11 de julho de 2026
Política

Divulgação parcial de fita gera troca de acusações entre Santana e Bueno

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 5 min

O vereador José Humberto Santana (PV) revelou ontem, na sessão da Câmara Municipal, cópia em CD do conteúdo parcial e sem transcrição de uma fita cassete de um diálogo que supostamente envolve o vereador Roberto Bueno (PTB) e uma pessoa com identidade não revelada nem por Santana nem por João David Felício, ex-presidente do Departamento de Água e Esgoto (DAE). A degravação oficial não foi divulgada pelo Ministério Público (MP), que também não se manifestou sobre o assunto.

Após encerrar seu discurso na tribuna, o parlamentar do PV encaminhou à presidência do Legislativo um requerimento pedindo providências e “medidas cabíveis” para o caso, sem, no entanto, fazer nenhum acusação formal nem indicar quais providências considera necessárias.

Consta no documento entregue por ele à presidência que a reprodução foi parcial. “Para tanto, deverá ser solicitada ao engenheiro João David Felício cópia de inteiro teor da referida gravação”, conclui o requerimento de Santana, que lançou suspeitas sobre a participação de Bueno em algum tipo de articulação não esclarecida.

Embora não tenha citado nomes, Felício confirmou, ontem à noite, o diálogo à reportagem do Jornal da Cidade. “Confirmo o diálogo, inclusive já o fiz diante do promotor (de Justiça da Cidadania, Fernando Masseli Helene)”, completando que foi ele (Felício) o responsável pela gravação da conversa.

A Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania encaminhou a fita para perícia, mas o resultado com a transcrição integral ainda não foi divulgado.

Ainda são desconhecidos a data e o local que envolvem a gravação, cujo teor da cópia distribuída, divulgado em parte, tem diálogos de difícil entendimento e transcrição.

Santana diz que não sabe quem é o empresário que conversa com Bueno. “Essa conversa indica que existia troca de favores, coisas do tipo ‘só vou votar tal matéria se for beneficiado’. Mas é interessante aguardarmos a transcrição da fita para que haja um entendimento real da fala”, diz Santana.

Sobre a expressão “dim-dim”, utilizada supostamente por Bueno durante a conversa, o vereador acredita que seja dinheiro. “Em razão de todas essas colocações é que nós encaminhamos para o plenário da Câmara fazer o seu entendimento.”

“Sou vítima”

Ao usar a tribuna na sessão legislativa de ontem, Roberto Bueno (PTB) diz que é “vítima” do procedimento adotado por Santana para revelar o conteúdo da fita.

“Até então, nós respeitávamos o sigilo que foi pedido pelo próprio Ministério Público. Porque se alguém não sabe, ou finge que não sabe, essa fita foi montada, tem montagem. E eu confesso que desconheço quem gravou, aonde foi e quem são os interlocutores. A voz é bem parecida com a minha”, assume.

Para Bueno, a fita apresentada por Santana é material ilícito. “Neste caso, vossa excelência não está protegido. Quando se trata de crime, não existe imunidade”, afirma.

O petebista entende que o vereador do PV divulgou uma fita criminosa e montada. Ao final da sessão legislativa, o vice-presidente da Câmara pediu a apreensão do material. Ele diz que vai utilizá-lo em processo que moverá contra Santana.

“Peço a transcrição do conteúdo da fala total do vereador José Humberto Santana. Teremos, em breve, muitas novidades, principalmente na esfera criminal, civil e, quem sabe, aqui dentro desta Casa”, conclui. O presidente da Câmara, Walter Costa (PPS), diz que só vai se manifestar sobre o conteúdo da fita após parecer da Consultoria Jurídica da Casa.

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Leia alguns trechos do CD

Voz A (supostamente de Roberto Bueno) Voz B (Não-identificada)

Voz B

... eu pensei que estivesse mais adiantado, viu David, esses detalhes...

Voz A Você sabe quem me ajudou até hoje? Esse moço....

Voz B Você tem falado com o Daré?

Voz A Quem? P..., ele me ligou dos Estados Unidos, comigo, no meu celular. Falou vinte minutos. Falou: “Olha Roberto, tô chegando aí em Bauru. Nós vamos ter que fazer isso, fazer aquilo. Preciso.... Ele voltou. Você ligou para mim? Nem ele.

Voz A Eu sou um cara assim: pode vir tudo contra mim. Eu não dei a palavra para o Izzo? P..., eu tô dando a cara para apanhar, levando cacete. Politicamente para mim, qual seria a jogada mais...

Voz B Hoje, na minha opinião, eu converso sobre isso o dia inteiro na rua. O Izzo, hoje, tá mais fácil apoiar do que atacar.

Voz A Tem o Leandro com adesivo no carro, Catarina, Erlon, Rino, o Eduardo. Tem mais: não vou falar do Caçador e nem do Salvador porque esses dois de manhã eles falam um negócio, à tarde é outro e à noite é outro. Então, não dá. Tem que dar uma maneiradinha.

Voz B E ele já tomou uma posição?

Voz A Tomou nada. Ele tá assim. Ele fala que vai me ajudar, que vai conversar. Nós fizemos um churrasquinho lá no meu escritório, na semana passada, para os funcionários da Câmara. Foram mais de 60 pessoas, só de funcionários da Câmara. Muito mais. Foram umas 100 pessoas. Ficaram até meia-noite fazendo churrasquinho, bebendo e tal. O Paulo Madureira apareceu lá com o negócio do Carlos Braga. “Pô, não sabia que ia ter isso aqui, meu. O Carlinhos Braga precisa vir aqui. Vou trazer ele aqui”. Falei: você pode trazer ele aqui, se não trouxer dim-dim, não adianta vim. Porque de promessa eu já sou muito velho para ficar sendo ensaboado.

Voz A Quem tá pondo a cara para apanhar, quem tá levando cacete sou eu, tá! Eu tô levando cacete. Quer dizer, daqui uns dias eu vou ter uma votação. Seja simpático ou não, eu vou participar de uma votação. O cara que não vai ter esse desgaste, seja para votar a favor ou contra, não tá vinculando nome, não quer porque acha que vai perder.

Voz B Quando que é a votação? Não tá marcado ainda, né?

Voz A Não, não tá.

Voz B Na hora de votar que vai ficar, aí ele é do grupo.

Voz A Vou falar para você já. Aconteça o que acontecer, eu já dei a minha palavra ...

Voz B Não pode virar as costas. Isso não pode fazer.