O médico e pesquisador dos mecanismos da memória, Ivan Izquierdo, 65 anos esteve esta semana em Bauru para uma palestra sobre o seu livro “Tempo de Viverâ€. Argentino naturalizado brasileiro, ele coleciona prêmios no Brasil e no exterior, sendo o mais importante o da Academia de Ciências do Terceiro Mundo, em 1995.
Pesquisador latino-americano mais citado em todos os tempos, Izquierdo é autor de seis livros. Em entrevista ao Jornal da Cidade, o médico conta como foi a passagem de pesquisador para literato. Além de ensinar as pessoas como exercitar a memória e não perder os registros até o final da vida.
Jornal da Cidade - Por que um médico pesquisador decidiu escrever literatura? Izquierdo - Sempre gostei de literatura, mas nunca encontrava tempo para escrever. Com o surgimento do computador, consegui agilizar o meu trabalho e ter tempo para me dedicar àquilo que gosto.
JC - Como o senhor começou a escrever? Izquierdo - A maior editora em língua castelhana me pediu um livro sobre memória. Eu hesitei, mas quando comecei, adorei.
JC - O livro obteve o sucesso esperado? Izquierdo - O livro foi um sucesso na comunidade científica e eu me perguntei, por que vou escrever só isso? Agora eu uso a língua, a palavra. Aprendi que as palavras têm vida própria. Comecei a escrever contos, coisa que eu gosto realmente de escrever, sempre gostei.
JC - Quando o sonho se tornou realidade? Izquierdo - Era um sonho que se tornou realidade. Eu escrevi contos quando tinha 18 e 20 anos, depois parei. Em 1991 comecei a escrever, algumas idéias que já vinham de antes. Comecei a escrever artigos para a Folha de São Paulo e foi um sucesso.
JC - Qual o conteúdo de seus livros, o que garante o sucesso? Izquierdo - Nos livros aparece muito o ser humano, que sou eu. Antes de ser um médico, sou ser humano. Com preferências, amores com muitos amigos e uma família que eu adoro. O cotidiano, o pessoal gosta disso, porque passa a pensar. Quando eu escrevo literatura não sou a mesma pessoa que faz ciência, sou mais comunicativo com o mundo.
JC - Seus conhecimentos científicos são usados na literatura? Izquierdo - Algumas coisas, mas poucos conhecimentos científicos são usados para a literatura.
JC - Como especialista em memória o senhor poderia dar a receita de como conservar os registros? Izquierdo - Para conservar a mémoria só existe uma receita, mantê-la ativa. Tem que ler. É a melhor forma de fazer exercício para a memória.
JC - Por que a leitura é tão boa para a memória? Izquierdo - Quando a gente lê utiliza memória visual. Os cegos usam a memória auditiva quando alguém lê para eles. Nós também usamos a memória auditiva, porque quando nós lemos, as palavras são repetidas e ecoam na nossa cabeça. Além disso, a memória motora é acionada pelas vogais, memória lingüística etc. Imagens são evocadas pelas palavras.
JC - O senhor poderia exemplificar? Izquerdo - Quando pronunciamos a vogal “aâ€, logo penso no feminino. Sei que é algo feminino que vem em seguida. Por exemplo a árvore. Instantaneamente me lembro da árvore e uma delas aparece na minha cabeça.
JC - É verdade que quanto mais se usa a memória melhor ela fica? Izquierdo - Lendo eu exercito toda a memória. É um exemplo característico de uma função que quanto mais se usa, melhor fica. Quanto mais se estuda ao longo da vida, menos grave e menor será a incidência da doença de Alzheimer, se o indivíduo vier a tê-la.
JC - Qual a incidência de Alzheimer após os 85 anos? Izquierdo - A incidência aumenta até os 85 anos de idade. Mas aos 85, de 20 a 25% das pessoas têm Alzheimer. Isto quer dizer que a imensa maioria de pessoas de 85 anos não têm a doença, que está com a minoria. Pessoal de 60 a 70, poucos têm Alzheimer, é menos grave quando o indivíduo tem muita memória para perder.
JC - Como adiar a perda da memória? Izquierdo - A memória com muitos registros demora mais para ser perdida. Uma pessoa com doença de Alzheimer perde a memória que tem em pouco tempo. A memória que sabe muita coisa demora muito mais para se perder, ela se mantém.
JC - O líder chinês Deng Xiaoping, idealizador da “economia socialista de mercado†é um exemplo de quem conservou a memória? Izquierdo - É exemplo de pessoa que exercitou a memória e conseguiu grandes feitos em idade avançada. Ele morreu aos 92 anos, lúcido.
JC - Existem outros exemplos? Izquerdo - Sim, o compositor Verdi revolucionou sua forma de escrever música, depois dos 80 anos. O escritor Borges escrevia poesia aos 84 anos. A rainha Vitória da Inglaterra depois dos 80 anos continuou a dirigir o parlamento. Praticando, exercitando a memória e o raciocínio a gente afasta os problemas de saúde da memória.
JC - Até que ponto a hereditariedade e a alimentação influenciam na memória? Izquierdo - O hereditário, nada. A alimentação tem que ser correta não precisa nenhuma vitamina especial, é só comer a dieta normal e a memória e o resto do organismo vão ficar bem. O fator sorte também deve ser considerado, como por exemplo não pegar nenhuma doença degenerativa cerebral.
JC - Qual o efeito das drogas nos neurônios? Izquierdo - É um horror. A droga é produto de uma sociedade. Todos querem escapar, mas ninguém sabe como. O que parece fácil é complicado. A maconha não destrói os neurônios, ela tem como efeito secundário, por si só ela não destrói. O álcool e a cocaína sim, por razões vasculares e outras. São tóxicos poderosos.
JC - O que é “Tempo de Viver?†Izquierdo - É um livro que fala sobre a correria diária. Parte da seguinte idéia: a medicina nos deu 30 anos a mais de vida no último século. A expectativa média do brasileiro não chegava aos 40 anos, um século atrás. Agora chega aos 70. Então por que corremos tanto se tenho 30 anos a mais para viver.
JC - Corremos atrás do que? Izquierdo - Estamos correndo como se houvesse alguém batendo no formigueiro. Não somos formigas e não pisamos no formigueiro. A desgraça do ser humano é constituir uma sociedade que se enche de informações desnecessárias. Coisas que não nos beneficiam. Vivemos atrás do dinheiro.
JC - Por que vivemos atrás do dinheiro? Izquierdo - Porque pensamos que o importante é ter e não ser. Para que queremos tanto dinheiro? Amanhã posso perder tudo, se for assaltado ou como os argentinos, tiver um “corralitoâ€. Ser é importante.
JC - E o que é Ser? Izquierdo - É viver em comunidade, saber viver em comunidade. Somos o que nossa memória diz que somos. Somos o que nos lembramos. Quem falou isso foi um filósofo italiano. Eu sou o que me lembro. Eu me lembro que meu nome é tal, que tenho esta casa, essas coisas, tenho tais amigos. A forma que eu enxergo eu mesmo, não é igual àquela que me enxergam. Se perdemos a nossa memória, não somos.
JC - O que o indivíduo deveria valorizar para viver bem? Izquierdo - A saúde. O resto não importa. O sujeito com Alzheimer perde a memória e não sabe quem ele é. Meu avô sempre dizia para eu não me preocupar com dinheiro, porque de onde veio, sempre vai ter mais.
JC - Depressão, estresse e ansiedade sempre existiram? Izquierdo - Sim. Eu acho que a ansiedade, depressão e estresse sempre existiram. O que acontece é que agora o diagnóstico é melhor. Na antigüidade, deve ter sido pior. As pessoas morriam muito jovens. O homem primitivo saía da caverna e tropeçava em dinossauro e morria, causando depressão aos seus familiares e amigos. Hoje, diagnostica-se mais e sabe-se mais sobre o assunto. Existem mais psicoterapias, medicamentos como anti-depressivos que há 30 anos não tinha.