é essencial controlar a dieta da criança.

Buzalaf explica que a fluorose manifesta-se em diferentes graus, conforme a quantidade de flúor incorporada aos dentes. Quanto maior é a dosagem excessiva, maiores são também os prejuízos.

De acordo com Ole Fejerskov e outros, no livro “Fluorose dentária - um manual para profissionais de saúde”, o esmalte normal é um material sólido e microporoso formado por cristais arranjados num padrão altamente organizado.

Estes cristais ficam tão unidos e os espaços entre eles é tão pequeno que o esmalte parece translúcido (a luz passa através dele). A olho nu, a superfície é lisa e brilhante, de cor branco-pálida mesmo quando seco.

Os primeiros sinais da fluorose (grau 1) são linhas brancas bem finas que atravessam toda a superfície do esmalte ou manchas brancas que aparecem na ponta dos dentes apelidadas de “cobertura de neve”. Algumas vezes, elas são tão sutis que só podem ser percebidas com clareza após a secagem do dente.

Quanto mais flúor a pessoa ingeriu no período de formação do esmalte, mais pronunciadas e maiores se tornam estas manchas. No grau 2, as linhas e áreas brancas são um pouco mais pronunciadas.

No grau 3, essas linhas aparecem acompanhadas por manchas brancas, opacas, nebulosas e de formato irregular. Em alguns casos, áreas do dente podem parecer levemente castanhas, indicando que já há absorção de corantes.

Nesta fase, é possível ver as alterações mesmo sem a secagem da superfície. Observando o dente no microscópio, percebe-se um aumento na porosidade externa do esmalte e maior exposição do esmalte interno e da dentina.

A partir do grau 4, as linhas brancas vão tomando conta de todo o dente e o esmalte começa a apresentar depressões e buracos. Isso acontece porque o nível de porosidade é bem grande. Algumas vezes o dente já eclode com a coloração branca e opaca.

Nos estágios mais graves de fluorose, esses buracos tendem a aumentar de diâmetro e aparecer em vários pontos da superfície do dente, embora ocorram com mais freqüência nas extremidades. Com o tempo, as depressões formam faixas horizontais pegando toda ponta dos dentes.

Na fluorose avançada, o esmalte é tão poroso que se rompe e descasca. A parte interna dos dentes começa a absorver corantes dos alimentos e vai ficando cada vez mais escura, em tons de marrom.

Quanto mais poroso, mais frágil fica o dente. Na fluorose grave, existe perda quase total do esmalte. O formato dos dentes é bastante afetado pela destruição e as áreas claras praticamente não existem mais. Nestes casos, os dentes podem ser fraturados facilmente durante a mastigação, por exemplo.

É importante observar que a fluorose pode manifestar-se também nos dentes de leite. Segundo Fejerskov, os sinais são muito parecidos. A diferença é que os dentes de leite são naturalmente mais brancos que os permanentes e a manifestação da doença na primeira dentição é bem mais branda.

Essas particularidades tornam a observação mais difícil e os graus mais leves da patologia podem passar despercebidos pelos pais.