O automóvel é um dos bens de consumo mais popularizados e massificados no Brasil e no mundo. Hoje, descontando-se o fator poder aquisitivo e comparando com décadas passadas, as facilidades para comprá-los são imensas.
Mesmo assim, os carros ainda constituem-se, principalmente entre os jovens, como um dos principais símbolos de status e poder econômico. “O jornalista Gilberto Dimenstein defende que nossa sociedade é a do ter e não do ser. Por isso, o automóvel é um sinônimo de dinheiro e posse, o que hoje é valorizado em detrimento das qualidades e do caráter pessoais. É uma mentalidade comum e creio que vai demorar muito para mudar.â€
A afirmação é da psicóloga bauruense Regina Maura Pereira Torres, que já foi responsável pela realização de cursos direcionados a jovens e atualmente participa e executa testes durante o processo de retirada da carteira de habilitação. Segundo a especialista, tal realidade aproxima-se muito mais dos homens. “Eles são mais ligados à questão do status do que elas, especialmente entre os jovensâ€, afirma.
E é justamente a partir deste ponto que as diferenças entre os sexos em relação aos veículos começam a ser notadas. Para a psicóloga, é normal todos almejarem uma vida melhor, com o carro inserido neste contexto. “Entretanto, não vejo meninas desejando uma BMW. Elas querem um carro prático, confortável, econômico e que não as deixem na mão. Acima de tudo, buscam independência no ir e vir.â€
Já o homem, continua Regina, agrega tudo isso, mas o carro adquire uma conotação de status e poder. “Quando um pai dá um carro 1.0 para uma garota, para ela está tudo bem, desde que este tenha alguns itens de confortoâ€, frisa ela. E acrescenta: “Já o carro dos sonhos dos homens é aquele que vem com turbo, por exemplo. Mas, isso está muito mais ligado a um público de uma classe sócioeconômica mais abastada.â€
A psicóloga acrescenta que os automóveis, por possuírem tamanho prestígio social, também têm a capacidade de fazer com que seus motoristas levem para a direção todas as suas frustrações. “A pessoa conduz para o carro tudo aquilo que ela éâ€, ressalta Regina.
Impulsividade
Outro aspecto que diferencia o comportamento de homens e mulheres no trânsito, principalmente entre os jovens, é a impulsividade. Segundo Regina, esta pode ser medida por tudo aquilo que se herda e pelo que vai sendo mudado pela história de vida, aprendizagem, família, situação social e amadurecimento.
“Às vezes, a pessoa é impulsiva por natureza, mas consegue controlá-la. E ela tende a diminuir conforme a idade, a não ser que algo leve o indivíduo a outros caminhos, como as drogas, alcoolismo ou a violência atualâ€, resume a psicóloga.
Apesar disso, conforme ela, naturalmente o homem é mais impulsivo que a mulher, comportamento cuja origem pode estar nas raízes culturais e sociais de cada indivíduo. “O homem, seja nos relacionamentos ou na vida em geral, foi sempre educado para ser o primeiro, o protetor e o responsável por tomar iniciativas. Isso está mudando, mas lentamenteâ€, considera Regina.
Isso não significa, complementa a psicóloga, que a mulher não seja impulsiva. “Ela também é, mas culturalmente as garotas foram muito mais reprimidas, o que já não está acontecendo hoje. Por isso, não se sabe como será a geração daqui a 20 anos. A criação de homens e mulheres foi injusta para ambos. Os primeiros são mais cobrados e as mulheres foram refreadas demaisâ€, salienta.
Exemplos dessa impulsividade pode ser vista na própria experiência da psicóloga como aplicadora dos testes do processo seletivo para tirar a carta. Ela revela que, após perguntar aos jovens como estes se imaginariam sendo motoristas já habilitados no trânsito, as respostas de homens e mulheres variam bastante.
Os rapazes, conforme Regina, argumentam que comportar-se-iam “normalmenteâ€, correndo quando fosse possível, e associam seus medos mais a eventuais punições do que a possibilidade de causar danos a alguém. “Já as meninas destacam que serão boas motoristas porque são atenciosas, calmas e que irão dirigir para elas e os outrosâ€, compara ela.
Apesar disso, a psicóloga sustenta ainda não ter sido comprovado se tal medo feminino é gerado pelo fato da mulher gerar a vida ou pela forma mais repressora em que foi criada. “Isso é inconsciente e instintivoâ€, analisa Regina.
Preocupada em evitar possíveis rotulações entre homens e mulheres, sejam eles adolescentes, adultos ou idosos, a psicóloga faz questão de enfatizar que tais características e distinções entre os sexos mencionadas são apenas observações gerais. “Isso não quer dizer que todos sejam desta maneira. Sempre há os que pensam diferenteâ€, pondera a profissional.
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Tríade da esperança
Para a psicóloga Regina Maura Pereira Torres, somente uma tríade formada por educação, conscientização e punições mais severas é capaz de melhorar a questão do trânsito no País. “Porque conseguimos transmitir a consciência ecológica nos adolescentes e não a de trânsito?â€, questiona ela. “Isso é fruto da educaçãoâ€, acrescenta.
Por isso, Regina entende que as escolas deveriam manter disciplinas que não ensinem apenas princípios ecológicos, mas também de trânsito. “Poderia ser uma matéria que falasse do assunto em um contexto mais abrangente, envolvendo a cidadania. Desta forma a criança tornar-se-ia um agente multiplicador dos conhecimentos adquiridos, reprimindo seus pais por tabelaâ€, conclui ela.