Ele não diz com todas as letras, mas fica claro pelo tom bem-humorado e levemente irônico que usa em certos momentos para falar da ex-banda, que Nando Reis está muito bem sozinho. O cantor, compositor e músico esteve em Bauru há duas semanas para apresentar o show do seu último CD e mostrou no Sesc, diante de um grande público, que a sua carreira solo não só está montada sobre uma estrutura sólida de composições consagradas, mas também promete muito para o futuro. Infernal, como o nome do seu disco, no palco, Reis cantou, tocou, pulou, gritou e ganhou o público em quase duas horas de show com a energia de um iniciante. Antes da apresentação, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao JC onde falou sobre sua saída do Titãs, sua nova carreira e a amizade com Cássia Eller. A seguir os melhores trechos.
Jornal da Cidade - Como está sendo fazer shows agora numa carreira verdadeiramente solo? Nando Reis - Agora... finalmente, está sendo ótimo. Todos esses anos eu sempre trabalhei nos períodos de férias do Titãs ou espremido pela agenda do Titãs, então é muito diferente a maneira com a qual eu estou podendo desenvolver e planejar tudo na minha carreira, os shows, os trabalhos. A possibilidade de não estar preso aos Titãs aumentou muito as minhas chances de desenvolver novos trabalhos.
JC - Em 95, quando gravou o primeiro solo (“12 de Janeiroâ€), você saiu em turnê? Reis - Eu fiz uma pequena turnê, de uns dez show. A segunda, do “Para Quando...†(... o Arco-Íris Encontrar o Pote de Ouro, de 2000), foi um pouco maior mas também não foi o suficiente, tanto que o “Infernal†é na verdade uma correção para a minha frustração de não ter conseguido tocar, levar aquele show - que eu achava muito bom - para a comunidade de pessoas que eu achava que mereceriam ver o show. Eu trouxe o Barrett e o Alex, os americanos que gravaram comigo, e durante três meses a gente ensaiou e fez um show muito bom, que teve uma boa receptividade que, no entanto, não tocou muito. Então eu resolvi gravar para ter um registro. Ficou tão bom que resolvi lançar.
JC - A sua falta de tempo foi a principal razão da saída do grupo? Reis - É fundamentalmente, unicamente, a verdadeira razão. Só que isso como decorrência envolve um monte de outras opções. Tudo veio a partir dessa questão do tempo, da quantidade de tempo que eu tinha para me dedicar às minhas vontades. O Titãs é uma banda grande, de tal tamanho que, estando dentro dela, é impossível priorizar outra coisa e isso exclui todas as outras opções, que ficam secundárias. Na hora que eu vi que não queria priorizar os Titãs... o que cruelmente parece uma negação - e que não é de fato - é apenas uma outra perspectiva diante daquilo que redundou no meu desligamento. Porque não dá para estar mais ou menos lá.
JC - Como era a escolha de repertório na banda? Reis - Era uma banda muito numerosa então a escolha era através de eleição. Aliás sempre foi da mesma maneira: eleição, votação, audição para escolha... Tudo que entrou foi através de escolha nossa. Nunca ninguém disse nada do que a gente deveria gravar ou deixar de gravar.
JC - E na hora desse escolha, tinha aquela coisa de “entrou duas suas e só uma minhaâ€, um certo ciúme? Reis - Sempre e não só no Titãs isso acontecia mas em todas as outras bandas acontece. No Titãs principalmente, porque não tinha uma liderança. Era a democracia... da ditadura.
JC - Você canta, toca violão, guitarra e baixo, compõe, produz. Qual dessas atividades você prefere ou em qual delas você se considera melhor? Reis - Eu me tornei baixista para tocar e tocando no Titãs. Eu tenho uma noção total tanto das minhas qualidades como baixista quanto das minhas características e limitações. Nunca me julguei um baixista e nunca pretendi ser um. Nesse sentido eu acho que sou melhor compositor e acho que qualquer uma dessas características está contaminada com aspectos das outras, mesmo que tragam a má qualidade do baixista, do cantor, etc. Em resumo, acho que sou melhor compositor, mas agora quero colocar o cantor na frente do violonista.
JC - Que tipo de som influenciou e influencia a sua música? Reis - Fui fortemente influenciado - muito menos estilisticamente e muito mais emocionalmente - por tudo aquilo que ouvi e gostei de música e ai posso citar Caetano Veloso e Gilberto Gil como pontos principais na minha infância, e até hoje, e depois Stevie Wonder, Bob Marley e Neil Young. Se pudesse resumir nos cinco dedos da minha mão direita de influências eu diria que são eles.
JC - Você vai lançar um disco no próximo ano? Reis - Devo entrar em estúdio em fevereiro e gravar no primeiro semestre, mas não sei quando ele sai no início do segundo semestre, no fim.
JC - Você pretende gravar músicas inéditas? Reis - É... não sei, em princípio não serão regravações.
JC - E o disco da Cássia Eller que você produziu traz que tipo de material? Sobras de gravações? Reis - O disco está pronto e é um grande mistério. É um disco maravilhoso com onze músicas, uma surpresa. Ele sai agora em dezembro e não vai ser só uma surpresa mas vai causar um impacto. É lindo.
JC - Como você entrou em contato com a Cássia pela primeira vez? Reis - A gente se conheceu acho que em 1992. Ela estava indo para o terceiro disco e eu estava quase gravando o meu primeiro disco e querendo mostrar as minhas composições. A Marisa (Monte) até então tinha sido a única cantora a me gravar. Então a gente se encontrou, eu mostrei e ela gravou “E.C.T.â€, depois gravou outras. Ela tocava músicas minhas nos seus shows. Até que em 1998 a gente se reencontrou e daí sim, finalmente, se conheceu. Nesse período ela fez o convite para que eu produzisse o seu disco (“Com Você... Meu Mundo Ficaria Completoâ€, de 1999) e da lá pra cá a gente ficou muito amigo. Trabalhamos muito e demos muitas risadas juntos.
JC - Você já foi gravado por vários artistas de peso, além da Cássia Eller e da Marisa Monte. Na voz de quem você gostaria de ouvir uma de suas músicas? Reis - Eu adoro todas as pessoas que gravaram as minhas músicas e, não por vaidade mas por admiração mesmo, eu posso resumir na minha modesta pretensão que se o Roberto Carlos ou o João Gilberto gravassem uma música minha eu iria ficar impossível.