Negro, pobre e inculto, o trabalhador braçal Atílio não passaria de uma figura desprezível na preconceituosa sociedade rural do sudeste brasileiro no início do século 20, se não fosse por um detalhe. Conhecido pelo apelido de Parabala, por supostamente ter o “corpo fechadoâ€, ele era tido como uma espécie de bruxo, um homem quase invencível.
Figura misteriosa, Parabala transforma a vida da Fazenda Rio Comprido ao ser descoberto como raptor de Alminha, filha do seu patrão, o homem mais poderoso do local. Branca, rica, instruída, casada com um descendente de alemães e mãe de dois filhos (também raptados), Alminha é a mulher por quem o trabalhador braçal nutre uma paixão até então contida.
Assim como acontece na lenda grega de Helena, cujo rapto pelo príncipe troiano Páris desencadeia uma guerra, a atitude de Parabala gera uma perseguição implacável do seu ex-patrão, que não mede esforços para recuperar a filha e os netos.
Esse é o início da trama de “Parabalaâ€, livro que Márcio ABC lança hoje no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paivaâ€. A obra, publicada pela Scortecci, é o primeiro romance de ABC, jornalista formado pela Universidade de Bauru, atual Universidade Estadual Paulista (Unesp), que há 20 anos atua na imprensa paulista.
A história é inspirada em um caso tido como real, que o autor ouviu do sogro, o indigenista Álvaro Villa Bôas. “Ele me contou essa história uma vez, mas de uma rápida, em cinco minutos. A gente não sabe se é uma história real ou se é uma lenda que foi passando de geração em geraçãoâ€, diz ABC.
Assim que ouviu o caso, o autor pensou em escrever um livro, mas ainda amadureceu a idéia por algum tempo antes de começar a desenvolver a trama, em 1999. “A história do livro é uma adaptação. Tive que trabalhar a idéia, compor o personagem, as tramas paralelas porque o que eu tinha ouvido era suficiente para um conto apenasâ€, explica.
O grande achado do jornalista é a narrativa em três tempos: antes, durante e depois do rapto, um expediente que prende o leitor e a cada capítulo faz com que ele consiga colocar mais uma peça no quebra-cabeças no qual se transforma a história, recheada de contrastes.
Apesar do suspense, a violência a ação e de tocar na ferida do preconceito racial e social, “Parabala†é uma história de amor. â€œÉ uma história de amor com todas as suas vertentes e os ingredientes que uma história desse tipo tem direito. Embora ela não seja açucarada como uma novelaâ€, afirma.
A experiência de escrever uma obra de ficção se revelou uma boa surpresa para o autor, acostumado à realidade do dia-a-dia das redações. “A ficção acabou servindo como uma válvula de escape, porque nela você domina os acontecimentos quando escreve a históriaâ€, explica.
ABC já tem outro livro pronto, o romance “Dialogando com o Diaboâ€, que ainda não tem previsão de lançamento. “Parabala†estará à venda, a partir de amanhã na Livraria Asabeça, de São Paulo, através do site www.asabeca. com.br e na Livraria Jalovi, em Bauru.
• Serviço
Lançamento e noite de autógrafos de “Parabalaâ€, de Márcio ABC. Hoje, às 20h30, no Centro Cultural de Bauru “Carlos Fernandes de Paivaâ€. Av. Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 235-1092.
Negro, pobre e inculto, o trabalhador braçal Atílio não passaria de uma figura desprezível na preconceituosa sociedade rural do sudeste brasileiro no início do século 20, se não fosse por um detalhe. Conhecido pelo apelido de Parabala, por supostamente ter o “corpo fechadoâ€, ele era tido como uma espécie de bruxo, um homem quase invencível.
Figura misteriosa, Parabala transforma a vida da Fazenda Rio Comprido ao ser descoberto como raptor de Alminha, filha do seu patrão, o homem mais poderoso do local. Branca, rica, instruída, casada com um descendente de alemães e mãe de dois filhos (também raptados), Alminha é a mulher por quem o trabalhador braçal nutre uma paixão até então contida.
Assim como acontece na lenda grega de Helena, cujo rapto pelo príncipe troiano Páris desencadeia uma guerra, a atitude de Parabala gera uma perseguição implacável do seu ex-patrão, que não mede esforços para recuperar a filha e os netos.
Esse é o início da trama de “Parabalaâ€, livro que Márcio ABC lança hoje no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paivaâ€. A obra, publicada pela Scortecci, é o primeiro romance de ABC, jornalista formado pela Universidade de Bauru, atual Universidade Estadual Paulista (Unesp), que há 20 anos atua na imprensa paulista.
A história é inspirada em um caso tido como real, que o autor ouviu do sogro, o indigenista Álvaro Villa Bôas. “Ele me contou essa história uma vez, mas de uma rápida, em cinco minutos. A gente não sabe se é uma história real ou se é uma lenda que foi passando de geração em geraçãoâ€, diz ABC.
Assim que ouviu o caso, o autor pensou em escrever um livro, mas ainda amadureceu a idéia por algum tempo antes de começar a desenvolver a trama, em 1999. “A história do livro é uma adaptação. Tive que trabalhar a idéia, compor o personagem, as tramas paralelas porque o que eu tinha ouvido era suficiente para um conto apenasâ€, explica.
O grande achado do jornalista é a narrativa em três tempos: antes, durante e depois do rapto, um expediente que prende o leitor e a cada capítulo faz com que ele consiga colocar mais uma peça no quebra-cabeças no qual se transforma a história, recheada de contrastes.
Apesar do suspense, a violência a ação e de tocar na ferida do preconceito racial e social, “Parabala†é uma história de amor. â€œÉ uma história de amor com todas as suas vertentes e os ingredientes que uma história desse tipo tem direito. Embora ela não seja açucarada como uma novelaâ€, afirma.
A experiência de escrever uma obra de ficção se revelou uma boa surpresa para o autor, acostumado à realidade do dia-a-dia das redações. “A ficção acabou servindo como uma válvula de escape, porque nela você domina os acontecimentos quando escreve a históriaâ€, explica.
ABC já tem outro livro pronto, o romance “Dialogando com o Diaboâ€, que ainda não tem previsão de lançamento. “Parabala†estará à venda, a partir de amanhã na Livraria Asabeça, de São Paulo, através do site www.asabeca. com.br e na Livraria Jalovi, em Bauru.
• Serviço
Lançamento e noite de autógrafos de “Parabalaâ€, de Márcio ABC. Hoje, às 20h30, no Centro Cultural de Bauru “Carlos Fernandes de Paivaâ€. Av. Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 235-1092.
____________________
Trecho
“Atílio nunca fora chamado a dizer que sim ou que não, mas na Rio Comprido havia quem jurasse que o negro resolvera ficar não só porque a proposta tinha sido boa, mas porque se encantara com a noiva de Matheaus. A hipótese, absurda para aqueles tempos, seria perfeitamente aceitável anos mais tarde, quando Atílio levaria Alminha para longe, já encarnado como protagonista de inúmeras lendas - ou histórias verídicas, sabe-se lá - que o fizeram conhecido por léguas e léguas como Parabala, um homem que carregava no peito sete balas cravadas e dali jamais retiradas, cinco cicatrizes profundas de punhal e duas marcas feitas a ferro quente; um que se fazia sombra para se livrar de tocaias e inimigos nas encruzilhadas da noite; alguém que, após alguns meses na Rio Comprido, nunca mais conseguiria ser visto como um sujeito comum; ele era o bruxo, a assombração, o negro formoso que nos bailes tocados a sanfona e licor de anis ludibriava as donzelas com a astúcia do diabo: o corpo fechado em que o chumbo era vencido e a curiosidade, alimentada.†“Parabalaâ€, Capítulo 4