As farmácias de Bauru já estão com as tabelas novas de preços de medicamentos, reajustados em média 8,5%. Genéricos e remédios de uso contínuo - como os para hipertensão ou diabetes - estão incluídos no aumento, apesar de nem todos os medicamentos terem sofrido a mesma elevação.
Os farmacêuticos afirmam que o reajuste é “tolerávelâ€, tendo em vista que este é o segundo aumento do setor no ano - o primeiro foi em janeiro. Para o consumidor, o aumento vem somar às outras altas de produtos essenciais, como os itens da cesta básica, ao passo que a renda permanece a mesma.
“A gente percebe que até remédios as pessoas negligenciam para comprar. Se estivesse maior o poder de aquisição da população, nós venderíamos maisâ€, diz o comerciante Rui Pagano Júnior, proprietário de uma rede de drogarias em Bauru.
Segundo ele, os consumidores têm reclamado dos aumentos, mas como o preço é tabelado pelo governo, não há o que fazer quanto a isso, a não ser oferecer descontos pontuais. “Meu movimento de novembro caiu 4%, mas não digo que tenha ligação com o aumento de preçosâ€, revela Pagano Júnior.
Para os donos de farmácias, diz ele, a margem de lucro permanece a mesma, equilibrando a defasagem em relação ao universo de bens de consumo que sofreram aumentos maiores durante o ano. O problema é que a indústria e as distribuidoras não estão mais tão abertas a negociar.
“O que vem acontecendo é que a indústria e as distribuidoras vêm apertando as condições de comercialização. Cada vez as condições estão piorandoâ€, afirma Pagano.
Também proprietário de uma rede de farmácias, o comerciante Antônio Augusto Gomes declara que a mesma porcentagem de reajuste do preço de custo do medicamento é repassada ao consumidor, mas a margem de lucro caiu de 30% para entre 25% e 29,5%. “Em dois reajustes anteriores, o governo aumentou no laboratório mas não aumentou na farmáciaâ€, diz.
Outra conseqüência alarmante do aumento nos preços dos remédios é relatada por Gomes. Segundo ele, alguns consumidores não compram todos os medicamentos listados na receita médica ou fazem uso reduzido dos produtos.
â€œÉ uma retração de consumo forçada. O bolso acaba causando um mal maior do que a doença que você temâ€, diz o comerciante. E completa: “O problema é de renda, não é de custo do remédio.â€
Já o comerciante Álvaro Lima Júnior, do setor de drogarias, revela um outro tipo de comportamento por parte dos consumidores. Como o rejauste nos remédios ocorre, na prática, alguns dias após o anúncio oficial, usuários de medicamentos de uso contínuo procuram “estocar†o produto antes da chegada das novas tabelas.
“Percebemos que quem faz medicamento de uso contínuo, como para hipertensão acabou antecipando a compra para o que vai usar em dois ou três meses, aproveitando o preço velhoâ€, declara Lima Júnior.
Para ele, o aumento dos remédios só não é maior porque a indústria precisa justificar o porquê do reajuste - no caso, a alta do custo da matéria-prima em dólar seria o principal fator. “O aumento não é para todos os medicamentos, porque a indústria precisa justificar o aumentoâ€, diz o comerciante.
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Idosos
O aposentado Geraldo Martinez, 69 anos, é representante da camada da população mais prejudicada pelo reajuste nos remédios: os idosos. Ele e sua mulher, Ísis, 65 anos, têm uma renda conjunta de cerca de R$ 1,2 mil por mês, mais o dinheiro de uma casa que alugam.
Por mês, no entanto, o casal de aposentados gasta em média R$ 600,00 apenas em remédios para eles e para a sogra de Martinez, Iracema, 85 anos. “Além dos remédios, nós temos que ir ao médico, fazer exames, e nosso plano desconta só a metade do valorâ€, conta o aposentado
O gasto da família só não é maior porque os remédios são adquiridos na farmácia da Associação dos Aposentados e Pensionistas de Bauru e Região, que concede desconto nos produtos para os sócios. “Eles me dão um desconto de 25% no remédioâ€, diz Martinez. Sem o desconto, a despesa mensal apenas com remédios iria para quase R$ 800,00.
Martinez, sua mulher e a sogra utilizam medicamentos de uso contínuo, principalmente para osteoporose. Apesar do desconto recebido e do preço dos remédios ter sido reajustado “apenas†pela segunda vez em 2002, o aposentado declara que vê sua renda se esvair no balcão da farmácia. “Nunca sobra nada. É um problemaâ€, diz.