08 de julho de 2026
Ser

Educar é uma arte que pede regras

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 4 min

No processo educativo, na maioria das vezes, os pais se preocupam muito se devem impor regras ou não, e em muitos casos, se esquecem do modelo que representam para os filhos.

Dessa forma, explica a psicóloga especialista em terapia de casais e famílias Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, que não adianta impor regras e princípios se os pais não forem coerentes no seu próprio comportamento. “Os adolescentes são muito críticos e questionam muito esses aspectos. As nossas atitudes podem dizer mais do que as palavras.”

E esses valores, segundo ela, são ensinados através de exemplos. Pais emocionalmente saudáveis, que se comportam com integridade e coerência oferecem bons modelos para os filhos e aumentam as chances de que eles também cresçam emocionalmente saudáveis.

Por isso, a necessidade de saber dizer não desde que as crianças são pequenas e manter a firmeza em seguir as regras que foram indicadas como corretas, se tornam grandes aliados na construção do indivíduo.

Entretanto, a psicóloga ressalta que o stress da vida moderna, a correria, a falta de tempo, leva à impaciência com os filhos e, muitas vezes, o não é mal-interpretado.

“Se o pai fala um não e não tem nem tempo de explicar o por quê, isso é negativo. O clima familiar é fundamental. Se o casal tem um bom relacionamento, se a convivência familiar é saudável, lúdica, a criança vai crescer num ambiente propício para desenvolver suas melhores qualidades.”

A vida moderna também leva muitas vezes à omissão dos pais, que numa reação em cadeia, acabam por não dar aos filhos os devidos cuidados e atenção, o que os torna sem regras e limites.

Diálogo

â€œÉ preciso conversar sempre. Vemos que os pais hoje são mais permissivos em relação a sexo, por exemplo. Sabem que a filha adolescente transa com o namorado, mas preferem fazer de conta que o assunto não é com eles.”

Vanin revela que até por constrangimento, os pais não se aprofundam na questão e não discutem os aspectos que implicam nessa atitude: métodos anticoncepcionais, prós e contras da sexualidade precoce, doenças sexualmente transmissíveis, risco de gravidez e até a questão emocional envolvida. “Não é só deixar ou proibir, é preciso esclarecer dúvidas, conversar, trocar idéias”, acrescenta.

Isso também precisa ser conversado em relação a drogas, amizades, escolha profissional e todos os assuntos que dizem respeito ao adolescente.

Fases

É importante ler e informar mais sobre as características de cada fase do desenvolvimento para não cobrar da criança coisas que ela não tem condições de fazer. Entre a maioria dos pais, é comum, por exemplo, atribuir ao filho mais velho responsabilidades precoces, que muitas vezes são incompatíveis com a sua idade.

“Quem tem filhos de várias idades precisa estar atento para o que pode ser esperado da criança nas diversas fases. Não se deve nunca estabelecer comparações entre os filhos; cada criança deve ser respeitada na sua individualidade e valorizada por suas próprias características. Devemos incentivar a criança a fazer aquilo que ela é capaz. Por exemplo, se ela já tem condições de comer sozinha devemos incentivá-la nesse sentido. Mas não devemos exigir mais do que ela pode fazer, respeitando a sua faixa etária.”

A psicóloga aponta também que outro ponto em que muitos pais esbarram é na permissividade. Não se deve proibir uma coisa num dia e permitir no outro. A criança e até o adolescente ficam sem parâmetros.

“Precisamos ter claro para nós mesmos o porque da proibição. Temos que ter critérios para isso. Existem pais que proíbem só para exercer a autoridade e mostrar ‘quem manda nessa casa’. Isso reflete a insegurança deles próprios. Se não deixamos o filho fazer determinada coisa porque ameaça a sua segurança ou não é próprio para a idade, devemos deixar isso claro. Os pais também têm que ter as próprias referências e não permitir uma coisa só porque o pai do amigo permite. Um exemplo é dar o carro na mão do menor. Geralmente, há muita pressão do adolescente nesse sentido, como: ‘Todo mundo deixa’, ‘meu amigo dirige’. Em casos assim é preciso conversar, mostrar as conseqüências, e ser firme.”

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Manual dos pais

• Responsabilidade

O senso de responsabilidade, de assumir as conseqüências dos atos, vai se estruturando no decorrer da vida, e os pais podem favorecer isso não protegendo demais os filhos.

• Sensibilidade

Quando convivemos com alguém é comum notarmos as mudanças de humor, se o outro está com problema ou não. Os pais precisam desenvolver a sensibilidade para perceber quando existe alguma coisa errada com o filho. Adolescentes são muito sensíveis a influências do grupo, por isso nessa fase a atenção tem que ser redobrada.

• Temperamento

A ciência ainda não desvendou todos os mistérios do comportamento humano. Existem pessoas mais sensíveis às influências ambientais, há outras que reagem melhor às pressões e situações adversas. Parece haver um fator constitucional em jogo. Por isso, quando lidamos com os nossos filhos temos que utilizar também nossa intuição e sensibilidade para poder agir de forma mais equilibrada considerando as diferenças individuais.