08 de julho de 2026
Articulistas

Cão


| Tempo de leitura: 4 min

Meu cachorro também é um ser humano, mas não imexível. Só acho injusto que seja tolhido no seu direito constitucional de ir e vir, consagrado na legislação de todo país civilizado. Juquinha é da raça poodle-toy. Por ser baixinho corre constantemente o risco de ser estraçalhado pelos brutamontes que circulam no bairro, guiados pelos seus donos de cara tão feia como a do que vai na coleira. Sou obrigado a colocar o Juquinha no colo cada vez que uma fera se aproxima. Aí, sobra pra mim.

Deixo claro que não reivindico privilégios mas, como dizia George Orwell (1903-1950), “todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros”. É verdade que ele fazia uma crítica ao stalinismo com sua política de homogeneizar a população de maneira a que todos agissem em função dos interesses da burocracia do Estado. Em contrapartida esses cães ferozes e seus proprietários de igual caráter não têm o direito de ocupar os passeios e obrigar os caminhantes a passarem ao largo.

O mais grave é que os humanos bípedes estão sendo vítimas de ataques dessas feras numa freqüência mórbida cada vez maior. De nada adiantam as retumbantes declarações de indignação dos políticos e projetos de lei que ficam engavetados ou, se aprovados, só servem para aumentar a longa lista das leis que não “pegam”. Peculiaridade jurídica brasileira. Aliás, não precisaria nem lei. Basta educação, civilidade. Coisas cada vez mais raras na sociedade que continua aguardando os criadores e proprietários desses animais se enquadrarem na obrigação de proteger a integridade do próximo. Ou então serem responsabilizados pelos estragos que estão causando.

A culpa não é dos canis familiaris que deixaram há muito de ser canis lupus para estabelecer relações de amizade com o homem. Estão domesticados há 40 mil anos. O problema está no bicho-homem, degenerados que querem fazer o cão voltar a suas origens, via mutações genéticas, tornado-o novamente animal bravio. Homo homini lupus - o homem é um lobo para o homem. O velho adágio romano que Thomas Hobbes (1588-1679) utilizou em Leviantã, ainda é atual. Essa obra é sobre a filosofia do materialismo, a moral do egoísmo e a política do despotismo. Um dos pilares da teoria do Estado moderno. A sociedade só pode avançar se cada um de nós ceder parte da sua liberdade ao Estado que vai impor a ordem em benefício do todo.

Cães comuns bem treinados podem guardar muito bem uma residência, uma indústria, seja o que for, sem pôr em perigo não-deliqüentes. Meu vizinho Zeca, labrador preto de porte avantajado, adora o meu Juquinha e trata a todos com exemplar educação. Reflete o caráter dos donos. Geralmente late à aproximação de gente suspeita. Cumpre sua função de alertar. Os inocentes gansos do Capitólio salvaram Roma de ataques inimigos se esgüelando nas caladas da noite. Hoje temos câmeras de TV, alarmes eletrônicos, vigilância computadorizada e há ainda quem insista em fazer do seu cão uma máquina de estraçalhar. As clínicas veterinárias recebem cada vez mais clientes que querem operar as cordas vocais dos seus “animais de estimação” para transformá-los em feras silenciosas. Não querem ser incomodados pelos latidos embora pouco se importem com os gritos de dor e horror das suas vítimas.

Multiplicam-se os casos de crianças e adultos atacados por esses cães, com ou sem voz. Há casos fatais. Freqüentes. Os responsáveis alegam que se trata de casualidades, tipo “largaram o portão aberto”. Portão não tem juízo. E fica tudo por isso mesmo. O dono do rotweiller que me atacou na Getúlio Vargas sequer mudou o seu hábito de ser arrastado todas as noites pelo seu animal sem a focinheira do Ávila, aquele vereador que fez a sua parte legislando a respeito. Esses bichos além de cegos têm faro deficiente. Ainda mais no escuro. Atacam o primeiro vulto e não raro matam os próprios tratadores.

A presença de cães é proibida nas praias porque deixam dejetos com os protozoários que podem conter. Além do perigo da hidrofobia. A praia do bauruense está na via pública eleita por modismos. Deveria também ser área restrita tanto a vira-latas quanto a cães de grife. Se houvesse um jeito de impor uma fiscalização eficaz, com multa aos infratores, os maus cinófilos tomariam tento. Infelizmente a Prefeitura ainda não criou radares fotográficos para o trânsito de cães e seus donos. Refiro-me a aqueles “pardais” pendurados em postes à espera dos incautos de quatro rodas. Seria outra grande fonte de receita se flagrassem quatro patas, não é verdade? (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)