08 de julho de 2026
Regional

Obra se torna referencial histórico

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 4 min

Para Inês de Castro Gracia dos Santos, responsável pela biblioteca municipal de Gália, o livro “Doces Lembranças de Outrora – Povoamento do Vale das Antas (1845-1950) – Gália e Fernão Dias” é o primeiro a reunir um registro completo e minucioso sobre o passado das cidades. “Nós temos um registro de São José das Antas. Mas são registros que se contradizem muito. Então por isso a importância do livro da Rose e da Zeila. Porque elas realmente buscaram os fatos, os dados, e hoje a gente pode confiar nesses fatos, não há mais essa distorção da história”, aponta.

Darci Gonzaga dos Santos, ex-diretor do Departamento de Educação e Cultura, e um dos colaboradores do projeto, avalia a riqueza histórica da obra. “Um livro desse naipe evidentemente vai trazer uma efervescência nas lembranças do passado e sobretudo vai marcar uma história que praticamente seria esquecida se ele não tivesse sido escrito. E nós brasileiros temos a memória tão curta que se faz necessário que alguém tenha a coragem, a boa vontade e o esforço para fazer um trabalho dessa natureza, a fim de que o passado seja marcado para alimentar as esperanças do futuro.”

Segundo a autora Zeila, o resgate desse passado através dos depoimentos foi uma oportunidade dos antigos reconstituírem suas histórias e todo esse material é um tesouro que deve ser preservado. “Eu vou falar uma coisa como avó. Às vezes a avó tem tanta vontade de passar para os filhos ou para os netos alguma coisa interessante e ela não consegue porque muitas vezes eles não se interessam”, afirma a autora. “Essas pessoas de idade têm prazer de contar. Muitos filhos e muitos netos não sabem o tesouro que eles tem em casa. Então um trabalho desse que nós fizemos eu acho que qualquer cidade poderia fazer. Porque qualquer cidade, qualquer família, qualquer pessoa tem uma história”, conclui.

Histórias da História

Entre tantos aspectos marcantes do passado de Gália e Fernão Dias, presentes no livro, a autora destaca a história da chamada fazenda dos ingleses, que existiu entre as décadas de 20 e 50, formada por cerca de 2 mil habitantes. Segundo Rose, o local possuía grande efervescência cultural e recursos avançados para a época. “A fazenda dos ingleses era uma verdadeira cidade. Eles tinham igreja, cinema, campo de futebol, campo de golfe, telefone, teatro e avião. Quando se lançou o filme King Kong no Brasil foi lançado primeiro na fazenda dos ingleses. Eles eram poderosos. Vinha a turma do teatro de São Paulo fazer teatro aí (na fazenda). Era uma companhia de ingleses. Eles plantavam café, colhiam e exportavam para a Inglaterra”. No livro, as autoras também abordam o período do fim da década de 30 até o pós-guerra, quando Gália se firmou como um dos mais importantes centros mundiais de cultivo de bicho-da-seda (sericicultura) e conheceu dias de grande desenvolvimento.

Entre as personalidades marcantes presentes na obra, Rosemari destaca a figura do Padre Celso como um dos nomes importantes da história da cidade na década de 30. Segundo ela, o padre estimulou a vida cultural de Gália. “O padre Celso estava avançado um século, porque ele construiu escola primária, ginásio, biblioteca. Ele promovia atividades que estavam avançadas no tempo.”

Outra doce lembrança resgatada é a história do futebol amador da cidade, que conquistou o bicampeonato na região, por volta de 1960. A autora justifica que abriu uma exceção e excedeu um pouco a data delimitada pelo livro (1950) para escrever também sobre esse fato histórico que é bastante marcante para os moradores antigos da cidade. Segundo Rose, o livro também reserva algumas curiosidades, como o fato de Gália estar localizada do lado espanhol do Tratado de Tordesilhas “a cidade não pertencia às Capitanias Hereditárias”, afirma.

Filho ilustre

O autor de novelas Benedito Ruy Barbosa é um entre tantos personagens que figuram no livro “Doces Lembranças...”. O escritor nasceu em Gália, em 1931, mas saiu da cidade ainda criança, quando completou um ano. Já seus avós viveram no local por cerca de uma década. “Nas férias ele (Benedito) vinha passear na casa dos avós que ainda moravam aqui, então é por isso que ele gosta do Rio das Antas, que ele cita em novelas”, afirma Rosemari.

A família do escritor, segundo a autora, teve uma participação expressiva na cidade. Um dos avôs, Antônio Elias Barbosa, foi redator do primeiro jornal local, “O Progresso”, em 1928. O outro, Antonio Rodrigues Medeiros, foi construtor de um trecho da Estrada de Ferro Noroeste, no início do século XX, e da Estrada de Ferro Paulista, em 1925. Rose afirma que a família de Benedito contribuiu consideravelmente com o processo de pesquisa, através do fornecimento de dados e fotografias. “Um primo do Benedito Ruy Barbosa (Luiz Desiró Barbosa) fez cópia dos questionários e mandou para o pessoal antigo que ele conhecia, que estava no Estado de São Paulo. Ele me ajudou tanto com fotografias quanto com os questionários, porque eu não conhecia esses moradores antigos. Depois que a gente montou a história eu enviei por e-mail para o Benedito Ruy Barbosa. Ele autorizou a publicação e incluiu um trechinho da vida dele.”